Viktor Orbán era um demagogo manhoso, tentado a manipular regras e instituições para dificultar a vida aos adversários, como o governo trabalhista que na Inglaterra suspende eleições onde a oposição as pode ganhar. Mas só a Orbán chamaram “iliberal”. No entanto, na Hungria há eleições livres com alternância pacífica no poder. E descobrimos outra coisa: que a vitória de um candidato como Peter Magyar pode ser a vitória da “democracia liberal”, apesar de as suas ideias e o seu percurso serem do tipo a que os bem-pensantes aplicam o rótulo de “extrema-direita”.
Às democracias do Ocidente, as direitas nacionalistas têm feito geralmente bem. Repuseram no debate público assuntos proibidos, como a imigração e a segurança. Resistiram às limitações que o wokismo estatal tentou impor à liberdade de expressão. Resgataram muitos cidadãos da indiferença e da abstenção. Acima de tudo, fizeram reflectir na relevância das nações. Diziam-nas datadas, na era da globalização. Mas talvez nunca como agora, quando as migrações diversificam as sociedades, a identidade nacional a que o Estado, o território e o modo de vida estão associados tenha sido tão importante como factor de coesão, para os que estão, mas também para os que chegam e se querem integrar.
As direitas nacionalistas não estão, no entanto, acima das limitações das classes políticas estabelecidas. Já sabíamos que, perante a crise fiscal do Estado, nem sempre conseguem descolar da velha demagogia distributiva. Vimos agora, perante o esforço de Trump para desarmar o Irão, que também não fogem à facilidade no caso da defesa do Ocidente. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, por exemplo. Não tinha de colaborar numa operação militar para que o presidente americano não a consultou. Mas tinha de a tratar nos mesmos termos derrogatórios com que a esquerda a trata? Precisava de suspender o acordo militar com Israel? Ninguém tem de apreciar os comentários de Trump. Mas será pedir demais que se perceba que o desarmamento do Irão não é um capricho do presidente, mas uma condição de sobrevivência do Ocidente e de paz no Médio Oriente?
O que falta àqueles que se dizem “soberanistas” na Europa? Talvez a lucidez necessária para compreenderem que as soberanias europeias, hoje, não se defendem fora da aliança atlântica nem fora da União Europeia. A aliança atlântica e a UE não são o que deveriam ser? Reformem-nas, mas não finjam que poderiam viver sem elas. O que seria dos países europeus, desligados dos EUA e desligados entre si, perante Putin ou os ayatollahs? Vassalos ou conquistas, tendo em conta a sua dependência energética, desmilitarização, e endividamento. Mas talvez o problema não seja de visão. Talvez seja mais básico. Para explicar a reverência de Orbán perante Putin no caso da Ucrânia, citava-se o seu medo de enfrentar eleitores zangados por ser mais caro aquecer as casas. Será diferente dos outros líderes europeus, em pânico por causa do preço da energia, no caso do Irão?
Os líderes nacionalistas não são imunes aos pavores da restante classe política, nem estranhos à tentação de conceber a liderança como a arte de seguir as sondagens. Em Agosto de 1990, quando o Iraque ocupou o Koweit, Margaret Thatcher incitou um vacilante presidente americano com uma frase colorida: “this is no time to go wobbly”. Meloni não era Mussolini, como os seus inimigos ridiculamente clamaram em 2022. Mas também não é Thatcher. Não por ela, talvez, mas porque os Estados e as sociedades europeias já não são capazes de produzir líderes, independentemente das suas ideologias, com a convicção e a força que alguns ainda tinham há quarenta anos. É esse o problema.