Em tempo de pandemia, de ressurgimento religioso, de retrocesso dos preceitos laicizantes e de festejos “confinados” nos santuários marianos, vale a pena recordar a história pouco conhecida das aparições do Barral, que teriam ocorrido poucos dias antes das aparições de Fátima.

O lugar do Barral fica situado na freguesia minhota de São João de Vila Chã, concelho de Ponte da Barca, nas imediações das serras da Peneda-Gerês. Em 1917, o local era distante, inóspito, quase inacessível. Sebastião dos Santos Pereira, advogado do Porto, católico fervoroso, sobrinho do bispo de Beja, D. Sebastião Leite de Vasconcelos, exilado da I República no Vaticano, foi o primeiro a interrogar o único vidente e a publicitar o acontecimento no jornal católico portuense A Ordem, de 9 de junho de 1917. Portanto, antes de o jornal O Século publicar na imprensa, a 23 de junho de 1917, a primeira notícia sobre as aparições da Cova da Iria.

Os manuscritos inéditos do advogado atrás citado e o supracitado artigo d’A Ordem descrevem a aldeia do vidente como um “sítio arborizado”, onde despontavam um “labirinto de casas, sem ruas, com terreiros formando arruamentos. Construções de madeira, no cimo de pilastras de pedra, dir-se-iam habitações lacustres, primitivas” (Mensagem de Paz, n.º 14, agosto – setembro de 1971), habitadas por uma “população pastoril […] devota de Maria Santíssima, trazendo homens e mulheres o terço ao pescoço” (A Ordem, 23-06-1917).

Nas imediações da aldeia, numa ramada próxima da ermida de Santa Marinha, nos dias 10 e 11 de maio de 1917, Severino Alves (1906-1985), pastor de 10 anos, analfabeto, “filho de uma pobre e virtuosa viúva e irmão de mais outros seis, todos eles tementes a Deus”, teria sido surpreendido por um relâmpago que antecedeu a visão de “uma Senhora sentada”, “toda Ela cheia de luz e esplendor”, com um “rosto lindo como nenhum outro”, vestida de branco, tendo a “cabeça coberta com um manto azul” (A Ordem, op. cit.). No dia 10, a visão teria sido fugaz, pois provocou o desfalecimento imediato de Severino. Porém, no dia seguinte, quando o pastor voltou a conduzir as ovelhas e carneiros para o monte, teve um novo avistamento, à mesma hora (8 horas da manhã) e no mesmo local. Dessa vez, aconselhado pelo pároco da aldeia, ajoelhou-se e disse: “Quem não falou ontem, fale hoje!”. Sebastião Pereira reproduziu para a posteridade, no número atrás citado do jornal A Ordem, a sua representação do relato do vidente, que aqui continuamos a seguir: “Então a Aparição, com uma voz que era um misto de rir e cantar, diferente do falar de todos os mortais que tem visto, tranquilizou-o dizendo: Não te assustes, sou eu, menino. Diz aos pastores do monte que rezem sempre o terço, que os homens e mulheres cantem a ‘Estrela do Céu’ [oração secular cantada em épocas de guerras e outras calamidades]. E as mães que têm os filhos lá fora que rezem o terço, cantem a ‘Estela do Céu’ e se apeguem comigo, que hei de acudir ao mundo e aplacar a guerra. Depois de dizer o que fica escrito, sem que a criança tivesse mais tempo que responder a tudo: ‘Sim, Senhora!’, a Visão, olhando para uma ramada, acrescentou: ‘Que gomos tão lindos, que cachos tão bonitos!’ Mal o rapazinho tinha acabado de olhar a ramada, voltando a cabeça, já a Visão tinha desaparecido”. Em suma, a história e a mensagem originais de Fátima — a aparição de uma Senhora a crianças pastoras naturais de locais ermos, pedindo-lhes para orarem o terço em troca do fim da guerra — reproduzem a história e a mensagem do Barral.

O jornal Echos do Minho, de 22 de julho de 1917, noticiou que o arcebispo de Braga, D. Manuel Vieira de Matos abriu um processo canónico e nomeou uma comissão de três reputados teólogos que se deslocaram ao local para interrogar o vidente e investigar o sucedido. Mas os documentos desta inquirição, realizada ainda em 1917, e o parecer assinado pelo arcipreste de Ponte da Barca e pelo prior de Vila Nova de Muía, aldeia anexa ao lugar do Barral, oportunamente entregues na arquidiocese de Braga, desapareceram sem nunca terem sido publicitados!

Em finais de 1917, Severino foi levado pelo clero para o Seminário Maior de Braga. Contudo, sendo semianalfabeto (nunca concluiu a 4.º classe), não se adaptou aos rigores disciplinares e académicos da instituição. Por isso, alguns meses depois, foi abruptamente devolvido à sua aldeia pelo reitor do Seminário, procedimento que só vem confirmar a pouca importância atribuída então pela arquidiocese de Braga aos depoimentos do vidente. Haveria ainda de deambular por um colégio de Jesuítas de La Guardia, Galiza, de onde terá fugido, e por um armazém de drogarias de Lisboa, exercendo nos dois locais penosos trabalhos braçais, e de casar e ter dois filhos, antes de retornar definitivamente às fainas agrícolas, na sua terra natal. Ao contrário da principal vidente de Fátima, Lúcia, Severino teve, pois, uma vida vulgar e uma morte anónima.

Durante anos, estas visões, ocorridas num local tão recôndito e periférico do país, foram enjeitadas pela hierarquia católica, a qual preferiu investir em Fátima, que beneficiou de promotores clericais e laicos bem mais influentes e persuasivos e foi favorecida por uma localização geográfica mais central e servida por melhores acessibilidades.

De resto, importa aqui esclarecer que, entre 1916 e 1918, é possível captar nos jornais coevos registos de sucessivas aparições análogas, entretanto esquecidas, cujas causas devem ser imputadas aos tempos quase “apocalípticos” de guerras, pestes e fomes que fustigavam Portugal e outros países do mundo – a saber: Primeira Guerra Mundial (1914-18), onde o país estava envolvido, com milhares de soldados a combaterem, primeiro nas colónias de Angola e Moçambique, depois também na frente da Flandres – guerra essa que levou o papa Bento XV a ordenar, a 5 de maio de 1917, a inclusão na ladainha de Nossa Senhora da invocação “Regina Pacis, ora pro nobis”, a qual foi divulgada em todas as missas do país; as guerras religiosas e políticas da I República, entre republicanos anticlericais e militantes católicos, mas também entre o hegemónico Partido Republicano Português (vulgo Partido Democrático) de Afonso Costa e os seus adversários monárquicos, católicos e republicanos de vários matizes; as pestes e quarentenas provocadas pela varíola, o tifo e, a partir de maio de 1918, pela pneumónica; a carestia extrema de bens de primeira necessidade e a superinflação agudizada pela ação de açambarcadores e especuladores. Estes registos de aparições retomavam, afinal, uma tradição ancestral de religiosidade popular que se propunha ordenar o caos: procurava justificar a origem das calamidades, prescrevia um lenitivo para as superar e devolvia o Homem a Deus.

O cónego Manuel Nunes Formigão foi o maior apóstolo de Fátima e, por isso, considerado por muitos fatimistas e fatimólogos o “quarto mensageiro” dessas aparições. No Relatório da Comissão Canónica, que redigiu sozinho, o qual permitiu que a Igreja Católica classificasse as aparições da Cova da Iria como “dignas de crédito”, identificou as aparições do Barral e outras aparições coevas como “visões fictícias”, “manifestações pseudo-sobrenaturais”, “maquinações do espírito das trevas, procurando arrastar […] as massas populares, ignorantes e facilmente crédulas, servindo-se para a execução dos seus planos de auxiliares ambiciosos interesseiros e sem escrúpulos” (Documentação Crítica de Fátima – II, 1999, p. 193).

Ainda que o Barral fosse visitado por bastantes romeiros, sobretudo provenientes do Minho, e que tenham ecoado na região notícias da ocorrência de milagres, o culto da Senhora do Barral, entretanto obscurecido por Fátima, caiu num acentuado esquecimento, pelo menos desde 1926. Apesar de o arcebispo de Braga ter ordenado a vedação do espaço e de ter permitido o recolhimento de esmolas. Até que, em 1967, ano do cinquentenário das aparições de Fátima e do Barral, Avelino de Jesus da Costa (1908-2000), cónego da Sé de Braga e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, marianista e fatimista devoto, natural do Barral e primo direito do vidente Severino Alves, decidiu reanimá-las. Fê-lo com a autorização da hierarquia católica e o incentivo dos eclesiásticos e veneráveis fatimólogos Sebastião Martins dos Reis e Joaquín Maria Alonso, entretanto surpreendidos com as diversas alusões às visões do Barral na imprensa de 1917.

Apresentou uma comunicação sobre o tema no XII Congresso Mariano Internacional, realizado em agosto de 1967, e assinou uma série de artigos no Diário do Minho, que foram também divulgados nos periódicos Novidades, A Voz e O Povo da Barca. Tais iniciativas forneceram lastro para a criação de uma nova imagem da Senhora do Barral (inspirada numa estátua primitiva encomendada por Sebastião de Vasconcelos à Casa Fânzeres, de Braga, e que havia sido esculpida em 1919, a partir das descrições do vidente, mas que a arquidiocese não permitiu, nessa época, trasladar para o local das aparições); para a edificação de uma capela batizada com o nome oficial de Nossa Senhora da Paz, concluída em 1969, decorada em quartzo extraído da região e ornamentada pelo padre e artista de Coimbra, Augusto Nunes Pereira; para a construção de uma cripta no local das alegadas aparições, inaugurada em 1972, revestida, no seu interior com painéis de azulejos alusivos a diversas aparições e santuários marianos que envolvem um grande altar de quartzo; para a edificação de estátuas, de acentuada dimensão, do Sagrado Coração de Jesus, de braços abertos (1974), do Coração Imaculado de Maria (1977) e do Anjo da Guarda de Portugal (1982); para a construção da Igreja basilical de três naves em honra do Imaculado Coração de Maria (1988); e, também, para a fundação de um Museu-Biblioteca (1982), que ostenta uma das maiores coleções nacionais de cristais de quartzo e reúne um espólio de livros, insígnias, medalhas, coleções litúrgicas e objetos artísticos legados pelo maior promotor do santuário. O padre Avelino da Costa empenhou-se ainda em reorientar, no Barral, o culto de Nossa Senhora da Paz. Os conterrâneos deste sacerdote haveriam de erigir-lhe um busto, no recinto do santuário, em 1983, pelos serviços prestados.

Tal como Nunes Formigão, Avelino da Costa tinha uma visão tradicionalista da Igreja e uma perspetiva ultraconservadora da política. Foi um devoto dos cultos místicos do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, um censor dos costumes mundanos, do divórcio e do aborto, e um defensor dos privilégios inamovíveis da Igreja (Mensagem de Paz, n.º 34, novembro – dezembro de 1974 e n.º 41, março – abril de 1976). Foi um seguidor incondicional do cardeal Cerejeira, que considerou um “preclaro português” e “virtuoso Apóstolo da Igreja” (Mensagem de Paz, n.º 49, agosto – outubro de 1977). Retratou Salazar como “amigo da paz”, “figura gigantesca de grande estadista que tudo sacrificou pela pátria”, “insigne português, que ficará como um dos maiores e mais prestigiosos da nossa História” (Mensagem de Paz, n.º 23, janeiro – fevereiro de 1973; e nº 8, julho – agosto de 1970). Denunciou as violências da I República e bateu-se, na imprensa, contra o marxismo, a “infiltração da internacional comunista em Portugal” e a “libertinagem, que se seguiu ao 25 de Abril” (Mensagem de Paz, n.º 36, abril – junho de 1975, e n.º 62, julho – agosto de 1977).

Por isso, empenhou-se em criar no Barral um santuário mariano que replicou o culto austero, devocional e penitencial, oficializado em Fátima (o qual, por sua vez, mimetizou Lourdes) e procurou obstar que o local degenerasse num santuário de romaria idêntico a muitos outros que grassavam no país. Como reiterou no Mensagem de Paz, n.º 49, 1977: “Já por várias vezes, temos afirmado em público e escrito neste jornal, que o nosso mais vivo desejo é fazer das festas de Nossa Senhora da Paz manifestações públicas de verdadeiro culto a Deus e a Nossa Senhora, transformando-as, portanto, em atos de profunda e autêntica piedade, livres, tanto quanto possível, de todo o caráter mundano das tradicionais romarias.”

A julgar pelo programa anual das celebrações — composto por sucessivas eucaristias, procissões diurnas e noturnas, peregrinações organizadas oriundas de várias povoações e contínuas recitações do terço —, o espírito do culto de Fátima continua, hoje, a perpetuar-se na sua “gémea primogénita” Senhora da Paz do Barral, como um dia desejou o seu grande promotor, padre Avelino de Jesus da Costa.

Bibliografia:

A Ordem, 9 de julho de 1917.

Arezes, Luís, Centenário das Aparições no Barral, Ponte da Barca, Município de Ponte da Barca, 2017.

Avelino de Jesus da Costa na Imprensa Barquense, Ponte da Barca, Município de Ponte da Barca, 2009.

Documentação Crítica de Fátima, II – Processo Canónico Diocesano (1922-1930), Fátima, Santuário de Fátima, 1999.

Echos do Minho, 22 de julho de 1917.

Mensagem de Paz, 1970-1977.

Torgal, Luís Filipe, Fátima. A (des)construção do mito, Coimbra, Palimage, 2017.

Idem,  O sol bailou ao meio-dia. A criação de Fátima, Lisboa, Tinta da China, 2011.