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Uma coisa é gozar a vida; outra, gozar com a vida. Gozar a vida pressupõe acolhê-la. Usufruí-la. Senti-la. Galanteá-la. Saboreá-la. E aproveitá-la. Gozar com a vida será, pelo contrário, uma forma de a escarnecer. De a desconsiderar. De certo modo, de a ignorar. De a ensombrar. Ou, pelo menos, de a minimizar. Gozar a vida significa alegrar-mo-nos com ela. Gozar com a vida cansarmo-nos dela. Eu acho que, mesmo quando não temos consciência disso, gozamos mais com a vida do que gozamos a vida. E o trabalho – que pode ser um recurso precioso para se gozar a vida – corre o risco de ser o principal responsável pelo modo como não a gozamos. E ele – talvez porque imaginemos que temos “a vida toda” e que ela pode esperar – mesmo sem querermos, empurra-nos, quase constantemente, para um limiar em que, em vez de vivermos a vida, “troçamos” dela. O trabalho tira-nos tempo para viver. E, no entanto, ele será quem mais nos dá as condições para viver melhor.

A verdade é que a nossa relação com trabalho raramente é equilibrada. Ele “engole-nos” horas sobre horas. De forma desregrada. E, por mais que haja regras que o regulem, o trabalho expande-se sempre, mais um bocadinho, para “fora de horas”. Talvez seja por isso que se tenha criado a ideia que quem chega “à hora” e sai a horas do trabalho, terá uma relação pouco dedicada e pouco profissional com ele. Ao invés daqueles que “vestem a camisola”. Que, duma forma urbana, tanto englobam os que se deixam entusiasmar pelos objectivos duma empresa, por exemplo, como aqueles que se deixam explorar com boa disposição. E de sorriso nos lábios.

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