Os homens e os reis devem ser julgados nos momentos que testam as suas vidas. A coragem é considerada a primeira das qualidades humanas por ser aquela que garante as outras…
Churchill, Grandes Contemporâneos, 1937

As comparações entre António Costa e Winston Churchill – ou entre a ação do governo português durante a crise do coronavírus e a perseverança do governo de salvação nacional britânico durante a Segunda Guerra – não foram inauguradas esta semana. O diretor do Público já havia assinado um título de indesmentível referência cinematográfica (A Hora Mais Negra), um off do Palácio de Belém já havia comparado o insucesso eleitoral de Churchill depois da Guerra às presumíveis dificuldades de Costa na próxima ida às urnas e até a Gente (a rúbrica lúdica do Expresso) troçara do excesso de menções ao estadista inglês, temendo que “num qualquer estado febril, os políticos da nossa praça desatem a parafrasear Churchill”, sendo que o seu próprio editorial o fizera na edição anterior, ainda que não identificando o autor do que citava (“na guerra, determinação; na derrota, resistência; na paz, boa vontade”). A receada febre da praça contagiaria, de facto, as redações e confirmar-se-ia na revista do mesmo jornal, no passado fim-de-semana, cuja capa retratava Sir Winston Spencer Churchill de máscara, inquirindo se Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa seriam “líderes à altura desta pandemia”.

Não querendo insistir no Presidente da República como alvo desta coluna, resta-me o primeiro-ministro. A verdade é que, antes da pandemia, a comparação costista-churchilliana já aqui ocorrera – sem o propósito laudatório dos demais. Em novembro de 2018, escrevi: “É óbvio que os políticos têm direito a mudar de opinião – Churchill mudou de partido duas vezes –, mas a história dos estadistas mostra-nos que estes mudavam de lado para melhor protegerem as suas convicções. Costa, por seu turno, muda de convicções para melhor proteger o seu lado”. É este o ponto que pretendo recuperar: António Costa não tem nada que ver com Winston Churchill, só merecendo ser comparado à figura pelo largo leque de traços que os separa, e não pela fábula mediática que almeja assemelhá-los. Costa trata-se, aliás, de um distinto exemplar do que é um anti-Churchill. Vejamos porquê.

Biograficamente, uma breve olhada à génese colocaria termo ao paralelismo. Churchill era filho de um aristocrata inglês e de uma dondoca americana; Costa foi criado por uma jornalista portuguesa e por um progressista goês. Fugindo às famílias e indo à educação, ambos foram herdeiros precoces de massa crítica – cresceram junto da política e dos políticos –, mas alunos de estabelecimentos de ensino antagónicos: Churchill um rígido colégio interno; Costa uma escola em Lisboa. Entrando no currículo profissional, as diferenças adensam-se: Costa não tem nenhum fora do percurso partidário; Churchill fez, simultaneamente, vida militar e jornalística, o que ajudou ao desenvolvimento de ambas. O inglês sustentou-se com a publicação de artigos em jornais, com adiantamentos para livros (escreveu mais de 30) e a apostar na Bolsa, inclusivamente após entrar na política. De Costa conhece-se uma compilação de opiniões (editada em 2012), não sendo certamente um candidato ao Nobel da Literatura recebido por Churchill. Este era, além disso, um orador tremendamente popular, tendo corrido o Reino Unido em quase uma centena de discursos por ano. A língua inglesa era uma sua religião, e Deus sabe a fé requerida para compreender integralmente uma intervenção de António Costa. Os dotes de tribuno de Churchill eram reconhecidos pelos seus adversários; a ineloquência de Costa é lamentada por quem o ouve. A coragem física era algo que caracterizava Churchill – passou a juventude a recuperar de quedas e lesões, suspendeu o mandato para voluntariar-se na Primeira Guerra e resistiu ao Blitz de cabeça igualmente exposta –, enquanto o maior ato de coragem física de Costa foi, até agora, empurrar um sexagenário em campanha eleitoral.

Falando a sério, talvez o que mais os afaste seja a sua relação com o passado e com o futuro: Churchill era obstinado pelas tradições e instituições do império; Costa rasgou o legado ideológico do seu partido e o património constitucional da República para tomar o poder. Churchill era proprietário de uma consciência histórica que o tornava previdente (como a luta contra o appeasement e a proclamação da Cortina de Ferro demonstraram); Costa é um situacionista puro. Churchill era um homem de crenças ultrapassadas pelo seu tempo, não havendo forma de reagir à sua defesa do colonialismo que não repulsa ou rejeição; Costa é, genuinamente, um produto da sua era e não de outra.

Politicamente, o atual primeiro-ministro foi passando despercebido. Andou tanto entre as gotas da chuva que se mudasse de profissão poderia vender impermeáveis. Como dirigente associativo, deputado, líder parlamentar, autarca, ministro, eurodeputado, presidente de Câmara e secretário-geral do PS, as três coisas que deixou na memória foram as escutas do processo Casa Pia, a feitura (e subsequente anulação) da ‘geringonça’ e uma corridinha entre um burro e um Ferrari, em Loures. De resto, que mais? Ora, Churchill é o oposto de tudo isso. Procurava, por instinto, o olho da tempestade. Foi membro do Parlamento com rótulos conservadores, liberais e de governos nacionais, lorde do Almirantado, MAI, ministro das Finanças e primeiro-ministro, e deixou sempre – sempre – a sua marca. Para o bem e para o mal, por onde passasse, onde errasse ou deslumbrasse, onde discursasse ou decidisse, Churchill jamais incorria na indiferença, na insignificância, no esquecimento. Esteve, invariavelmente, contra o sabor do vento. Era um maverick, um insider da alta-sociedade que passou grande parte da carreira como outsider da alta-política. A princípio, os líderes de governo preferiram convidá-lo, temendo as suas investidas na Câmara dos Comuns, mas Churchill seria diversas vezes acusado de fazer mais oposição do que os partidos de oposição a Baldwin ou Chamberlain, por exemplo. Costa, pelo contrário, nunca foi uma pedra no sapato de ninguém; esteve lá para partilhar a graxa de quem mandava até chegar a sua vez de atar o calçado. Nunca foi um servente público, foi-se servindo publicamente. Não ficará para a História como alguém que fez, mas como alguém que simplesmente foi. E de Churchill isso não tem nada.

Em 1940, quando a retirada de Dunquerque salvou 338 mil soldados aliados das tropas nazis, o inglês assumiu o episódio como um “desastre militar” não antes visto, apesar do esforço e da importância da operação; Costa esteve nos antípodas dessa capacidade de responsabilização política em todas as tragédias que enfrentou como primeiro-ministro. No dia em que se dirigiu ao Congresso, em 1941, logo a seguir a Pearl Harbor, Churchill falou no orgulho dos “homens públicos em servir o Estado” e da vergonha que sentiriam se fossem “donos dele” – palavras que Costa, que encabeçou o socratismo, deveria ler e reler. Hoje, setenta e cinco anos depois da Segunda Guerra, nós, que vivemos num país que optou pela neutralidade, continuamos a falar de Winston Churchill pela excecionalidade que simboliza. Era um político e um indivíduo único. Alguém acredita, francamente, que se falará assim de António Costa daqui a setenta e cinco anos?

* OBE stands for Order of the British Empire. In Mr Costa’s case, it should stand for Obviously a Big Exaggeration.