Portugal tem apostado fortemente em fomentar o empreendedorismo e o ecossistema das startups e isso tem, sem dúvida, trazido retorno. Nasceram os primeiros unicórnios portugueses, vários pontos de Portugal são vistos lá fora como pólos de inovação, temos atraído talento internacional assim como alguns dos eventos mais prestigiados no ramo. Portugal começou a navegar na onda do empreendedorismo das startups e estas já representam 1,1% do PIB Português. É, sem dúvida, encorajador e esta aposta pode constituir, no futuro, um importante sector na economia Portuguesa.

No entanto, há uma realidade que tem um peso 30 vezes superior e de que praticamente não se fala, ou pelo menos não se dá o devido foco, já há uns bons anos. Aliás, deu-se uma atenção enorme há 5 anos, no pico da crise, não pelas melhores razões (essencialmente falava-se da sua vulnerabilidade). Estou-me a referir aos micro-negócios.

Segundo a definição oficial, micro-empresa é uma empresa que emprega menos de 10 pessoas e com um volume de vendas anual inferior a 2 milhões de euros. A maioria dos negócios nesta categoria são considerados não escaláveis, a comparar com as empresas “primas” das startups de tecnologia, o que significa que não têm um produto exponencial, ou que o custo marginal não se aproxima de zero (acréscimo do custo total de produção de mais uma unidade).

A verdade é que 96% dos negócios em Portugal são micro-negócios, mais concretamente cerca de 1.2 milhões de micro-empresas, que correspondem aproximadamente a 30% do PIB e 40% do emprego.

Os micro-negócios têm uma importância tremenda em quase todos os sectores e são parte integral do nosso tecido empresarial. Arrisco-me mesmo a afirmar que Portugal é um país de micro-negócios.

No entanto, 90% destes negócios vão falhar ao longo dos próximos 10 anos, pois enfrentam inúmeras barreiras à criação e ao desenvolvimento dos mesmos, essencialmente em 3 áreas – competências, recursos e rede de apoio.

As pequenas organizações muitas vezes sofrem de graves lacunas nas competências de gestão, reduzidas ou inexistentes opções de crédito, praticamente não têm uma comunidade de apoio e, devido ao seu tamanho, acabam por pagar mais pelos mesmos produtos aos fornecedores (pois não conseguem negociar em escala) e, quase sempre, mais impostos (proporcionalmente às grandes empresas).

Sendo estes negócios tão importantes para o nosso país, será que não devíamos incentivá-los, em vez de esmagá-los? Não estou a dizer que não deviam pagar impostos, antes pelo contrário, mas talvez apoiar este processo essencialmente no início para garantir que mais pessoas o fazem e que as pequenas empresas já estabelecidas podem crescer “sem a corda na garganta”, traria resultados positivos no futuro?

Alguns países adotaram medidas de isenção de impostos no primeiro ano de actividade. Outros, incentivos eficientes à contratação dos primeiros trabalhadores. O ano passado em Portugal foram lançados 45.000 empresas, número que aumentou quase 10% em relação a 2017 e a maioria não são startups, nem potenciais grandes empresas, a maioria são micro-negócios.

Se são um importante motor económico, será que não lhes devíamos dar mais atenção?

Eu acho que sim. Mas vamos agora fazer um exercício hipotético e dar um saltinho ao futuro.

A tecnologia vai trazer automação e, inevitavelmente, vários trabalhos, para não dizer grande parte deles, vão ficar obsoletos. Os meios de produção vão estar centralizados em cada vez menos gigantes, com enormes economias de escalas e preços praticamente impossíveis de competir, essencialmente para pequenas e médias empresas. Então que espaço fica na economia?

Acredito que tudo o que implicar relações humanas com um toque de personalização vai ser um mercado apetecível para os pequenos. Os nichos de mercado (que cada vez serão mais) vão ser oportunidades excecionais para os pequenos e que até terem uma dimensão considerável, ignorados pelos grandes. Clayton Christensen explica esta lógica de mercado na perfeição no seu livro “The Innovator’s Dilemna”.

Acrescentando, há uma crescente preocupação pelos consumidores em sustentabilidade, a maioria das grandes empresas começa a dar os primeiros passos nessa direcção, mas os pequenos aqui terão mais agilidade.

Estas alterações no mercado estão a estimular a criação de micro-negócios e o aparecimento de cada vez mais freelancers,tendência que se começa a verificar em quase todo o lado. A procura por novas condições de trabalho, com horários adaptáveis, local de trabalho flexíveis e valores alinhados começa a justificar o sacrifício da segurança e estabilidade.

Aliás, para as gerações mais novas, a perspectiva de trabalhar toda a vida na mesma empresa (algo que para parte da geração mais velha era o ideal), começa a ser a imagem perfeita do inferno.

É uma oportunidade para os micro-negócios, empresários em nome individual, freelancers e acima de tudo, para estimularmos a economia. A partir da sua base.

Portanto, viva o boom das startups, viva as grandes empresas mas se não olharmos com atenção para os micro-negócios e tornarmos-lhes a vida mais fácil, a economia vai sofrer.

O futuro do trabalho é incerto, mas provavelmente inclui uma onda crescente de micro-negócios. será que não lhes devíamos dar mais atenção?

Nota Biográfica: João Duarte é fundador da empresa social menos. A curiosidade levou-o a ter experiências profissionais em startups, aceleradoras, empresas sociais e investidores de impacto em 5 países, sempre com o objectivo de encontrar a forma mais simples de resolver os problemas sociais mais complexos. Juntou-se aos Shapers em 2018.

Nota Global Shapers: O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.