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Imagine o leitor que um dia é assaltado por um sonho persistente e aparentemente desconexo do seu contexto atual. E que nesse sonho vê um País inteiro em transformação. De repente, uma simples flor assume uma importância vital para um grande plano que, como acontece na natureza, ultrapassa a dimensão das pequenas coisas simples. Tal como o oxigénio, que nem se vê, é a fonte de toda a vida do Homem. O primeiro impulso seria um vigoroso beliscão a pedir uma prova de que estamos cá. Logo a seguir, uma sensação de arrepio a vibrar por todo o corpo, como quando temos a certeza absoluta de que algo faz sentido, mesmo que a mente nos trave. Finalmente, o duro confronto com a realidade diária e a necessária abertura ao escrutínio da sociedade. Se não reconhece este processo na sua história, certamente já se terá cruzado com outros que o relataram ou, no mínimo, terá sabido de percursos semelhantes. Eu conheço vários. É a loucura de que falava Steve Jobs – a dos que pensam que conseguem mudar o mundo. E alguns conseguem mesmo.

Hoje venho falar-vos de um sonho muito especial. E porque todos os sonhos começam numa pessoa, apresento-vos um verdadeiro Romano de apelido, apesar de não ser de Roma. Tó para os amigos. Responsável pela criação de uma das maiores agências de modelos, histórica, em Portugal – a Central Models. Figura conhecida e respeitada. Arquiteto de formação, sempre viveu na estética, embrenhado nas possibilidades associadas à beleza, aos seus cânones e à influência que podem ter no nosso bem-estar (bem diferente do fugaz estar bem). A sua vida mudou quando, há 6 anos, sonhou o sonho mais bonito que alguém pode sonhar para o seu País – um Portugal em flor. Mas, sobretudo, um Portugal cheio da frágil força que a flor representa. Dos afetos que gera. Do sentimento positivo que desperta. Uma visão validada pela constatação do quanto todos nós precisamos de tudo isso.

Mas, como os grandes sonhos se fazem na Terra, o nosso Romano viu o reflexo deste País Flor na economia que nos sustenta. As flores às janelas dos portugueses trariam movimentos de turismo a uma terra que já tem muitas cartas dadas nesta área. Um turismo que iria muito além daquele, o do Sol, que sempre guiou o principal eixo de diferenciação neste setor e que se resume a um ou dois meses do ano: – Sim, porque em Portugal, temos flores que podem ser plantadas em todas as alturas do ano! Diria ele, se estivesse aqui agora. Estas criaturas simples, que tudo aceitam, com os seus cheiros e cores, dariam origem a conteúdos e conteúdos que, alimentados pelo efeito viral típico da sociedade de informação atual, contagiariam o país e o Mundo. E fariam ecoar as vozes da Lusitânia, o sítio da Luz que lhes dá vida. Um exemplo disruptivo de uma onda positiva a nascer, aparentemente como um oásis, no meio de uma conturbada realidade económica.

Depois das flores, viriam, pois, os frutos. E, com eles, os produtos ligados à natureza, a terra e o interior. Um vislumbre de uma possibilidade democrática de protagonismo de todas as regiões que passariam a exibir as suas próprias flores a uma janela que mostrariam a todos, com orgulho. Os empreendedores sociais que todos somos em potência, encarregar-se-iam de dinamizar as economias locais, em conjunto com as organizações e as pessoas. E Portugal poderia ambicionar ser o Jardim à beira-mar plantado que sempre, nostalgicamente, afirmou ser. E tudo a nascer de uma Ilha de Flores, como a dos amores de Camões.

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Agora que já estão bem situados dentro deste grande sonho de um homem comum, vem a parte que todos, inevitavelmente, esperamos ansiosamente saber. O plano. Porque para passar do sonho á realidade, precisamos disto – do racional e, claro, da logística. E, acreditem, existe um, está em movimento e a ser implementado. Como sempre acontece para que algo grande se torne real, foi preciso que muitos se juntassem ao sonho, para criarem um movimento. Chama-se Evadream. O sonho do Paraíso juntou-se ao pragmatismo de Martin Luther King e fez-se português. A primeira iniciativa deste movimento chama-se “Bairros Floridos de Lisboa”. Com a parceria entusiástica da Câmara Municipal de Lisboa, do EGEAC, do Instituto Superior de Agronomia e da Associação Nacional de Produtores de Plantas – Flores Naturais, o Evadream desafiou a CML e todas as freguesias de Lisboa a escolherem um local simbólico da sua jurisdição para florirem. O primeiro vai ser a Praça do Município. Muitas freguesias estão já a congeminar instalações inesperadas. Apenas para, depois de terem dado o mote, desafiarem moradores, comerciantes e quem quiser aderir a fazerem o mesmo nas suas casas, montras, esplanadas e recantos. Juntam-se também à iniciativa muitas caras conhecidas de todos, figuras carismáticas de bairros típicos, uma moda de “flower selfies”, desafios a criativos e mobilização de empresas e organizações sociais. E, com isto, está criado o cenário para começar a gerar, à semelhança do que já aconteceu antes, uma enorme onda. Uma onda que, bem regada, vai florir e fazer florescer. E chegar a todo o território nacional. Já são muitas as regiões a quererem entrar nesta Barca.

Portugal conhece bem a força e o simbolismo das flores. Desde a rainha Santa Isabel e o milagre que as gerou, às que foram ícone e imagem da mudança para o sistema democrático que hoje conhecemos. É verdade que os grandes sonhos parecem difíceis de imaginar na sua “versão vida real”. Por isso são grandes. E se chamam sonhos. Mas também é verdade que, sem criarmos essa possibilidade dentro de nós, nada acontece. Por essa razão, o desafio que quero hoje deixar é este – em vez de cortarem pela raiz esta flor, abram-se à pergunta: E se…?!

Eu já fiz isso. Eu sonho e sou Evadream. Hoje, ofereci uma flor a uma pessoa desconhecida. E só vi esperança no seu olhar.