Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo, Cavaco e o silêncio de Bento XVI /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro
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Marcelo gostava que Cavaco se retirasse para um mosteiro, como fez Bento XVI depois de deixar o seu cargo. Porque o ex-Presidente representa a direita que votou nele apenas por não ter alternativa.

Se dependesse de Marcelo Rebelo de Sousa, o seu antecessor seguiria o santo exemplo de Bento XVI: depois de deixar o cargo, teria recolhido para um mosteiro e para uma vida de oração e silêncio. Aliás, pensando bem, não seria preciso tanto: a parte da oração era dispensável — bastava o silêncio.

Decididamente, o Presidente da República actual não gosta que o Presidente da República anterior fale, mesmo que da sua boca saiam frases que não incluem as palavras “Marcelo”, “Rebelo” ou “Sousa”. Depois de Cavaco Silva ter descrito a não recondução de Joana Marques Vidal no cargo de procuradora-geral da República como “talvez a mais estranha decisão da geringonça”, Marcelo Rebelo de Sousa decidiu colocar o seu corpo presidencial entre Cavaco Silva e António Costa e assumir que, de alguma forma, era ele quem estava em causa naquela crítica e não o primeiro-ministro: “A nomeação da procuradora-geral da República foi uma decisão minha e de mais ninguém. Portanto, o que me está a dizer é que o Presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato”.

Qualquer pessoa fica tonta com esta pirueta retórica, que pretende colocar um nevoeiro onde havia clareza e transformar uma acusação numa insinuação. Depois de virar a frase de Cavaco Silva contra si mesmo, Marcelo optou por falar sem falar e por dizer sem dizer. A frase “Entendo que não devo comentar nem ex-Presidentes, nem amanhã, quando deixar de o ser, futuros Presidentes, por uma questão de cortesia e de sentido de Estado” é um código pouco elaborado para Marcelo comentar o comportamento de Cavaco ao mesmo tempo que assegura não o estar a comentar. É um piscar de olho imaginário a quem o ouve: como diria alguém, “vocês sabem que eu sei que vocês sabem que eu sei”.

Deste episódio — e de outros semelhantes — sobra uma constatação: Marcelo Rebelo de Sousa não gosta que Cavaco Silva fale porque qualquer coisa que o ex-Presidente diga, mesmo um simples “bom dia”, parece uma crítica (e muitas vezes é) ao atual Presidente. E esta constatação força-nos a procurar uma pista: porquê?

Sim: porquê? Porque é que mesmo um perfume de crítica, vindo de Cavaco Silva, incomoda tanto Marcelo Rebelo de Sousa, levando-o a explicar-se e a responder? Talvez por causa disto: Cavaco representa a direita que elegeu Marcelo apenas porque, na ausência de alternativa, preferiria qualquer pessoa a Sampaio da Nóvoa. Essa direita suporta Marcelo mas não o respeita, não o compreende e, acima de tudo, não confia nele. Acha que o Presidente tem convicções a menos e jogo de cintura a mais; acha que fala quando não deve e cala quando não pode; acha que se expõe muito e se resguarda pouco. Marcelo sabe que, se tiver a mais pequena oportunidade de o abandonar sem entregar Belém à esquerda, essa direita fá-lo-á sem hesitações nem remorsos.

Eu referi o silêncio de Bento XVI, mas, na realidade, o Papa emérito já falou depois de se retirar. E até comentou o seu sucessor: disse que “não tinha pensado nele” para o lugar e que a sua escolha foi “uma grande surpresa”. Nisto, Ratzinger e Cavaco concordarão: o ex-Presidente também “não tinha pensado” em Marcelo para o suceder e, como se constata repetidamente, a escolha terá sido “uma grande surpresa”.

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