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Carlos Moedas não vai apenas concorrer à Câmara de Lisboa. Isso já seria importante para a cidade, que bem precisa de um melhor governo e de horizontes para além do corrente “circo de aparências e de vaidades”. Mas Carlos Moedas vai fazer mais: vai enfrentar um dos grandes baluartes do poder socialista, uma Câmara Municipal há 14 anos dominada pelo PS, com um orçamento superior a mil milhões de euros e 13 000 funcionários, mas que mesmo assim falta a todas as promessas (como as 6000 novas casas, ou os 14 novos centros de saúde). Se tiver sucesso, Carlos Moedas poderá provar uma coisa em que até agora pouca gente acreditou: que uma mudança em Portugal é possível sem uma mudança prévia da política do Banco Central Europeu — ou seja, que Portugal, apesar da sua dependência financeira, ainda tem independência política. Lisboa não é Portugal, mas Portugal vai ter os olhos em Lisboa nestas eleições autárquicas. É que se for possível libertar Lisboa da mão-morta socialista, talvez também seja possível libertar Portugal sem esperar por mais uma bancarrota. É tempo, como ontem disse Carlos Moedas, de dar aos portugueses – os lisboetas serão os primeiros — a “responsabilidade” de “escolher entre mais do mesmo ou escolher um recomeço”.

Contra a probabilidade de uma mudança em Portugal, é costume invocar as percentagens do PS nas sondagens de opinião, quando não a quantidade de dinheiro nórdico que está para vir. Esta suposta análise expressa o grande problema que existe em Portugal do ponto de vista de uma alternativa: a incapacidade de pensar na política a não ser como um derivado de outros factores, sobre os quais os políticos não teriam influência, como seja o financiamento externo do Estado. Mas não deveria a actividade política consistir precisamente em mudar o sentido da opinião nas sondagens, e não em conformar-se com ele? Não faria mais sentido encarar as sondagens como Carlos Moedas encara os anteriores resultados do PSD em Lisboa: “números do passado”? E não deveria a oposição ao actual governo olhar também para a garantia europeia de financiamento como mais uma vantagem para a alternância, uma vez que sossegue as classes dependentes do Estado em relação a ajustamentos financeiros como aqueles a que a direita foi obrigada em 2002-2004 e em 2011-2014, quando revezou os socialistas no governo? Desta vez, funcionários e pensionistas não têm de temer uma alternância de governo. Têm apenas, como os restantes portugueses, a começar pelos mais de 50% de abstencionistas, de perceber duas coisas: que essa alternância é possível, e que será vantajosa para o país.

Sim, a primeira condição de uma alternância é torna-la credível. Tirar ao PS e à maioria de esquerda algumas das grandes cidades do país pode ser uma forma de ganhar essa credibilidade. Fazê-lo com base num grande movimento agregador de diversos partidos e personalidades da sociedade civil, como pretende a candidatura de Carlos Moedas em Lisboa, será também um meio de demonstrar que as coisas serão diferentes. Mas há uma segunda condição para essa alternância: tornar muito claro que o principal problema do país, a causa do seu empobrecimento desde há vinte anos, do definhar da sua democracia, e do colapso dos seus serviços públicos, está no poder do PS, no modo como esse poder é intrinsecamente incompatível com “reformas estruturais”, com a liberdade dos cidadãos e com a eficiência dos serviços públicos.

É isso, infelizmente, que os partidos da direita, promotores necessários de uma alternativa, não têm sempre conseguido fazer. Nem os partidos mais antigos, como o PSD e o CDS (este sobretudo durante o tempo da anterior direcção), nem os partidos mais recentes, como a Iniciativa Liberal ou o Chega. Nem uns nem outros parecem por vezes compreender ou conseguir explicar o poder que o PS exerce em Portugal. Mas é disso que depende uma viragem no país.

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O PSD e o CDS dão frequentemente a ideia de que estão à espera de que o Partido Socialista não seja o Partido Socialista. Mas o PS é mesmo socialista, e não só de nome: acredita no Estado e no poder político, e não nas iniciativas dos cidadãos e na autonomia da sociedade civil. Mais do que isso, o PS tem um projecto de poder que assenta no domínio do Estado pelos socialistas, e no domínio da sociedade pelo Estado. Sim, o PS resistiu ao PCP em 1975, e até governou, a seguir, com o CDS e depois com o PSD. Mas desde 1976, o PS só aceitou mudanças quando forçado por bancarrotas (como nos acordos com o FMI de 1978 e 1983) ou pressionado por maiorias de direita (como nas revisões constitucionais de 1982 e 1989). Entre 1985 e 1995, não apoiou nenhuma das grandes reformas da governação de Cavaco Silva. Sem a aversão de Mário Soares ao general Eanes, teria feito a “geringonça” logo em 1987. Se dependesse do PS, ainda haveria um só canal de televisão, naturalmente do Estado. É tempo de o PSD e o CDS compreenderem e fazerem compreender ao país que não se pode contar com o PS para tornar a sociedade portuguesa mais livre nem a economia portuguesa mais competitiva. Não está na natureza do PS.

Tão desanimadora como esta estranha expectativa do PSD e em menor medida do actual CDS em relação ao PS, é a incapacidade ainda mais bizarra da Iniciativa Liberal e do Chega de reconhecerem o PS no meio das denúncias que fazem de tudo e mais alguma coisa. Para a IL e o Chega, todos os outros partidos são “socialistas” ou do “sistema”. Mas o “sistema” que está estabelecido em Portugal é o do PS. O PSD e o CDS têm sido, desde 1976, os protagonistas do reformismo liberal que houve no país. É mentira que a AD, os governos de Cavaco Silva ou o governo de Passos Coelho tenham sido “socialistas”. Tratá-los como socialistas é uma forma de cobardia intelectual, porque é a maneira de não ver o elefante na sala: o poder socialista que submete o país desde 1995. Faz lembrar aqueles sábios que atribuem os problemas do país à “cultura” ou à “maneira de ser dos portugueses”, isto é, a tudo e a nada. Temos mesmo de ter um governo tão medíocre? Temos mesmo de ceder à importação das últimas modas da extrema-esquerda universitária americana? Temos mesmo de ser os pedintes da Europa? Se todos são “socialistas”, se todos são o “sistema”, como ensinam a IL e o Chega, a resposta é sim: não há alternativa. Nesse caso, para que servem a IL e o Chega? Será que, no fundo, os seus verdadeiros inimigos são o PSD e o CDS, com quem pensam que devem competir eleitoralmente? Nesse caso, quem é que, na prática, ajuda os “socialistas”, e quem é que, objectivamente, faz parte do “sistema”? O país não precisa de lições gritadas de nacionalismo nem de cursinhos básicos de liberalismo. Precisa de uma alternativa ao poder socialista. É tempo de a IL e o Chega demonstrarem que querem fazer parte da solução e não do problema.

Posto isto, percebe-se as dificuldades que os vários partidos à direita têm em enfrentar o PS. O PS não é um adversário fácil. Tem enorme poder, e exerce-o implacavelmente. Quem não está com o PS não aparece, e tem “problemas”. O PS joga também, como jogou sempre, com todos os equívocos. Mas a orientação fundamental do PS é clara. Todas as suas supostas “grandes paixões” dos últimos anos – educação, tecnologia – apontam para o Estado. Na União Europeia, viu sempre uma estrutura de apoio financeiro internacional do Estado, nunca um mercado para os cidadãos e as empresas portuguesas competirem. Não, o PS não rejeita a iniciativa privada, mas olha para ela como um compadre do Estado. A velha conversa do PCP e do BE sobre as “políticas de direita” do PS não devem distrair ninguém deste simples facto: o PS faz a política de esquerda que, desde 1976, é possível em Portugal. Tem todo o direito de o fazer. A direita é que tem obrigação de não se enganar.

O PS, pela sua ideologia e pelo seu projecto de poder, condena o país ao declínio, e agora, pela sua condescendência com a cancel culture de extrema-esquerda, também à degradação da memória e da cultura nacionais. Que restará do país com mais 10 anos de poder do PS? Estará talvez a disputar o último lugar com a Bulgária na hierarquia de riqueza da UE, e provavelmente já sem ideia da sua própria história, apagada segundo mandam as modas importadas dos EUA. Mas o país talvez já tenha ouvido isto. O que o país precisa agora de ouvir é que outro governo é possível, e que não consistirá simplesmente no esforço para fazer pagar por todos mais uma época de erros do PS. A direita portuguesa, neste século XXI, ficou marcada pelas duas experiências de ajustamento a que foi obrigada para evitar as bancarrotas da governação socialista. A política financeira da UE dá alguma garantia de que talvez não esteja condenada a passar outra vez pelo mesmo. Neste momento, a questão está em aproveitar os recursos e as oportunidades. Trata-se, portanto, de provar que, à direita do PS, há uma melhor visão para o país, e equipas mais capazes. Não fiquem à espera do PS, como às vezes parece ser o caso  do PSD e do CDS, aparentemente esmagados pelas suas experiências históricas, nem nos digam que o problema é um “socialismo” ou um “sistema” sem rosto nem nome, como fazem o Chega e a IL, do alto das suas enormes indigestões ideológicas.

“Lisboa pode e deve ser muito mais”, diz Carlos Moedas. O país também. Precisa de um governo que “invista nas pessoas”, isto é, que acredite na capacidade dos indivíduos, das famílias e das comunidades para, com os devidos recursos, encontrarem as melhores soluções. Para isso, vale a pena “unir o centro-direita em Portugal”, como pretende Carlos Moedas. Mas isso só será possível se todos, acima dos seus pontos de vista e até dos seus interesses, reconhecerem que o problema é o PS, e que por isso não se pode contar com o PS. É possível governar sem o PS? Vale a pena fazer essa experiência? Os Açores são uma prova importante. Lisboa pode ser tão ou ainda mais importante.  Carlos Moedas, o candidato indicado pelo PSD e apoiado pelo CDS, é o melhor presidente que a vereação municipal de Lisboa pode ter. O país não é Lisboa. Mas pode começar a mudar por Lisboa.