Rádio Observador

Homossexualidade

Pode um psicólogo assim ser bastonário da Ordem dos Psicólogos?

Autor
2.230

Deixemo-nos de hipocrisias. Se um heterossexual vem à consulta por estar a descobrir a sua homossexualidade o psicólogo pode apoiar, mas se for ao contrário já não? Será isto o que a Ordem quer impor?

O Bastonário da Ordem profissional a que pertenço, veio responder no Público ao artigo de opinião de João Miguel Tavares, para tentar justificar uma conduta negativa da Ordem. Uma vez que acaba por, mais uma vez, dividir os psicólogos, entrando pelo discurso fácil e simplista, leva a que, com o respeito institucional que me merece, lhe responda em jeito de esclarecimento da realidade clínica, mas acima de tudo do bom senso.

Existirão certamente homossexuais que sofrem com a sua condição, que têm dúvidas sobre os mais diversos caminhos na vida, que procuram ajuda espiritual, psicológica ou outras nessa busca pela paz, pela tranquilidade, pela saúde, enfim, pela felicidade. Afinal, o que todos procuramos.

Não sei a que propósito veio falar da homossexualidade como doença, mas com certeza sabe que os homossexuais, tal como todas as pessoas, também ficam doentes e sofrem e estudos mostram que têm mais doenças e sofrem mais.

O que é incompreensível é que o meu Bastonário, seguramente um homem com imensa experiência, venha misturar tudo e afirmar coisas como “existir consenso científico sobre a não aplicação de terapias de reconversão para a homossexualidade“. Pois o que subsiste é um debate enorme sobre este tema onde tudo o que existe é a falta de consenso.

Pergunto ao Sr. Bastonário, sabendo que é sensível a esta realidade, o que fazer a um homossexual que aparece na consulta e diz “ajude-me a não ser homossexual, não quero viver assim. Gostava de me casar e ter filhos, não quero viver no mundo da homossexualidade“. Isto é um caso real, dos muitos que tenho tido ao longo dos anos na prática clínica. O que defende o Sr. Bastonário como consenso científico para ajudar estas pessoas?

Defende que o psicólogo pressione a aceitar a homossexualidade? Que nada há a fazer? Que, de forma preconceituosa, o leve a viver na homossexualidade que não quer? Será que esta atitude, contrária à boa prática clínica e psicológica, não deveria levar a processo por má conduta profissional? É que aqui nunca se viu a Ordem actuar.

O que defendo é que o profissional deve apoiar e ajudar o paciente, aquele que pede a nossa ajuda, a percorrer o seu caminho e não o caminho que o psicólogo acha que deve impor que percorra.

Há casos de pessoas que tinham atracções, práticas e envolvimentos homossexuais e que deixaram de os ter, por opção delas e não do psicólogo, que foi confidente, agente de reflexão e pensamento, guardião de dúvidas, anseios e desejos do paciente. Será que para o Sr. Bastonário isto são terapias de reconversão?

Deixemo-nos de hipocrisias. Parece que se uma pessoa heterossexual vem à consulta e afirma que está a descobrir a sua homossexualidade o psicólogo pode apoiar, acompanhar, intervir, mas se for ao contrário já não!? Será isto o que a Ordem sustenta e quer impor?

E é aqui que o trabalho do Psicólogo é fundamental e exigente. É nesta relação que se cria com a pessoa que nos procura que devemos dar o melhor de nós para a pessoa se realizar na busca do seu bem-estar.

Está ultrapassada aquela forma redutora de ver a prática psicológica aos olhos de uma ideologia, de um paradigma dogmático, em suma de um preconceito. Era o que mais faltava que a prática do psicólogo fosse limitada por qualquer grupo de pressão ou pela imprensa.

Não pode acontecer que a Ordem, não suportando esse peso, emita comunicados ao Domingo, julgando em praça pública e condenando uma psicóloga, sem a ouvir, mostrando manifesta falta de respeito por todos os psicólogos. Emitir um comunicado a dizer que se enviam as queixas para o Conselho de Jurisdição é uma coisa, outra é fazer juízos de valor sobre a pessoa em causa. Está errado!

Será que o Sr. Bastonário não entende que ao agir assim está a condicionar e a exercer pressão sobre a livre actividade dos psicólogos? Que atenta contra a sua liberdade de expressão para falar, reflectir e fazer ciência!?

Não é aceitável que o Bastonário antecipe a conclusão do inquérito a realizar pelo Conselho de Jurisdição. Perante uma tal ingerência nas suas competências, o Conselho só tem uma saída digna: a demissão. O tribunal, isto é, o Conselho, é que julga e, portanto, uma eventual condenação só pode acontecer no fim do processo, depois de ouvido o inquirido e de este ter podido refutar as acusações.

O Bastonário infringiu gravemente um princípio elementar da justiça: a presunção de inocência. Com a sua posição sobre o caso e a psicóloga em questão, condicionou o veredicto do Conselho de Jurisdição, a que agora, por culpa da imprudência e irresponsabilidade do Bastonário, falta a necessária independência para um julgamento justo e objectivo.

Era também assim que funcionavam as “justiças” nazi e soviética: primeiro, decidia-se politicamente que o dissidente era culpado; depois, organizava-se um processo fantoche que, invariavelmente, ratificava a prévia condenação política. Tristes exemplos os que são seguidos pela Direcção da OPP!…

Esta é a pior das mordaças. Tenho a certeza que, pelas qualidades que certamente terá, para a próxima fará diferente.

Psicólogo Clínico

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Lei Eleitoral

Rejeitar o fundamentalismo quotista

Abel Matos Santos
102

A questão não é a participação de mulheres dever ser 25%, 33%, 50%, 66% ou 75%. Deve ser a proporção que a normal dinâmica social e dos vários partidos vier a gerar. No limite pode até ser mais de 75%

CDS-PP

Visão de um CDS de futuro

Abel Matos Santos
171

Há duas visões para o futuro do CDS, uma pragmática e vazia de doutrina e outra que se quer afirmar assente na sua doutrina e sua razão se ser. É isso que distingue as oito moções globais ao Congresso

Ribeiro e Castro

O apagamento da história e o futuro do CDS

Abel Matos Santos
177

Agora que o PSD escolheu Rui Rio, defensor da eutanásia, o CDS só poderá afirmar-se e ganhar espaço se deixar o pragmatismo envergonhado que o separa da afirmação plena da razão para o qual foi criado

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)