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Crónica

Recordar António Patrício Gouveia

Autor
  • Miguel Horta e Costa
656

O António marcou profundamente a minha vida. A ele devo a referência moral e espiritual que sempre me tem acompanhado até hoje. Para mim o tempo nunca terá poder sobre a sua memória e a desses dias.

Conhecia o António Patrício Gouveia de vista, do ténis do Estoril, mas foi na primeira aula de Economia I do Professor João Salgueiro em 1966, que nos sentámos juntos e verdadeiramente nos começámos a conhecer. Iniciar-se-ia aí uma amizade profunda que se foi fortalecendo e enraizando ao longo dos anos até à sua trágica morte em Camarate.

O António irradiava segurança pessoal e uma curiosidade tranquila pelos temas que o apaixonavam. A Política, a Economia e as Relações Internacionais.

Profundamente influenciado pelo seu avô, Alexandre Pinto Basto, o António acompanhava com um interesse que me contagiava, a Política Internacional. Quantas vezes, num intervalo de estudo na minha casa da Rua das Chagas, dávamos um salto ao lado, a casa do avô, para recolher os números antigos da Time e do US News & World Report.

Era como eu um notívago. Consoante os exames ou as frequências as Chagas enchiam-se, chegando a sermos quatro ou cinco a estudar à noite. Muitas vezes já tarde, depois de estudarmos para uma cadeira, íamos os dois cear e ao levá-lo a casa ficávamos perdidos a conversar até ao nascer do sol.

Foi numa dessas conversas intermináveis em que o tempo parava que decidimos optar por Economia e não por Finanças. Depois de muita reflexão, o António convenceu-me que a Macroeconomia tinha outro alcance e outra profundidade de conhecimento que faziam dela o verdadeiro curso universitário. Poderíamos sempre mais tarde complementar o curso com uma pós-graduação ou um mestrado, como aliás viemos ambos a fazer. O António na John Hopkins em Washington em International Public Policy.

Mas consegui em compensação que o Professor Raimundo Aleixo nos desse a cadeira de Contabilidade Analítica (do curso de Finanças) à noite com a participação também do António Borges, do Miguel Beleza e do Francisco Lufinha.

Ao longo do curso houve três Professores que marcaram o António e por quem ele tinha uma grande admiração: João Salgueiro, Aníbal Cavaco Silva e Alfredo de Sousa. Os três, cada um com o seu estilo, moldaram a visão e a personalidade do António como Economista.

Para o António a Política era acima de tudo um meio para construir algo pelo seu País. Era essa visão pura, despida de quaisquer interesses que não fossem os de engrandecer e promover Portugal que eu mais admirava nele.

Vivemos intensamente a abertura política de Portugal pelos finais da década de 60. Ambos sentíamos um enorme desejo que Portugal se aproximasse de uma Europa moderna, livre e democrática.

A Sedes foi para o António das primeiras oportunidades para vivenciar essa abertura política.

Foi com a maior curiosidade e entusiasmo que acompanhámos as primeiras eleições livres e a criação da “Ala Liberal” da Assembleia Nacional com os deputados José Pedro Pinto Leite, Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, Mota Amaral e Magalhães Mota. Era uma nova era que se estava a abrir e que vinha ao encontro de muitas das nossas conversas.

Francisco Pinto Balsemão era deputado pela Guarda e o António, seu primo, recebeu de braços abertos o desafio que este lhe fez para intervir num distrito com o qual estava familiarmente ligado.

Foi assim que em finais de 1971, passámos uma semana na Guarda, com mais dois finalistas de Economia, o Nuno Lino e o José Ilharco, e dois de Agronomia, o José Mexia e o Carlos Amaral Neto, a fazer um levantamento das potencialidades económicas da Região.

A sua passagem pela Comissão Interministerial de Cooperação Económica Externa, onde vem a conhecer o Embaixador Ruy Teixeira Guerra abre-lhe a perspectiva da ligação de Portugal à CEE no âmbito da negociação da adesão.

Em Janeiro de 1973 vive intensamente a fundação do Expresso participando nele activamente.

Terminado o curso fomos, como era inevitável, chamados para a “tropa”. E assim em Janeiro de 1974 apresentámo-nos ambos na Escola Prática de Infantaria em Mafra para iniciar a recruta. Levou o acaso e a sorte de ficarmos no mesmo pelotão de instrução, o que nos permitiu viver em conjunto um dos períodos mais animados das nossas vidas.

Foi em Mafra que vivemos o 16 de Março.

Mas, naturalmente, separámo-nos na especialidade. O António foi para Contabilidade e Administração (EPAM) e eu para o curso de Comandantes de Companhia (CCC).

Foi aí que vivemos separadamente o 25 de Abril.

Em Maio de 1974 é criado o PPD e o António um dos seus entusiastas da primeira hora. Amigo de Francisco Sá Carneiro, amizade que se viria a fortalecer até à morte de ambos em Camarate, o António viveu intensamente a criação do PPD.

Íntimo de Francisco Balsemão e muito próximo de Joaquim Magalhães Mota, desde os primeiros dias o António participou activamente nesse extraordinário desafio que foi a génese de um novo partido social-democrata.

A intimidade com Francisco Sá Carneiro, de quem ultimamente era chefe de gabinete, levou a uma forte amizade que os unia também no plano pessoal.

António Patrício Gouveia com o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro

Lembro-me de mais de uma vez, depois de jantar, ter ficado a fazer companhia à Margarida enquanto os dois debatiam a sós os momentos difíceis que se viviam.

Camarate foi acima de tudo uma tragédia.  Portugal perdeu naqueles segundos dois grandes Políticos Nacionais mas também Aquele que certamente o poderia ter sido.

A família era para o António um desígnio de vida. Sem ela a vida perdia o seu sentido mais profundo.  A Margarida foi uma luz na vida do António e com ela a concretização do seu sonho. Quando lhe perguntei qual o nome que iriam dar ao seu primeiro filho disse de imediato:

– Tiago, como o Apóstolo.
O António era assim, profundo, espiritual e sem hesitações.

Um dia nas nossas reflexões sobre religião, perguntei ao António o que verdadeiramente o movia espiritualmente. A resposta veio rápida e totalmente inesperada:

– A busca pela santidade.

Fiquei perplexo por não esperar a resposta e ao ver-me assim disse logo:

– A santidade está ao alcance de todos e revela-se nas mais pequenas coisas todos os dias naquilo que fazemos. Só temos de ter Fé.

E ele tinha-a.

O António marcou profundamente a minha vida. A ele devo a referência moral e espiritual que sempre me tem acompanhado até hoje.

Para mim o tempo nunca terá poder sobre a sua memória e a desses dias.

António Patrício Gouveia vai ser homenageado esta quarta-feira, 29 de novembro, naquele que seria o 70.º aniversário de nascimento, numa cerimónia que teré lugar no auditório Caixa Geral de Depósitos (Edifício do Quelhas) do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), pelas 15 horas.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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