Tradicionalmente, associamos cada treinador a uma forma específica de jogar das suas equipas de futebol ou modelo de jogo. Por exemplo, as equipas de Sérgio Conceição são reconhecidas por privilegiarem um estilo mais vertical, com ênfase em passes aéreos e jogo direto, e um perfil agressivo-combativo na conquista de ressaltos e bolas divididas. Por seu turno, Rúben Amorim constrói as suas equipas com dois laterais em amplitude e cinco jogadores interiores a criarem situações de finalização através de passes curtos, constante mobilidade e conquista (em aceleração) do espaço nas costas das defesas adversárias.

O recrutamento de treinadores tem por base a qualidade de jogo das suas equipas e o seu sucesso desportivo. Foram as exibições e o rendimento do SC Braga que fez com que o Sporting CP investisse uma quantia milionária em Rúben Amorim, e a qualidade de jogo das equipas de Jorge Jesus e os seus mais recentes êxitos ao serviço do Flamengo que fizeram com que o SL Benfica se decidisse pelo seu regresso.

Contudo, qualquer manual de estratégia de gestão ensina que o melhor caminho para uma determinada equipa ou organização emerge da interação entre os seus pontos fortes e as oportunidades do seu meio envolvente. No que ao futebol concerne, o modelo de jogo mais apropriado para uma equipa depende da interação entre o perfil dos jogadores existentes no plantel e a qualidade e perfil dos treinadores disponíveis no mercado. Avaliar apenas metade desta equação na definição do caminho a percorrer, é deixar que a aleatoriedade se apodere do destino da equipa, com uma enorme fatura associada.

Talvez esta seja a principal limitação dos nossos dirigentes: continuam a escolher treinadores apenas com base no sucesso das suas equipas, negligenciando a interação que o seu modelo de jogo estabelece com o perfil de jogadores que compõem os seus planteis. É que o meio-campo de Jorge Jesus exige um médio defensivo que pressione à saída do primeiro terço do adversário, e não um jogador posicional como Weigl, de pensamento tático elevado; é que o ataque de Rúben Amorim exige extremos que saibam jogar por dentro e de costas para os laterais adversários e não um jogador como Plata, fortíssimo a encarar os adversários de frente no um contra um; é que o meio-campo de Sérgio Conceição exige jogadores de dimensão física imponente, agressivos nas bolas divididas, e não um jogador prodígio como Vitinha, com uma qualidade de passe, receção e mobilidade tática fora do comum.

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As consequências do deficiente recrutamento de treinadores é que os talentos existentes no plantel não são ativados por um inexistente alinhamento entre stakeholders internos. De despedimento em despedimento de treinadores, as sociedades desportivas veem-se obrigadas a fazer novo investimento no plantel, porque os jogadores outrora tidos como indispensáveis, são hoje para despachar com o intuito de financiar novas compras, tidas, essas agora (e por ora), como absolutamente indispensáveis. Abandonam-se, assim, investimentos estratégicos, absolutamente vitais para a sustentabilidade financeira e desportiva das sociedades desportivas. Num dia aplicam-se verbas inacreditáveis em transferências e renovações de contratos milionários, e, no dia seguinte, emprestam-se ou colocam-se a treinar na equipa B esses mesmos ativos. Fazem-se e refazem-se planteis de forma sucessiva, em janelas de verão e inverno, à procura de talento que existe dentro de portas mas que já não serve. Estabelece-se, assim, de forma involuntária, um ciclo vicioso entre a sucessiva mudança de jogadores que não convergem no perfil de jogo do novo treinador, e os constantes despedimentos de treinadores que não têm no plantel os talentos específicos para interpretarem o seu modelo de jogo. Desaparece, então, o meio-campo Florentino-Samaris, que permitiu a Bruno Lage conquistar um título perdido, despacha-se Bas Dost para o estrangeiro, ignorando a sua capacidade ímpar em marcar golos, e estraga-se o talento de Fábio Vieira, ao adaptar-se ao corredor lateral apenas porque a sua posição não existe no modelo de jogo de Sérgio Conceição.

São os próprios dirigentes que, ao não definirem um modelo de jogo para o clube, um modelo de jogador que o interprete e um modelo de treinador que o operacionalize, perdem o controlo dos seus destinos e colocam-se na dependência de empresários, pois a sua relevância é tão maior quanto maior a necessidade dos clubes de importar e exportar jogadores num curto espaço de tempo. Identificar talentos futebolísticos tornou-se numa verdadeira lotaria constrangida pela indefinição na estratégia do clube, do seu próximo treinador e do seu respetivo modelo de jogo. É a incapacidade dos dirigentes em planearem a estratégia através da qual o clube vai potenciar ativos desportivos de uma forma articulada e consistente que, em última instância, os coloca mais perto da porta de saída.