O nome de Amalie Emmy Noether será completamente desconhecido da esmagadora maioria das pessoas que me estarão a ler. Na verdade, só as pessoas mais ligadas à Física moderna saberão o que significa o Teorema de Noether na ligação entre as simetrias e a conservação; e as ligadas à Matemática reconhecerão o trabalho fundacional que Emmy, o nome porque ficou mais conhecida, teve na álgebra teórica, particularmente nas estruturas algébricas. Serão, talvez, palavrões inadequados para a generalidade das pessoas, mas sem os quais este texto nunca teria sido escrito, muito menos teria chegado ao seu conhecimento da forma como está a ser e no equipamento que está a usar.

Emmy nasceu no fim do sec XIX trazendo consigo uma combinação pouco recomendável para o seu futuro. Nasceu mulher, judia e alemã. Ser judeu e alemão não era exatamente uma combinação rara nos grandes cérebros do princípio do sec XX. Albert Einstein, Max Born, Ernst Ising, Hermann Weyl, só para nomear alguns, eram simultaneamente judeus e alemães. Coisa que, antes de 1933, não era sequer digna de nota. A verdade é que Emmy sofreu muito mais por ser mulher que pelos outros fatores. Enquanto os seus colegas homens faziam uma carreira livre de preconceitos até 1933, Emmy foi discriminada e teve que furar os constrangimentos da sociedade desde muito cedo na vida.

Apesar de ser filha de um professor na universidade onde andou, Erlangen, apenas duas mulheres frequentaram a universidade e apenas assistindo a aulas, não podiam participar. Ainda assim, conseguiu furar o esquema e seguir os estudos em Matemática até apresentar a sua dissertação quando a universidade, finalmente, começou a admitir mulheres. Com o doutoramento feito em 1907, a vida não se tornou muito mais fácil, pois começou a dar aulas nessa mesma universidade sem receber salário e assim esteve durante sete anos.

Durante este tempo, o seu enorme talento começou a ser conhecido fora de Erlangen. Nem todo o mundo científico da altura era feito de preconceitos e é bom dizer que em 1911 já Marie Skłodowska Curie tinha levado dois Nobel para casa sem que nenhum outro cientista, de qualquer género, pudesse orgulhar-se do mesmo. E Emmy foi convidada a sair de Erlangen para ingressar na Universidade de Gottingen para se juntar a um dos “rivais” de Einstein, David Hilbert, para resolver algumas das novas questões para a Física que a famosa Teoria da Relatividade Geral levantava. É aqui que nasce o (hoje conhecido por) Teorema de Noether, uma das peças fundamentais do conhecimento atual. Nesta universidade, e apesar do sucesso científico que teve, a Emmy é negada mais uma vez a possibilidade de aceder à carreira de professor e todas as aulas que dá é sob o nome de Hilbert. A causa para a impossibilidade? O facto de ser mulher.

A coisa começou a ser tão escandalosa que Hilbert e Einstein intercederam por ela e isso levou a que a universidade aceitasse que ela desse aulas em seu nome, mas sem receber salário durante 3 anos. Após estes 3 anos, lá lhe deram uma pequena remuneração, mas sem a deixar aceder ao posto de professor. Entretanto, a produção científica de Emmy não parava por causa disso e o seu prestígio enquanto cientista não parava de crescer. No fim dos anos 20 vai ser professora em Moscovo, uma sociedade menos preconceituosa relativamente ao género, e em 1930 volta para a Alemanha. Em 1932 recebe um dos mais importantes galardões da matemática alemã e, em 1933, Adolf Hitler sobe ao poder. Nesta altura, vem acima a sua condição judaica e todos os professores judeus são expulsos das universidades alemãs.

Como é do conhecimento geral, aquilo que os alemães não queriam, os americanos queriam com muita força. Albert Einstein e Hermann Weyl rumam para o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, no estado de Nova Jersey. Emmy recebe um convite de Bryn Mawr, no estado da Pensilvânia. E estará neste momento o leitor a pensar, “Princeton conheço, Bryn quê?”. Com razão. Princeton é uma das 8 universidades da Ivy League, a liga de futebol das universidades mais prestigiadas e tradicionais dos EUA. Bryn Mawr é uma faculdade de artes liberais para meninas. Para além do convite para Bryn Mawr, que acabou por aceitar, Emmy recebeu também um convite para o Somerville College, da Universidade de Oxford, outra faculdade exclusivamente para meninas na altura. Esporadicamente, Emmy dava aulas em Princeton, mas dizia nunca ser bem recebida.

A história de Emmy Noether acaba como se tivesse sido escrita por um dramaturgo russo, morre em 1935, numa intervenção aos ovários. Até a Natureza acabaria por lhe dar o derradeiro castigo por ser mulher.

Este resumo da vida de um dos maiores nomes da ciência do sec. XX é também a história de uma derrota heroica. Uma vida inteira a tentar demonstrar que ser mulher não representa nenhuma inferioridade, a ultrapassar insultos que fariam qualquer pessoa desistir e, mesmo depois de apresentar trabalho que levaria a humanidade a outro nível, acaba por morrer da mesma forma que nasceu. Inferiorizada. Já não pela sociedade fascista de onde fugiu, mas pela sociedade “liberal” que a recebeu.

Em todos os dias da mulher, a história que me vem à mente é a história de Emmy Noether. O caso extremo de discriminação, em que o preconceito castigou uma vida inteira alguém cujo talento e insistência trouxe ao mundo um trabalho de importância intemporal.

Hoje em dia, o mundo científico esta repleto de mulheres. É, aliás, dominado por elas. Tal como o mundo do trabalho no país em que vivemos. O meu sonho para a minha filha de 15 meses é que possa vir a ser uma nova Emmy, sem ter que sofrer as agruras da estupidez alheia. Hoje tenho o orgulho de, na empresa onde trabalho, só se saber quantas mulheres lá trabalham no dia das mulheres, em que recebem uma flor ou um chocolate e é preciso contá-las. Nos outros dias ninguém se lembra se são mulheres, se são homens. E este é o ideal da luta contra a discriminação, quando a diferenciação é tão ténue que ninguém sabe que existe.

Isto em oposição às ameaças modernas de diferenciação de género, à imposição de quotas. Essa nova ofensa à condição feminina que parece estar a ser recuperada por alguns setores da nossa sociedade. O exemplo de Emmy deve servir-nos para saber que uma mulher tem talento e força por si para ultrapassar todas as dificuldades, não é nenhum ser inferior que precisa de ajuda para ser igual. O exemplo da luta de Emmy deve ser lido na percentagem de mulheres que hoje constituem os setores mais sofisticados da sociedade (da produção científica, da literatura, dos serviços de alto valor, etc.) onde acaba por ser superior aos 50% que seria expectável. O exemplo não deve ser abastardado pela imposição de favores às coitadinhas.

A minha sugestão, se pudesse ser ouvida, era chamar ao dia da Mulher, o dia Noether. Um dia para recordar todas as formas de discriminação que não são aceitáveis. A dos académicos ortodoxos do início do séc. XX que reduziam a mulher a quase nada negando-lhe as oportunidades e a dos radicais modernaços do séc. XXI que reduzem a mulher a quase nada ao atribuir-lhe um “handicap” profissional. Que a minha filha possa vir a ser uma nova Emmy, tendo as mesmas oportunidades que os irmãos tiveram. Essa seria a maior homenagem a Noether, à minha filha e a todas as outras mulheres.

PhD em Física, Co-Fundador e Partner da Closer