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Há cerca de uma semana, juntamente com um conjunto de signatários de várias áreas, assinei uma petição pedindo que fosse dada prioridade à abertura das escolas, de forma faseada, em segurança, e começando pelos alunos mais novos. No final desta petição constava uma frase que recebeu menos atenção e onde se lia: “Pedimos, finalmente, que seja já elaborado um plano, e canalizados os recursos suficientes, para recuperar o atraso acumulado por alguns alunos em competências-chave e tutelar a saúde física e mental das crianças e jovens”. Ou seja, reabrir as escolas não chega, há um trabalho hercúleo a fazer nos próximos anos para recuperar estes alunos do enorme choque de dois anos de ensino a distância. Este, aliás, foi um dos erros do primeiro desconfinamento, quando os alunos voltaram à escola e o tema da recuperação de aprendizagens se eclipsou do debate público, numa falsa ilusão de que estes danos haviam sido revertidos.

No Reino Unido, por exemplo, estimou-se que para os alunos do 1º ciclo a pandemia correspondeu, em média, a uma perda de dois meses de aprendizagens, atraso que chega aos sete meses para os alunos mais desfavorecidos. E é por aqui que é necessário começar no momento do regresso à escola: pela aferição das consequências da pandemia. Em Portugal, o Ministério da Educação planeou provas de aferição no 2º período nos 3º, 6º e 9º anos, que foram atropeladas pelo novo confinamento, chegando apenas a 23 dos 30 mil alunos previstos. Estes instrumentos de aferição devem ser alargados a mais anos de ensino, sendo repetidos de forma periódica nos próximos anos. Só assim poderemos desenhar políticas públicas informadas que ajudem na recuperação da geração da pandemia.

Vários planos de recuperação de aprendizagens têm sido sugeridos como possíveis soluções. Uma das propostas avançada passa por repensar o calendário escolar, uma questão particularmente relevante em Portugal, que tem um dos períodos de pausa escolar de verão mais longos da Europa. No Reino Unido, um projeto de escolas de verão está já em marcha, em que as escolas sinalizam alunos com maiores dificuldades para frequentarem programas de recuperação nas férias. Um dos principais desafios destes programas é a assiduidade dos alunos, e por isso o plano britânico tem a interessante característica de que parte dos fundos e do tempo pode ser alocada a atividades físicas e de socialização, algo a ter em conta dado o impacto da pandemia no número de horas de exposição a ecrãs e diminuição da atividade física. Na componente dedicada à recuperação de aprendizagens, alguns estudos mostram que os programas de escolas de verão mais eficazes são os dirigidos a alunos com maiores dificuldades, com um claro alinhamento com os conteúdos curriculares e uma componente de tutoria individual e regular.

Depois, há o apoio aos alunos durante o período normal de aulas, através, por exemplo, de programas de tutoria, algo que chegou a ser prometido para as escolas portuguesas em junho de 2020. Os programas de tutoria têm mostrado ter um forte impacto positivo nos resultados dos alunos, em particular no 1º ciclo, sendo que devem ser caracterizados pela sua grande intensidade (várias vezes por semana, integrados com o horário escolar), dispor de bons materiais de acompanhamento ao estudo e realizarem-se de forma individual ou em pequenos grupos. Interessantemente, estes programas, para serem efetivos, não têm necessariamente de ser realizados por professores da escola. Ou seja, com o treino adequado, podemos pensar em recrutar estes tutores junto de candidatos com diferentes percursos e formações académicas.

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Contudo, estas ou outras soluções dependem de dois fatores: investimento e disponibilidade de professores. Nem sempre as políticas educativas dependem de maior investimento para terem impacto; contudo, dada a magnitude da perda de aprendizagens causada pela pandemia, este investimento será inevitável. Programas como as escolas de verão ou as tutorias mostram ter benefícios de longo prazo, mas precisam de recursos para funcionar. Por isso, espanta-me que o Programa de Recuperação e Resiliência recentemente apresentado seja omisso acerca destas necessidades – não há plano, nem economia digital, nem futuro que resista a uma geração cujas aprendizagens não sejam recuperadas.

Adicionalmente, estas políticas precisam de professores. Na próxima década Portugal verá cerca de metade dos professores reformarem-se e não há no horizonte novos professores suficientes para os substituir. Segundo dados do PISA 2015, apenas 1,3% dos alunos de 15 anos em Portugal desejava ser professor. Programas como as escolas de verão ou os programas de tutoria podem também representar uma oportunidade para pensarmos em novas formas de recrutar, formar e integrar futuros profissionais no sistema, contribuindo para a transição da classe docente nos próximos anos.

Há diversas hipóteses em cima da mesa e a discussão sobre a sua adoção e financiamento não pode esperar mais. Sem esse esforço coletivo, “o vai ficar tudo bem” mais não será do que um slogan vazio e pelo caminho hipotecamos uma geração inteira.

Caderno de Apontamentos é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.