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O ano de 2020 foi um ano muito diferente dos outros e não foi nada fácil para a Medicina, que teve de lutar contra uma pandemia com impacto sobre as populações e uma imensa sobrecarga sobre os sistemas de saúde e a economia.

Podemos começar por fazer notar a capacidade dos sistemas de saúde de se adaptarem para dar resposta aos doentes infetados com Covid, mas também para dar resposta aos outros doentes. Na área da oncologia reorganizámos espaços, dinâmicas e equipas, mas foi possível manter os cuidados e tratamentos aos doentes oncológicos.

Notou-se, no entanto, uma quebra dos diagnósticos de novos casos e uma dificuldade de se realizarem as cirurgias oncológicas menos urgentes devido à maior carga sobre os serviços de saúde. Observou-se também um decréscimo do número de ensaios clínicos que foram iniciados e uma redução do número de doentes incluídos em ensaios em curso. Estes acontecimentos terão, com certeza, impacto no estádio da doença e sobrevivência dos doentes.

No entanto, a ciência não pode parar – e não parou no que se refere à abordagem da Oncologia Médica ao cancro. Hoje, no Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, quero assinalar as três principais inovações que marcam a Oncologia durante o ano de 2020.

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Imunoterapia a confirmar resultados no aumento da sobrevivência

Os dados sobre a utilização da imunoterapia no tratamento do cancro são cada vez mais consistentes, tendo sido apresentados estudos que vieram alargar as suas indicações em diversos tipos de cancro.

Acredito que o número de doentes tratados com imunoterapia irá aumentar substancialmente nos próximos anos, condicionando um aumento da sobrevivência. Em 2020, assistiu-se, e assistir-se-á muito provavelmente nos próximos anos, a uma investigação crescente de testes preditivos de resposta à imunoterapia, que possam ajudar a selecionar os tumores que têm maior probabilidade de resposta à imunoterapia.

O seguimento dos doentes tratados com imunoterapia aponta que as respostas são de longa duração, podendo atingir anos. No entanto, a imunoterapia pode causar efeitos laterais significativos, alguns deles podendo ser graves e de longa duração. Por isso, a possibilidade de selecionar adequadamente os doentes é de grande importância.

Medicina de precisão é o futuro – hoje

Outra mudança a que se assistiu, foi a utilização crescente da medicina de precisão, em detrimento da quimioterapia. A medicina de precisão significa administrar a cada um dos doentes um ou mais fármacos baseados no perfil molecular do tumor. Enquanto a quimioterapia destrói diretamente as células tumorais, independentemente das suas características individuais, na medicina de precisão os fármacos atuam sobre um alvo, interferindo com moléculas e proteínas que são importantes para o crescimento desse tumor em particular, sendo mais precisas e efetivas.

A expansão do conhecimento dos alvos moleculares e da compreensão das alterações genéticas que estão na base da carcinogénese está a aumentar a importância da medicina de precisão e está a ser realizada a análise genética num número crescente de tumores avançados.

Drogas agnósticas, um guia pelo desconhecido

Observou-se, também em 2020, a aprovação da utilização de drogas agnósticas. A palavra agnóstico vem do grego antigo e significa “sem conhecimento” (gnõsis). Estas drogas são dirigidas a uma determinada alteração molecular mesmo que se desconheça a localização anatómica de origem do tumor ou a sua histologia. Entre os exemplos, podemos destacar a mutação nos genes BRCA1 e BRCA2 nos carcinomas da mama, ovário, próstata e pâncreas, e a utilização de medicamentos inibidores da PARP – estes têm uma proteína, que em determinados tipos de cancros (como no caso da pediatria e nos tumores raros) permite uma abordagem de tratamento de acordo com o seu perfil molecular. Têm sido avaliados em ensaios clínicos com resultados que parecem promissores e que poderão ser importantes num futuro próximo.

Estamos a viver uma mudança de paradigma: em vez de tratarmos todos os doentes da mesma forma, a medicina de precisão está a conduzir ao tratamento baseado no medicamento certo para o doente certo e no momento certo. Esta mudança irá necessitar do apoio gerado pela inteligência artificial, que tem sofrido uma evolução muito grande na última década, apoiando a decisão clínica em muitos hospitais nos Estados Unidos e em muitos países europeus.

Com todos estes avanços no tratamento, podemos olhar com otimismo para o controlo de diversos tipos de cancro. A abordagem considerada standard está a mudar rapidamente, o que constitui um desafio para os oncologistas acompanharem esta evolução constante, principalmente num momento como o da atual pandemia. Porque queremos continuar a inovar nos tratamentos oncológicos, apesar da Covid-19.