Nunca o verbo ‘safar’ foi tão usado e abusado como agora. O verbo em si mesmo já não era grande coisa, diga-se de passagem, mas até aqui ainda podia ter uma leitura positiva ou, no mínimo, inócua. Podíamos usá-lo para dizer que nos safámos no exame de código ou de condução, para dar dois exemplos comuns, ou ainda que conseguimos safar-nos de um grande maçador daqueles que nos filam e nunca mais nos largam. Claro que também sempre houve os que se safam de grandes castigos, ou safam outros da cadeia e de usarem pulseiras eletrónicas, mas isso ia bater ao caso que todos sabemos e não é sobre ele que escrevo, embora também me apetecesse fazê-lo.

Tão grave como um juiz que safa os agressores de serem punidos, castigando as pobres vítimas ao devolver os ofensores à sociedade, permitindo-lhes que se aproximem delas sem que nada lhes aconteça (aos criminosos, leia-se, não às vítimas, pois estas ficaram para sempre condenadas e desprotegidas), dizia eu que tão grave como o mau uso de um mau verbo, é este ‘safar’ ter passado a ser usado também para uma nova espécie de prostituição emocional consentida.

Explico melhor e abstenho-me de voltar à história do juiz, que nos tomou a todos de assalto com os seus acórdãos e ameaças de processos a toda e qualquer pessoa que levante a voz ou use a sua inteligência, humor e bom senso para discordar de sua eminência.

Entre os milhares de apps que surgem da noite para o dia, algumas servem única e exclusivamente para o ‘engate’. Nada disto é novidade e nada disto seria da conta de terceiros se não fossem usadas até à náusea por adolescentes que pouco mais são que crianças. Não vou citar os nomes das apps de que falo para não lhes dar ainda mais montra, mas uso a palavra ‘montra’ de propósito pois é disso que se trata, de uma montra virtual em que rapazes e raparigas muito jovens se expõem e vendem como mercadoria. A única diferença para as montras de prostitutas das ruas vermelhas de cidades como Amsterdão, é que estes miúdos não pagam nem cobram.

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