Recentemente, na Conferência de 2023 da Academia de Médicos Audiologistas (ADA) apresentaram-se as perspectivas retiradas de um estudo experimental – o ACHIEVE -, que durou 3 anos e comprova que os aparelhos auditivos podem reduzir para metade (48%) o risco de declínio cognitivo e de demência – abrindo novos caminhos para o estudo da prevenção de demência e reconfigurando os cuidados de saúde mental e auditiva em todo o Mundo. Este estudo foi apresentado na Sessão de Abertura da Academia no ano passado e foi liderado pelo investigador Frank Lin, MD, PhD, do Centro Coclear para Audição e Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, seguido por uma análise mais detalhada dos métodos de pesquisa, descobertas e suas implicações apresentadas pelos co-autores do estudo, Nicholas Reed, AuD, da Universidade Johns Hopkins, e Victoria Sanchez, AuD, PhD, da Universidade do Sul da Flórida (todos dos Estados Unidos da América).

Por mais de uma década, a investigação vinha comprovando que havia uma relação entre perda auditiva e o declínio cognitivo e a demência. Contudo, apenas agora existe uma evidência concreta que demonstra que os aparelhos auditivos (não apenas próteses auditivas, mas também implantes auditivos) podem efectivamente reduzir o risco de declínio mental mais rápido para algumas pessoas. Este estudo durou 3 anos, e onde foram usadas as boas práticas de utilização de aparelhos auditivos e demonstrou que existe um corte significativo no declínio cognitivo para um grupo de pessoas em que o risco de demência seria elevado.

Este estudo debruçou-se sobre uma comunidade de pessoas idosas em que seria incidente o risco de declínio cognitivo e de demência. Este estudo traz um progresso para a compreensão deste problema no Mundo inteiro. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde) 1,3 triliões de dólares são gastos anualmente nos cuidados que acarretam a demência, em que 50% abrange o custo total que familiares e amigos gastam em 5 horas por dia com os cuidados e supervisão de quem sofre desta patologia.

O estudo fornece evidências poderosas e de alto nível de que os aparelhos auditivos e o tratamento podem reduzir o risco de demência em populações de alto risco. Isso será extremamente útil para médicos em geral, assim como para os tomadores de decisão envolvidos em medicina, seguros de saúde, políticas económicas e legislação globalmente.

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Porque existe uma ligação entre demência e perda auditiva?  Embora ainda não haja uma explicação consistente em que as razões exatas pelas quais a perda auditiva pode contribuir para o declínio cognitivo e correspondente demência. Apesar de ainda sejam desconhecidas as causas, existem pelo menos quatro hipóteses gerais que foram propostas:

– Uma delas é a teoria dos múltiplos impactos: doenças microvasculares, placas no cérebro associadas à doença de Alzheimer ou outras condições médicas, quando não são compensadas pela capacidade de ouvir bem, podem levar a uma neurodegeneração acelerada e ao declínio cognitivo.

– Teoria da carga cognitiva: Esforçar-se continuamente para entender a fala pode criar stress ou carga cognitiva desnecessária no cérebro, fazendo com que os recursos mentais sejam desviados para o processamento de sons em vez de funções normais, como a retenção de memória e outras atividades cerebrais que podem ajudar a proteger contra a demência.

– Teoria da privação auditiva: A perda auditiva pode causar alterações estruturais à medida que o cérebro reorganiza seus centros de processamento sensorial (por meio da neuroplasticidade) em resposta à privação auditiva, possivelmente resultando em déficits cognitivos em cascata.

– Teoria do isolamento social: A perda auditiva pode causar isolamento social, solidão e depressão, acelerando a atrofia cerebral e levando a uma saúde e função cognitiva mais precárias. Qualquer um ou todos esses factores podem ajudar a explicar por que a perda auditiva está associada à demência.

É interessante ver como vários estudos epidemiológicos ao longo da última década têm encontrado uma ligação entre a perda auditiva e o declínio cognitivo. Frank Lin analisou três estudos anteriores que mostram que a perda auditiva leve pode dobrar o risco de declínio cognitivo, enquanto a perda auditiva moderada e severa pode triplicar e quintuplicar o risco, respectivamente. Outros pesquisadores, como John Gallacher e sua equipa no Reino Unido, também encontraram resultados semelhantes. Em 2017, Jennifer Deal e sua equipa nos Estados Unidos descobriram que a perda auditiva moderada a severa aumenta o risco de desenvolver demência em adultos mais velhos. Essas descobertas destacam a importância de cuidar da saúde auditiva para preservar a saúde cognitiva.

Esta pesquisa é muito promissora e pode abrir novos caminhos para a prevenção da demência e para os cuidados de saúde mental e auditiva em todo o mundo. É importante continuar a promover a consciencialização sobre a importância do cuidado auditivo e garantir que mais pessoas tenham acesso a estes dispositivos de tecnologia de reabilitação auditiva, que podem fazer uma diferença tão positiva na qualidade de vida.