Esta semana, Madonna mostrou as mamas. Está de parabéns. Não pelas fotos em si, nem pela fabulosa arte do seu artista residente, perito em Photoshop, mas sim pelo facto de, depois de tantos anos a despir-se para o boneco, ter conseguido que hoje já ninguém ligue muito a desnudamentos destes. É bom já não nos sentirmos chocados pelos seus mamilos (embora tivessem um alarmante tom de roxo naquela foto… espero que ela esteja bem). Mas é pena que ela tenha de se pintar e Photoshoppear para tirar os 56 anos do seu corpo, talvez com receio de nos assustar.

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A imprensa e a publicidade estão pejadas de mulheres e homens ridiculamente perfeitos, ou seja, correspondendo ao ideal actual do que é perfeição, feito para nos fazer a todos sentir insuficientes. Embora as mentes mais saudáveis saibam perfeitamente que a perfeição vem pela mão de Photoshop, a verdade é que o subconsciente absorve tudo.

Não são só as miúdas mais jovens que se sentem desadequadas depois de verem estas imagens, convencidas de que ninguém vai gostar delas se não forem assim perfeitas. Também são os meninos teenagers, os jovens masculinos,  os hipsters (sim, os hipsters também se podem sentir mal quando vêem “hipsters perfeitos” na publicidade das calças de ganga) e mulheres de meia idade. Provavelmente, quem quer que seja com um vestígio do desejo de se sentir atraente vai sentir-se uma porcaria ao lado da maior parte das imagens utilizadas em publicidade.

Isto é mau, está em todo o lado, e nós, claro, não gostamos. Recorremos então à internet, esse grande livro de reclamações, e indignamo-nos, protestamos, choramingamos e escrevemos sermões sobre os danos que tudo isto (incluindo os modelos de tamanho 0) faz às nossas crianças, ou sobre o contributo da imagem perfeita para a epidemia moderna de anorexia e depressão. Partilhamos vídeos que mostram a diferença entre um modelo Photoshoppeado e a versão não Photoshoppeada, expondo a terrível verdade de que são designers gráficos com a idade emocional de um puto teenager que andam a esticar as pernas e os braços, a aumentar os olhos, a diminuir as barrigas e as coxas, e a limpar as manchas.

Ora acontece que a nossa indignação na internet não vai mudar quase nada. De facto, até agora, as nossas queixas electrónicas só serviram para gerar uma nova aldrabice publicitária: aqueles anúncios que nos ensinam que nós (seres mortais, normais) também somos pessoas lindas. Já devem ter reparado no estilo: “Ó, olhem para nós, uma empresa simpática e consciente dizer-vos que afinal vocês são todas lindas, embora sejam um bocadinho gordas, um nadinha baixas e até mesmo feias, bem, não demasiado feias, só um bocadinho feias… mas vocês são quase lindas … desde que COMPREM OS NOSSOS PRODUTOS!!!”. Preparem-se, assim, para ver ainda mais vídeos de puxar as lágrimas em que muitas mulheres percebem de repente que não são TÃO feias como achavam, patrocinados por (inserir nome de Empresa de Cosméticos).

Eles alimentam-se do nosso desconforto e nós deixamos. Continuamos a comprar os seus produtos, as suas roupas, os seus champôs, os seus cremes, os seus elixires, os seus luxos, tudo o que eles nos continuam a vender recorrendo ao Photoshop.

O que é que poderia mudar a situação? Talvez nós deixarmos de comprar o que eles nos querem vender. Só durante um ano. Ou provavelmente um mês chegava. A verdade é que não precisamos mesmo de comprar tanta roupa nova. Nem da maior parte da treta que barramos nas nossas caras e no nosso cabelo. Nem de mais luxos.

Ora bem, porque é que não fazemos isso? Se, durante um ano, 50% das mulheres no Ocidente deixassem de comprar produtos das empresas que utilizam anúncios com imagens sobre-Photoshoppeadas (e, já agora, com modelos super-magras), o pânico na indústria provocaria mudanças imediatas.

Mas talvez não valha a pena. Talvez descobríssemos que, de qualquer maneira, nos sentiremos sempre imperfeitas, mesmo se rodeadas de belezas realistas e ao nosso alcance. Talvez esteja na nossa natura sentirmo-nos desadequadas, insuficientes. Talvez o Photoshop seja só mais um meio moderno de encher o vácuo, dando-nos metas impossíveis. Talvez até a Madonna se sinta feia.

Nunca saberemos, porque a única coisa que nos poderia prevenir de fazer compras seria um apocalipse de zombies… e, nesse caso, também não nos iríamos sentir lindas.

(Traduzido do original inglês pela autora)

 

We are all beautiful (but we’re not)

Madonna got her tits out this week. Bravo to Madge. Not for the photo shoot itself, nor for the pretty amazing artistry of her Photoshop artist in residence, but for the fact that she’s been doing it so long and no one really cares any more. It’s good that we’re not shocked by her nipples any more (although they were alarmingly purple in that photo… I hope she’s ok). But what a shame that she has to Photoshop herself out of her 56 year old body so as not to frighten the horses.

Press and advertising are plastered with ridiculously perfect people or rather, the current ideal fed to us of what is perfect, female and male, making us all feel inadequate. Even though the soundest of mind knows that Photoshop has touched the image it’s looking at, the subconscious is sucking it all in.

It’s not just young girls who look at these images and feel terrible about themselves, worry that no one will love them if they don’t look like that. It’s teenage boys and young men, hipsters (yes, hipsters feel bad, too, when they see “perfect hipsters” in ads for jeans) and middle-aged women. Hell, probably everyone with the merest vestige of a desire to look nice feels like crap in comparison with most advertising imagery.

It is wrong, all pervading and we hate it. We resort to the internet, our sounding board, and rage and rail and whine and proselytise about the damage all this it is doing to our children, about the modern anorexia epidemic and depression that “perfect” imagery is contributing to (along with the ridiculously skinny models). We share videos that show the difference between a Photoshopped model and its un-Photoshopped original, exposing the horrible truth of it, that graphic designers with the emotional age of a teenaged boy are lengthening arms and legs, widening eyes, narrowing thighs and bellies, wiping blemishes clean.

Our Internet outrage will change virtually nothing. In fact, until now, our complaining has just caused a new con trick, the latest advertising coup which tells us that we (mortals, normals) are beautiful too with  “oh look at us, a kind and conscientious cosmetics company telling you that you are beautiful after all even if you are a bit fat and short and a bit ugly… not TOO ugly mind, but, slightly ugly, you’re almost beautiful. BUY OUR PRODUCTS!” Prepare to see more tear-jerking videos about how women suddenly realise they aren’t QUITE as ugly as they thought they were, sponsored by “Insert Cosmetic Company Here”.

They are feeding on our discomfort and we are letting them. We keep buying their products, their clothes, their shampoos, their creams, their potions, their luxury goods, that they keep selling to us via the medium of Photoshop.

What would change things is if we stopped buying their products. Just for one year. Hell, one month would probably do it.  We really (really) don’t need to buy new clothes as often as we do. We don’t need most of the rubbish we smear on our faces or hair. We certainly don’t need any more luxury goods.

So, why don’t we just stop buying from them? If, for one year, 50% of women in the west stopped buying from companies that advertised with over-Photoshopped (and over-skinny, for that matter) imagery, panic caused in the industry would change everything. Instantly.

Maybe we would discover that we felt crap about ourselves anyway, even if all beauty around us was realistic, attainable beauty. Maybe it is our nature to just feel crap. Maybe photoshop is just the modern way of filling the void, giving us unrealistic goals. Maybe Madonna feels crap about herself.

We will never know the answer, because the only thing that will ever stop us buying this stuff would be a zombie apocalypse. … and we won’t feel pretty then, either.