Através de uma coligação de extremos, no passado Domingo o CDS elegeu uma nova Direcção e um novo Presidente. A história dirá em que medida o poder que cola os menos liberais aos menos conservadores resistirá ao incómodo das respectivas convicções. No meio, ainda atarantados pelo facto de o seu voto ter sido transaccionado, uns auto-proclamados moderados vão, aqui e ali, perdendo a moderação. Vai ser interessante acompanhar o modo como esta amálgama for coexistindo.

A Nova Direita, que Fernando Paes Afonso caracterizou tão exacta quanto sinteticamente – esquecendo o detalhe do seu cariz anti-cristão e promotor do neopaganismo –, afinal não é a matriz do Santismo (nunca pensei que fosse). De modo mais estruturado, Nuno Pereira de Magalhães esforçou-se por demonstrar que era em Burke e na linhagem dos conservadores britânicos que Rodrigues dos Santos se fundava quando proclamava o tempo novo e denunciava a direita cobarde. E, no fim, a tal Nova Direita, descafeinada por tantos pactos faustianos, transmutou-se na Nova Direita de Sempre. Esta designação, que tem tanto conteúdo quanto a Velha Direita de Amanhã, reflecte o chefe que o CDS escolheu e que é, lamento sinceramente ter de o dizer, sobretudo um alinhador de palavras.

Há, pelo menos, dois Franciscos Rodrigues dos Santos: um a.m. e outro d.m. O de antes da moção – que reclamava autenticidade à direita e dizia aquilo em que (aparentemente) acreditava – e o de depois da moção – que passou a enredar-se em meias palavras e a remeter para a telepatia de cada vez que alguém procura descortinar-lhe uma convicção (“sabem o que eu penso”). Aconteceu ao novo Presidente do CDS e à sua ambição aquilo que acontece naturalmente aos partidos políticos: teve que abrir para agregar, flexibilizar para crescer. Simplesmente, neste caso, depois de tanta arenga e bravata, isso soa a falso. O antes e o depois.

Mas a questão é mais funda e gritante. Literalmente. O CDS tem hoje à sua frente um modelo peculiar de Siri que responde sempre em CDSês comicieiro. Fala-se-lhe da sua idade, riposta com uma citação de Manuel Monteiro (“passa com a idade”); da autoria da moção, atalha com uma de José Ribeiro e Castro (“o meu punho e o meu rosto”); sobre o posicionamento do CDS redargue com uma de Paulo Portas (“braço direito”); quanto à perenidade dos seus valores recorre a Adriano Moreira (“eixo da roda”, Adriano é o único que o novo Presidente nomeia porque a citação é, de longe, a mais conhecida). Para identificar a intolerância da esquerda, o facto de não ser deputado e a importância das ideias, Rodrigues dos Santos regressa a Ribeiro e Castro (“fascistas somos todos”, “estarei muito bem representado”, “votos para as nossas ideias e não ideias para os nossos votos”). Até a voz de João Almeida lhe foi útil durante o encerramento do Congresso. A oratória exaltada do novo Presidente do CDS, afinal, mais não é do que um pastiche. Uma concatenação belicosa de grandes frases que, de tão boas, têm apenas o defeito de não serem suas.

O CDS do Congresso de Aveiro lembrou alguém que procura expandir o que sabe lendo o mesmo livro pela enésima vez. Não deixa de ser deprimente que a habilidade retórica chegasse para convencer o partido de que FRS era o rosto da mudança quando a sua voz foi, só, as do passado recitadas em histrionia. Ao ouvi-lo declamar, entre o solene e o espasmódico, o mantra do punho e do rosto, lembrei-me do Congresso de Lisboa em que aquelas palavras foram ditas com verdade. Dei por mim a rir ao olhar em volta e constatar que o efeito na assistência era quase o mesmo apesar da contrafacção ser evidente. O exército de fiéis, arrebatado pela notabilidade do vulto e exercitado no seu culto, evidentemente rejubilou.

Por muito que lhe custe, Francisco Rodrigues dos Santos é o oposto de José Ribeiro e Castro. O que este tem de autêntico, ele tem de imitação. 

Conheço alguns dos doutrinadores da fase a.m., respeito-os e a boa parte das suas ideias. Também defendi e defendo um CDS assertivo na defesa dos seus valores fundacionais e firme contra o pensamento e o discurso únicos da esquerda, sem discursos autoflagelatórios e artificialmente divisivos sobre a sua matriz e identidade. Imagino a frustração que hoje terão.

Conheço vários dos recentes compagnons de route e imagino o incómodo que deverão estar a sentir. Se é que ainda sentem alguma coisa.

Conheço muitos dos que, não pensando como eu, deram da sua vida ao CDS e se empenharam nas suas causas e no serviço público. Hoje são apontados a dedo, apodados de fracos e empurrados para fora ao mesmo tempo que ouvem apelos à unidade. Imagino o sentimento de injustiça que diversos carregarão.

Fui alertado para a necessidade de respeitar o estado de graça do novo líder e de lhe permitir mostrar o que vale. Dizem-me que é ainda cedo para manifestar a minha discordância e, mais do que ela, a minha estupefacção. Tenho pena, mas hoje já não é cedo para dizer que não tenho muitas razões para acreditar neste Presidente. Admito mudar de opinião no dia em que ouvir uma frase genuinamente sua. Até lá, não juro lealdade. Lealmente prometo oposição.