Jean Buridan, filósofo francês nascido no final do Séc. XIII, teorizou sobre a auto determinação e o livre arbítrio. Uma das teorias mais famosas e ainda hoje discutidas em círculos académicos é o paradoxo do asno que, tendo dois fardos equidistantes do ponto onde se encontra, não conseguiria decidir qual comer. O francês defendia que este tipo de escolhas deveriam ser adiadas até haver informação completa sobre a relação causa efeito de cada acção, logo, o burro morreria à fome.

A teoria de Buridan, apesar da comicidade aparente da situação, teleporta-nos para a realidade nacional. Mudam os intervenientes e os objectivos, mas mantém-se a dificuldade em traçar metas e definir objectivos concretos.

Assistimos a um governo equidistante de dois objectivos: entre a segurança da população e o trunfo eleitoral das contas públicas, que caminho deve escolher? O mais simples será escolher a inacção até perceber os efeitos das acções. É o que tem acontecido. Mas toda a accão gera reacção, a falta de vontade de decidir por uma apresentação de resultados com mais gastos e melhores condições laborais para profissionais com a consequente melhoria da segurança dos cuidados trouxe-nos onde estamos.

Vivemos num país onde os administradores hospitalares só administram de nome. São os eunucos da função pública, a quem pouco mais é permitido do que responsabilizarem-se pessoalmente se as coisas correrem mal.

As administrações mendigam mais profissionais e o Estado, lá longe, no triângulo Terreiro do Paço — João Crisóstomo — Palácio de São Bento, decide. Aquilo que podemos depreender desta atitude paternalista do Governo é que tem uma real noção do “pim-pam-pum” das nomeações que faz e, por não confiar nelas, ingere-se no trabalho que as incumbiu de fazer.

O Ministério da Saúde, é cego e surdo, reúne com as classes profissionais para as ouvir e para se poder orgulhar de não prestar atenção aos seus anseios. A nova carreira de enfermagem, publicada no dia seguinte às eleições europeias, é a prova do exercício autocrático de funções exercido por Marta Temido. Perderam-se centenas de horas em reuniões que, na prática, para pouco mais serviram do que dar expectativas aos profissionais e, de seguida, criar uma carreira que só permitirá aos enfermeiros chegar ao topo da carreira aos 100 anos. Não foi o que os sindicatos negociaram, não é o que os enfermeiros querem. É eleitoralismo para desacreditar a classe e maquilhagem de problemas.

Somos geridos por um calendário eleitoral, acontece o que aparenta ser favorável e nunca se toca no fundo dos problemas, um país que nos últimos anos teve de plantar tantas árvores, devia ter aprendido que sem raizes nunca haverá crescimento e de nada nos adianta cumprir as metas orçamentais impostas pela Europa se os Portugueses não beneficiarem do dinheiro que juntamos enquanto país.

Presidente da Secção Regional Norte da Ordem dos Enfermeiros