Vivemos uma situação histórica. Há uns dias,o Presidente da República decretou o estado de emergência em Portugal, uma situação sem precedentes em quase 45 anos de democracia neste país.

Depois de Portugal registar algumas centenas de infetados, o potencial de contágio era tão grande que sofríamos o risco de o Sistema Nacional de Saúde, já sobrecarregado, não ter capacidade de lidar com o assunto.

Este estado de emergência ajuda na contenção do vírus, distribuindo o número de infetados pelo tempo, “achatando a curva”, permitindo-nos ganhar tempo para que o sistema de saúde se possa adaptar, para que surjam vacinas e para que tentemos que a população ganhe algum tipo de imunidade.

São medidas duras, adaptadas já por vários outros países, na esperança de evitar situações como as de Itália e Espanha, com milhares de mortes registadas. No entanto, há uma face do País que está e vai igualmente sofrer com o vírus – a Economia.

“Só se salvam vidas e saúde se, entretanto, a economia não morrer” — afirma Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República.

O Estado está a tomar medidas para aumentar a liquidez das empresas, a flexibilizar a cobrança dos impostos do trimestre, a estender os apoios sociais com o objetivo de reduzir o impacto que este vírus terá no emprego, nos rendimentos, nas famílias e nas empresas. Os efeitos já estão a ser profundamente marcantes para as grandes empresas, mas as pequenas, correm risco de vida.

A sobrevivência das pequena empresas, que correspondem a mais de 90% das empresas em Portugal, está em jogo.

Trabalho diariamente com pequenos negócios e empreendedores que estão a dar os primeiros passos na construção dos seus sonhos. São essencialmente negócios individuais ou familiares de pequena dimensão que trabalham muito, todos os dias, para sobreviver.

Na organização que fundei (menos hub), temos o privilégio de acompanhar pequenos empreendedores extraordinários com projectos extraordinários, que hoje enfrentam enormes desafios para estarem aqui amanhã.

São estes pequenos negócios que mais estão a sofrer com a situação que vivemos hoje e que, a cada dia que passa, ameaça a sua sobrevivência.

Esta situação agrava-se pelo facto de a maior parte dos donos das pequenas empresas, ao serem sócios gerentes, terem muito pouco ou nenhuma protecção social. Isto é, não se podem colocar em lay-off porque não são elegíveis, mas se deixarem de se pagar salário, não podem pedir subsídio de desemprego a não ser que abram falência. É uma opção que alguns estão a ponderar.

A maior parte de nós está em isolamento, tendo a vida limitada. Muitos destes negócios estão a lutar para se reinventarem e satisfazerem as nossas necessidades tendo começado a desenvolver produtos digitais, a vender vouchers, a entregar ao domicílio, a oferecer masterclasses ou a prestar serviços remotamente.

Foi assim criado o movimento de apoio #compraaospequenos.

É fundamental apoiar os pequenos negócios mas também é crítico tornar as suas ofertas convenientes a nós, consumidores, em isolamento. Como sabemos que às vezes o desafio é saber onde estão estes pequenos negócios, o que oferecem e como apoiar, foi criado um diretório de pequenos negócios que se reinventaram e que estão com ofertas convenientes e apelativas neste período.

A adesão foi estrondosa: em dois dias estavam mapeados mais de 100 pequenos negócios e as suas ofertas adaptadas e convenientes a esta altura de isolamento.Tivemos milhares de pessoas a visitar a lista e vários artigos a serem publicados nos meios de comunicação.

Fomos rapidamente contactados pela Marzee Labs, especialista no desenvolvimento de plataformas, e estamos a trabalhar para lançar uma plataforma mais completa e interactiva em breve. Estamos igualmente a lançar uma série de dicas e ferramentas que os pequenos negócios possam usar para se adaptarem à situação atual que vivemos hoje.

Deixa-me realmente com esperança o facto de sermos apenas uma pequena equipa, que se junta aos milhares de pessoas que estão a colaborar para responder da melhor forma à situação que vivemos, desenvolvendo inúmeras iniciativas, não só no sector da saúde, tecnologia e entretenimento, mas ainda de apoio aos pequenos negócios.

Destaco a “Hora de Encomendar” que está a mapear uma lista de fornecedores activos em Portugal ou a “GoSmallStayHome” que é um directório de pequenos negócios (principalmente mercearias, padarias, talhos, peixarias e drogarias) para quem queira evitar compras em grandes superfícies comerciais.

O Estado está a tomar medidas para minimizar o impacto da pandemia na saúde pública e na economia, resta-nos a nós, enquanto cidadãos, fazer o mesmo.

Portanto termino com um apelo — compra aos pequenos e apoia os micro-negócios. A pequena economia de amanhã depende de nós hoje.

João Duarte é fundador da empresa social menos. A curiosidade levou-o a ter experiências profissionais em startups, aceleradoras, empresas sociais e investidores de impacto em 5 países, sempre com o objectivo de encontrar a forma mais simples de resolver os problemas sociais mais complexos. Juntou-se aos Shapers em 2018.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.