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Há uns dias, uma pessoa especial partiu. Todos os dias, pessoas especiais partem, mas desta vez essa pessoa especial estava ligada a mim. Não tínhamos uma ligação direta propriamente, mas senti, muito de perto, a tristeza das pessoas que me são muito queridas e essa perda esmagou-me brutalmente o coração.

Dei por mim, numa tarde pesadamente cinzenta com a chuva a cair com força, a tentar lidar com a tristeza que me pisava o peito.

Não é a primeira vez que uma pessoa especial parte da minha vida ou da vida de pessoas muito queridas a mim, mas esta abalou-me particularmente.

Passei o dia a pensar nessa pessoa especial. Pensei nas minhas pessoas queridas e na sua tristeza. E pensei na tristeza que estava a sentir e a única forma que encontrei de lidar comigo próprio foi escrever-te, tristeza, para te dizer na cara o que sinto por ti.

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No meio da dor, das lágrimas, do vazio, do desespero, da impotência, em mim e nas minhas pessoas queridas, há momentos que parece que vais estar connosco para sempre.

Já tentei lutar contigo, mas perdi sempre. Já tentei esconder-te, mas voltaste a aparecer, já tentei enviar-te para bem longe, mas acabaste sempre por voltar.

Ainda não sei lidar totalmente contigo, não sei se algum dia saberei ou até se alguma pessoa o consegue fazer, mas estou a aprender a fazê-lo da minha forma.

És provavelmente um dos sentimentos mais desprezados por todos, mas hoje quero-te dizer que estranhamente e contra todas as minhas expectativas, comecei a ver algo de reconfortante em ti (ou pelo menos não tão negativo) e que comecei a apreciar a profundidade que trazes.

Descobri que tu, tristeza, tens sido reveladora para mim, que tens alimentado conhecer-me melhor e tens estado várias vezes na minha vida, às vezes mais, outras menos, mas de certa forma estiveste presente em vários momentos, dias maus, desilusões e sempre, sempre, que uma pessoa especial partiu.

Por outro lado, no meio do teu sofrimento, tens-me mostrado uma das facetas mais profundas de ser humano. A empatia que a tristeza de outra pessoa espoleta em mim é o que faz de mim humano e hoje, por tua causa, senti-me imensamente humano. A sensação de nos sentirmos humanos é belíssima e no meio do sofrimento que trazes, consegui ver alguma dessa beleza e isso reconfortou-me estranhamente. Acho que até me trouxe alguma gratidão, se ela tem algum espaço em mim neste momento.

Não quero que penses que te estou a enaltecer, até porque a tristeza que sinto não o permite, mas quero dizer que sinto que te comecei a respeitar.

Demorei muitos anos a perceber que, por mais que lute, nunca te vou conseguir vencer, porque nunca me vou conseguir vencer a mim próprio e a única forma de conseguir viver contigo ou que permita que me venhas visitar de vez em quando é aceitar-te.

Vivemos uma altura de frustração e com uma pandemia a viver connosco há mais de um ano, foram já muitas pessoas especiais que partiram e muita tristeza que ficou.

Tenho pensado em todas essas pessoas de quem uma pessoa especial partiu, tenha sido agora ou já há muito tempo, mas que a tristeza continua lá e gostava que, de alguma forma, elas soubessem que partilho da tristeza delas. Sinto que, às vezes, estar triste em conjunto custa um bocadinho menos, então pelo menos hoje, certamente muitas mais vezes, estamos tristes juntos.

E por isso, hoje senti de forma profunda que outras pessoas estarem tristes juntamente connosco ou pelo menos perceberem a nossa tristeza é um dos aspetos mais reconfortantes de ser humano.

Despeço-me agora de ti, com apenas uma certeza. Que da próxima vez que vir alguma pessoa profundamente triste, mesmo que seja apenas por um momento, vou tentar ao máximo que ela saiba que eu percebo a sua tristeza na esperança que isso possa trazer, pelo menos, um pouco de conforto.

Porque talvez essa seja uma das facetas mais belas de sermos humanos.

João Duarte é fundador da empresa social Impulso. A curiosidade levou-o a viver e trabalhar em vários países e em vários contextos, desde startups, aceleradoras a empresas sociais, sempre com o objectivo de encontrar a forma mais simples de resolver os problemas sociais mais complexos. Juntou-se aos Shapers em 2018.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. O artigo representa a opinião pessoal do autor, enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.