Na sua intervenção na ONU, Greta Thunberg identificou, na sua opinião, a maior ameaça à sobrevivência da nossa espécie: o crescimento. Essa é, no entanto, uma meia verdade.

É um facto que vivemos num mundo obcecado pelo crescimento. E, para o atingir, temos esgotado recursos naturais, destruído ecossistemas e não temos sido capazes de garantir uma distribuição equilibrada dos seus benefícios económicos.

Porém, é inegável que o trabalho, o rendimento e, consequentemente, a redução da pobreza e o crescente bem-estar das sociedades são fundamentalmente gerados pelo crescimento.

Colocar a discussão no plano do “Benfica vs Sporting” é um exercício estéril e improdutivo, para o qual não tenho nenhuma paciência. Interessa-me, sim, perceber como é possível ir para além da noção linear de “input-output-lucro” e perceber como podemos encontrar novos caminhos mais sustentáveis, mais inclusivos, mais duradouros e igualmente lucrativos. É esse o desafio da nossa geração: atrevermo-nos a encontrar uma nova fórmula que nos garanta não apenas crescimento, mas crescimento inteligente.

Não há, seguramente, respostas milagrosas. Mas haverá, com certeza, soluções criativas e inovadoras; que lancem mão das possibilidades criadas pela tecnologia e que criem maior igualdade, melhores formas de produzirmos energia, novos modelos de negócio para nos movermos no mundo global, melhores alternativas para alimentarmos a crescente população mundial e, simultaneamente, permitam uma rápida descarbonização e uma eficaz contenção e proteção dos ecossistemas.

A forma como gerimos empresas e a forma como os acionistas medem o sucesso vão ter de ser profundamente alteradas. Isso pressupõe mudanças substanciais, não apenas ao nível da transformação digital, de gestão das cadeias de valor, da inovação produtiva ou dos canais de distribuição e comunicação. É toda uma mudança estrutural na própria linguagem dos negócios: a geração de valor sustentável para os acionistas tem de ser acompanhada da geração de valor sustentável para todos os outros stakeholders da organização – incluindo a sociedade e o planeta. E só a inovação, num esforço estruturado e integrado ao nível da organização, nos permitirá chegar aí.

É, portanto, fundamental realinhar o investimento em inovação com o desígnio do crescimento inteligente. Essa deve ser a prioridade das prioridades.

Para isso, é necessário deixar de pensar apenas em eficiência e passar a agir para a transformação. E se o imperativo ético não for suficiente para estimular essa mudança, olhemos então para o racional económico: de acordo com o Climate Action and Profitability (2015), empresas que tomaram decisões nas quais o impacto nas alterações climáticas foi tido em consideração beneficiaram aumentos de 18% (em média) nas suas taxas de retorno do investimento.

É claro, hoje, que o custo da inação é bastante superior ao custo de ação. Ao contrário do que se possa pensar, é possível gerar este impacto transformador através de processos de inovação incremental. Mas importa ajustar os objetivos de impacto desses processos a novas métricas e objetivos mais transformadores. Em vez de perguntar “como posso otimizar a minha linha de produção, ganhando segundos ou euros?”, os gestores deverão passar a questionar “como posso, com essa otimização, ganhar segundos ou euros e, simultaneamente, melhorar o processo de trabalho para os meus colaboradores, ou reduzir emissões de carbono, ou gerar uma rentabilidade adicional que me permita aumentar salários, ou…?”

Vários estudos demonstram que o maior impacto da inovação acontece ao nível da otimização operacional, da transformação organizacional e da arquitetura de sistemas. Mais do que em inovação disruptiva e radical, é nestes planos que devemos travar a batalha da inovação para o crescimento inteligente.

O que nos falta, então, para vencermos essa batalha?

Visão. Coragem. Velocidade.

Atrevemo-nos?