Governo

Mário Centeno: uma vantagem para Costa que não é um problema para a Geringonça

Autor
  • Luís Rosa
107

As ameaças do Bloco e do PCP sobre o Orçamento para 2019 devem ser ser vistas como aqueles caniches que costumamos encontrar na rua: ladram muito mas têm sempre medo de morder.

1. Afinal, parece que Mário Centeno já não é o Ronaldo das Finanças Públicas — pelo menos, a acreditar no Bloco de Esquerda, PCP e até no porta-voz do PS. Se Ronaldo marca um pontapé de bicicleta exemplar e tecnicamente irrepreensível que corre o mundo, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e João Galamba dispensam “brilharetes orçamentais” equivalentes, como rever em baixa a meta do défice orçamental de 1,1% para 0,7% em 2018 que reforcem a credibilidade externa de Portugal.

O que preferem realmente é que o ministro das Finanças continue a ser um verdadeiro ‘brinca-na-areia’ orçamental que até pode prometer bicicletas mas é obrigado a seguir o plano.

O que preocupa mesmo a ala radical da Geringonça é que ‘antros’ neo-liberais perigosos como a revista “The Economist” elogiem a política de finanças públicas do Governo por estar concentrada “no défice e na dívida, e não em investimento ou serviços públicos”. Repare, caro leitor, é um elogio mas, para os geringonços, pode ser um insulto, até porque “um governo de centro-direita estaria a fazer mais ou menos a mesma coisa”.

Compreende-se as razões que levaram Catarina Martins e Jerónimo de Sousa a fazerem de Mário Centeno um alvo político, radicalizando o discurso.

Em primeiro lugar, o BE e o PCP não querem ter nada a ver com um ministro das Finanças que já é comparado por Marques Mendes com Vítor Gaspar — o ‘pai’ da ideia do Governo de Passos Coelho para ir além da troika. Essa é uma linha vermelha clara que coloca pode pôr em causa toda a narrativa dos dois partidos que apoiam o Governo.

A segunda questão, sempre elementar em política, prende-se com a simples sobrevivência. Se olharmos para o barómetro que a Eurosondagem publica no Expresso desde a formação da Geringonça (e tal como aquele semanário recordava há 15 dias), o PCP e o Bloco têm descido de forma sustentada nas sondagens, sendo que os bloquistas são os que perdem mais: dos 10,1% que alcançaram nas legislativas de 2015, desceram para 7,7%, enquanto que o PCP desceu de 8,2% para 7,3%. Ora, um Bloco e um PCP colados a um Governo que quer ir além do que está estipulado no Orçamento só pode potenciar a sua descida.

2. Com um PS a ter 41,5% na mesma sondagem — muito perto, portanto, da maioria absoluta –, compreende-se ainda melhor porque razão Catarina e Jerónimo gritam, esperneiam e ‘carregam nas cores’ dos defeitos do Governo para mostrarem ao seu eleitorado que nada têm a ver com Mário Centeno e a sua austeridade inteligente. Deixando, na dúvida, no caso do PCP, se se aprovam a proposta para o Orçamento de Estado de 2019.

Estas ameaças, contudo, não valem muito. Aliás, devemos olhar para as mesmas com alguma benevolência.

Todos os partidos da Geringonça sabem que, quem provocar uma crise política, tomará o mesmo remédio que o PRD tomou em 1987 quando fez cair o Governo de Cavaco Silva: a irrelevância política.

Por isso, as ameaças mais ou menos subliminares, com mais ou menos greves das diferentes profissões que constituem a administração pública, devem ser vistas como aqueles caniches que costumamos encontrar na rua: ladram muito mas têm sempre medo de morder.

3. Ainda sou do tempo em que um Presidente da República oriundo da esquerda proclamava aos sete ventos que “há mais vida além do orçamento. A economia não é só finanças públicas”. A frase é de Jorge Sampaio e foi proferida em 2003 para criticar a ‘obsessão’ que o Governo de Durão Barroso então tinha com o controle do défice orçamental em nome das regras de convergência com a zona euro.

A frase de Sampaio ilustra bem o pensamento de uma boa parte da esquerda — e que é hoje seguida pelo BE e pelo PCP mas aparentemente repudiada por Mário Centeno.

Reduzir a meta do défice este ano para 0,7% e atingir eventualmente a meta dos 0,2% em 2019, com superavits orçamentais nos anos seguintes, é o caminho certo para reforçar a credibilidade externa de Portugal e reduzir o excesso de peso que a dívida tem. Mas mais do que isso, a disciplina orçamental permitirá reconquistar e reforçar de forma mais eficiente a confiança dos investidores externos em Portugal.

4. Se tivermos em conta que o PS obteve 32,5% dos votos nas legislativas de 2015, e que actualmente tem 41,5% no barómetro Eurosondagem, só podemos concluir que esse aumento de votos foi conseguido essencialmente à custa do PSD, de Passos Coelho e de Rui Rio.

As razões para isso são várias mas o que interessa aqui é um único ponto: o facto de o Executivo do PS ter um ministro das Finanças que consegue controlar o défice orçamental é muito perigosa para Rui Rio.

Precisamente por ser esse o seu perfil. Desde a Câmara do Porto que o actual líder do PSD cultivou uma narrativa não só de seriedade, como também uma certa imagem de contabilista, sempre com contas certas. É esse o seu maior ativo político.

Com António Costa a entrar nesse campo para conquistar uma ‘medalha’ chamada superavit orçamental, a posição eleitoral de Rui Rio fica ainda mais fragilizada porque fica sem narrativa.

Não foi por acaso, aliás, que passamos a ouvir Rui Rio e membros da sua direção política a defender que, com o atual crescimento económico, há folga orçamental para aumentar os funcionários públicos — uma posição em tudo idêntica ao Bloco de Esquerda e ao PCP. A política odeia o vazio e ausência de ideias próprias leva os social-democratas a seguir os outros.

O que é, em si mesmo, mais uma prova de como o PSD anda à deriva em termos de estratégia e de narrativa política.

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