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Após a desilusão com um ex-governante, inúmeros portugueses resolveram desiludir-se em simultâneo com um dirigente da bola. Há nisto o respeito por diversas tradições pátrias. A tradição de seguir fervorosamente determinadas fraudes. A tradição de reagir com ameaças e fúria aos avisos de que a fraude é obviamente uma fraude. A tradição de admitir a fraude, de repente e com anos de atraso. Como o bêbado que, já na cama do hospital, tenta travar para não bater no poste, o discernimento dos portugueses raramente falha: demora é uma eternidade a chegar.

Também é ridículo presumir que as pessoas veneram qualquer fraude: só as demasiado evidentes. Os profetas duvidosos não são connosco. Preferimos profetas espalhafatosamente toscos, ou fancaria autenticada. Se um tipo com ar vagamente alucinado, gramática deficitária, promessas épicas e conversa fiada irrompe na cena pública, muitos contemplam o espectáculo e decidem que, sim senhor, está ali alguém a ter em conta. Quando, em dez minutos, se torna notório que o tipo é um rematado trafulha, a adoração e as ofensas aos descrentes aumentam em proporção directa. Quando, além da trafulhice, o tipo acentua os vestígios de loucura, os fiéis encontram-se capazes de morrer por ele, e sobretudo de matar por ele. Na fase em que o tipo começa a descer o Chiado vestido de Napoleão, embora troque o exílio em Elba por uma conta em Barbados, o séquito entra em transe espiritual.

Um dia, pouco antes de ingerir o cianeto que o profeta generosamente providenciou, dá-se uma epifania colectiva, o culto abre os olhos e percebe que fora enganado por um reles farsante. Desalentados, e sem pingo de vergonha, os membros do culto percorrem a via sacra das televisões, dos jornais e do Facebook a confessar o logro em que, coitadinhos, caíram. Por um triz não pedem indemnizações por danos morais.

As características dos profetas caseiros, que depois de longa reverência frequentemente desce ao carisma da lepra, incluem um vasto rol de qualidades: são desonestos nas contas, falsos na palavra, escorregadios no carácter, egocêntricos, avessos à dissidência, convictos, teimosos, ignorantes, infantis, incapazes de empatia e capazes de, no aperto, arrastar com eles o que existir em redor – o termo técnico é doidos perigosos. Às vezes, acumulam as qualidades todas; às vezes, só algumas. Quanto às características dos fiéis, o espectro é reduzido: ou são inacreditavelmente oportunistas ou inacreditavelmente idiotas. Donde a tendência para os fiéis saltitarem entre profetas. Em geral, mal terminam de ser ludibriados por um (ou uma dúzia), atiram-se para o seguinte (ou seguintes) com alma lavada e cara-de-pau. O seguinte, mais um maluco sem escrúpulos, é que é o tal e quem disser o contrário arderá nos infernos.

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