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O Mundial de futebol que a Tailândia ganhou /premium

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Não sei se sabem, mas aquilo que acontece num estádio, a que assistem milhares de pessoas e que envolve milhões, é apenas um jogo.

Sim, eu sei que foi a França que ganhou o campeonato mundial de futebol. Mas esse foi o campeonato do mundo menos importante, porque o verdadeiro, o único aliás que interessa, foi ganho por uma outra equipa de futebol e o seu treinador, algures numa gruta da Tailândia. O russo foi o campeonato dos jogos, ou da brincadeira, enquanto este foi o verdadeiro campeonato, o campeonato da solidariedade, dos valores e da vida.

Não sei se todos sabem, mas aquilo que acontece num estádio e a que assistem milhares de pessoas é apenas um jogo, muito embora seja também um negócio que envolve muitos milhões. Os futebolistas, que também ganham milhões, estão a jogar e, por isso mesmo, são os jogadores. O resultado daquela prova não tem nenhuma importância porque, na realidade, não decide nada que seja relevante, como aliás acontece com todos os jogos. As pessoas que gritam e choram, consoante a sua equipa ganha ou perde, parecem ter esquecido que aquilo é apenas um jogo e, por isso, nem se dão conta de que essas suas reacções são patéticas. Como patética é a presença de chefes de Estado e de governo nesses jogos, como se se estivesse a decidir o futuro da humanidade … ou a honra da nação!

Pior ainda foi a forma como a França comemorou a sua vitória daquele campeonato: centenas de carros incendiados, lojas destruídas e outros muitos distúrbios provocados por multidões selvagens. Não sei se, se tivesse sido outro qualquer país a ganhar o torneio, o regresso da sua selecção seria também ‘festejado’ de forma tão violenta e brutal. Não sei se o país que venceu a final se deve orgulhar por ter ganho o campeonato do mundo de futebol porque, insisto, não foi mais do que um jogo. Mas a França deveria estar profundamente envergonhada pela forma como os seus cidadãos celebraram a taça. Eu estou, e nem sequer sou francês, nem tenho nenhuma especial relação com a equipa ou o país que esses jogadores, com tanto sucesso, representaram.

Por pouco, a final do campeonato do mundo que ‘sagrou’ a selecção francesa não coincidiu com a festa nacional gaulesa, que se comemora todos os anos, no dia 14 de Julho, aniversário da tomada da Bastilha. É curioso que um país, com uma história tão gloriosa, tenha como seu dia nacional a tomada de uma fortaleza e a sua total destruição. É certo que aquela prisão era o ominoso símbolo da repressão do antigo regime, a que a revolução francesa pretendia pôr termo, inaugurando uma nova etapa na história da humanidade, sob a auspiciosa protecção da santíssima trindade laica: liberdade, igualdade e fraternidade. Também é sabido que, como sempre acontece nas revoluções, a natureza violenta desse movimento manifestou-se pelo terror que levou à morte milhares de inocentes, bem como à guerra civil. Não sei se é mera coincidência que essa mesma violência, que a França evoca no seu dia nacional, seja também apanágio das suas passagens de ano e comemorações desportivas, como foi a recente vitória do campeonato do mundo de futebol.

No colégio e no liceu, também jogávamos à bola e ao berlinde, entre outros desportos e brincadeiras. Mas sabíamos uma coisa que hoje, pelos vistos, se esquece: que aquilo era apenas um entretenimento, uma diversão para os intervalos entre as aulas, que não em vão se chamavam recreios. Claro que havia sempre alguém que se dava ares de grande futebolista, ou de campeão do ‘bilas’, mas nós sabíamos todos que o importante era o que se passava dentro da sala de aulas. O quadro de honra não era para os que marcavam mais golos, nem ganhavam mais jogos, nem ‘abafavam’ – como se dizia na gíria – mais berlindes, mas para os que tinham melhores notas. Claro que, quando se escolhiam os jogadores para o futebol, ninguém gostava de ser dos últimos a ser selecionado para uma das equipas, nem ser relegado para a baliza, que era função destinada aos menos aptos na prática da modalidade. Mas o que mais interessava eram as notas e não o futebol, que era apenas um jogo.

Nós sabíamos isso, mas hoje ignoram-no as multidões ululantes que enchem estádios imensos – não em vão chamados ‘catedrais’ – e manifestam-se ruidosa e selvaticamente pelas ruas, semeando a violência e deixando um rasto de destruição. Que gente é esta, que dá tanta importância ao que é supérfluo e está tão desinteressada do que é fundamental?!

Se foi degradante o triste espectáculo que a França ofereceu ao mundo, por ocasião da sua vitória desportiva, foi muito estimulante a onda de solidariedade mundial suscitada pela equipa tailandesa de jovens jogadores de futebol, quando ficou retida numa gruta subterrânea. Talvez tenha havido alguma imprudência em aqueles rapazes terem ido para um local de difícil acesso, numa altura do ano em que as chuvas podem tornar impossível o regresso. Verificado o incidente, o que importava não era arranjar culpados, nem bodes expiatórios, mas encontrar a forma de os trazer de volta à superfície. Foi isso que as autoridades tailandesas, com o apoio da comunidade internacional, que contribuiu generosamente com tecnologia e especialistas na matéria, lograram fazer. Que alívio para todos nós quando, finalmente, se soube que toda a equipa tinha sido resgatada e se encontrava bem, graças a Deus e ao esforço dos heroicos mergulhadores!

Uma palavra ainda para felicitar as autoridades tailandesas pela forma como souberam gerir a informação deste caso, privilegiando o bem das crianças envolvidas e das suas famílias. Foi crucial terem interditado a zona aos jornalistas e terem sabido evitar inúteis sensacionalismos, que certamente não teriam sido benéficos para os menores, nem para as respectivas famílias. Num cenário de crise, o importante não é satisfazer a curiosidade pública, mas salvaguardar o superior interesse das vítimas e das suas famílias. Se se soubessem, por exemplo, os nomes dos jogadores que já estavam resgatados, os familiares dos outros rapazes poder-se-iam sentir despeitados, questionando os critérios seguidos para a libertação dos jovens.

Gostei de os ver, já hospitalizados, a acenar aos familiares, que os observavam com um afecto ainda cheio de emoção, por detrás de umas grandes janelas envidraçadas. E dei graças a Deus por ter sido possível resgatá-los e estarem todos sãos e salvos! Talvez não tenham ganho nenhum jogo, nem o campeonato, mas ganharam, pelo menos, um grande susto! E aprenderam uma grande lição: a vida não é um jogo, tudo vale a pena para salvar um ser humano e todos somos necessários para socorrer os que mais precisam!

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