“A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre, mas quem cria a pobreza.”
Mia Couto

O orgulho que todos sentimos quando ouvimos o hino nacional é de facto algo único. Normalmente, ouvimos o hino em momentos de sucesso desportivo ou em cerimónias militares ou protocolares.

Mas esse orgulho, hoje é colocado em causa, quando pensamos no País que temos e nos portugueses, que, pelos mais diversos motivos e razões, são afectado pelo flagelo da pobreza, e logo o orgulho que temos, transforma-se numa vergonha que não conseguimos esconder.

Através d`A Portuguesa evocamos o orgulho e a resiliência de um povo que se manifestou ao longo da nossa história, hoje devemos reflectir sobre as dificuldades que tem quem é pobre, mas também a força que pode emergir dessa condição, enquanto flagelo que nos afecta a todos.

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“Heróis do mar, nobre povo”, leva-me a questionar que mar é esse que não oferece “peixe”, trabalho ou dignidade a todos os seus heróis? Que nobreza pode haver na fome e na falta de condições de vida? Que “nobres” são estes, que, longe de palácios e riquezas, só encontram nobreza na sua luta diária por uma subsistência com dignidade. A pobreza é um mar que engole sonhos e afoga esperanças, é assim, o inimigo invisível que nos deve desafiar, como nação, a encontrar a verdadeira bravura não só em batalhas distantes, mas tão só, no combate diário pela dignidade individual e colectiva.

Nação valente, e imortal” descreve uma valentia que, neste século XXI não é uma escolha, mas sim uma necessidade imposta pela pobreza. A imortalidade da nossa nação constata-se na persistência dos que têm pouco, na sua capacidade de resistir e de encontrar beleza nas pequenas coisas, mesmo quando o mundo parece desabar.

Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal” celebra a força e a coragem daqueles que, todos os dias, com amor, com o seu trabalho, com as suas mãos calejadas e os seus corações esperançosos tentam tornar o tempo futuro, melhor do que o tempo que já é passado.

Entre as brumas da memória” sentimos a história que carrega a memória de um país que se quer mais justo, uma memória que não se deixa apagar pela névoa da indiferença. Que hoje tem nos pobres alguns dos seus mais valorosos guerreiros. Eles são os “egrégios avós” que, apesar de não serem retratados nos livros da nossa história, sempre guiaram a nação com a sua resiliência.

A Portuguesa” é um hino de chamamento às armas, mas para quem vive o flagelo da pobreza, as armas tanto são as ferramentas de trabalho, como as palavras de protesto, mas também são (sobretudo) gestos de solidariedade. É um chamamento aos “homens bons”.

Contra os canhões” que no passado foram dos castelhanos, mouros e alguns outros, hoje os canhões são os do estigma da exclusão social e da indiferença, pelo que devíamos todos “marchar, marchar” com a convicção de quem sabe que a verdadeira batalha é pela equidade, e pela oportunidade de todos vivermos de forma digna.

Assim, inspirados pelo hino que incita à luta, sabemos que apesar das dificuldades que existem em viver na pobreza, podemos nele também, encontrar a força que nasce quando um povo decide não apenas “ser grande,” mas também ser justo e solidário. Cada verso do hino torna-se assim um grito por uma dignidade que se quer cada vez mais presente e cada refrão consegue ser uma etapa, rumo a um futuro onde todos queremos, que a pobreza se torne apenas uma memória distante.

O Papa Francisco, com as suas preocupações profundamente humanas, lembra-nos que a pobreza não é um destino, mas sim uma consequência do egoísmo. O Papa lembra-nos constantemente de que os pobres têm rosto, histórias, coração e alma, e que devemos partilhar -e não apenas oferecer esmolas- para criar fraternidade e justiça. O hino de um país, segundo o Papa, deve ser cantado também com as vozes dos pobres, pois são eles que muitas vezes carregam o verdadeiro espírito de uma nação.

Nas famílias, a pobreza é um drama real que pode condicionar o amor e a unidade. As constantes preocupações diárias com a subsistência e até sobrevivência podem abafar o carinho e a atenção que são base das relações familiares. O amor, embora resiliente, é posto à prova pelas adversidades que a pobreza cria e impõe, gerando tensões e conflitos que destroem até os laços mais íntimos. A pobreza desgasta o amor, transformando o que deveria ser um refúgio seguro num campo de batalha diário contra a privação. O amor, no meio da pobreza, torna-se no luxo que poucos podem priorizar, sobretudo quando a subsistência assume-se como a preocupação mais emergente. Quantos pais ou mães vivem atormentados com o que não podem pôr na mesa para os filhos, sem conseguirem criar condições para os amar, apesar de isso ser, per si, uma prova de amor.

A pobreza não se reflecte apenas na falta de recursos, mas sim numa limitação de escolhas, uma limitação da liberdade que impede o florescimento do ser humano em todas as suas dimensões.

Se a pobreza material é dramática, a pobreza de quem só tem dinheiro é talvez a mais trágica de todas. É a pobreza daqueles que, tendo todos os recursos materiais, carecem de riqueza espiritual e emocional. São pobres em humanidade, em compaixão, em capacidade de amar verdadeiramente. Essa é a pobreza daqueles que vivem na zona de conforto do materialismo, mas estão desconfortavelmente distantes da verdadeira essência da vida.

Temos assim a constatação das dificuldades que existem em ser pobre como um desafio à identidade de um povo que “canta a liberdade”, mas vive acorrentado pela necessidade.

A pobreza é mais do que uma condição económica, é uma condição humana que desafia a nossa compreensão da justiça, da dignidade e do próprio significado que é o ser português. A pobreza não é apenas uma ausência de bens, é também uma ausência de oportunidades, um mar revolto onde os heróis do mar enfrentam tempestades diárias, não pela glória cantada n`A Portuguesa, mas por uma sobrevivência e vida dignas.

O Papa Francisco destaca a importância da aplicação prática da Doutrina Social da Igreja nas empresas e na gestão dos recursos, como salvaguarda da dignidade da pessoa, sendo, que com sua mensagem de humildade e serviço, lembra-nos constantemente, que a pobreza é uma realidade que desafia a nossa compreensão do amor e da fraternidade. A cerimónia do lava pés, onde o líder se abaixa para servir, é um símbolo poderoso que contrasta com a realidade daqueles que, apesar de estarem no topo, raramente se inclinam para ajudar. Que essa imagem sirva de mote a todos aqueles que agora começam funções no XXIV Governo Constitucional.