Os bancos europeus estão a ameaçar sair de um dos maiores acordos sobre o clima, a “Net-Zero Banking Alliance, depois de as maiores instituições financeiras norte-americanas já terem feito o mesmo, assim como as canadianas. As gestoras de fundos, mesmo a Blackrock, uma das que foi durante anos uma referência no domínio da Sustentabilidade, estão a flexibilizar os seus critérios de investimentos, e os investidores tiraram dinheiro dos fundos de energias limpas.

No domínio social, empresas norte-americanas de referência estão a acabar com os seus departamentos de Diversidade, Equidade e Igualdade (DEI) e a abandonar esses critérios no recrutamento e nos contratos com fornecedores e clientes. A McDonald’s, por exemplo, abandonou os seus objetivos de igualdade na percentagem de mulheres e não-brancos em cargos de gestão, vai deixar de pedir aos seus fornecedores que assinem compromissos de Diversidade, Equidade e Igualdade (DEI) e a sua equipa de Diversidade vai passar a chamar-se “Global Inclusion Team”. Mas há outras empresas a tomarem decisões no mesmo sentido, como a Harley Davidson, a Ford e a Walmart, esta última anunciando, ainda, que vai deixar de apoiar financeiramente o “Center for Racial Equity”.

Mas é a Meta, detentora do Facebook, Instagram e WhatsApp, que tem sido a referência desta mudança, pela rapidez com que a concretizou. Mark Zuckerberg anunciou que o Facebook iria deixar de fazer a moderação e a confirmação dos posts, substituindo isso pelas notas da comunidade, como já acontece com o X (ex-Twitter). Na comunicação interna disse aos colaboradores que a empresa iria acabar com os seus mais diversos programas de contratação com critérios de diversidade. E na entrevista que concedeu ao podcast de Joe Rogan, apoiante de Trump, afirmou, por exemplo, que as empresas precisam de mais “energia masculina”, defendendo que “uma cultura que celebre um pouco mais a agressividade tem os seus próprio méritos, que são positivos”.

Começam também a existir relatos, como neste trabalho do Financial Times, de mudança no discurso em Wall Street, nomeadamente entre os que antes receavam ofender, com a sua linguagem, os jovens, as mulheres ou as minorias. O FT cita um banqueiro de topo dizendo: “I feel liberated. We can say ‘retard’ and ‘pussy’ without the fear of getting cancelled”.

Aparentemente, os gestores e empresários norte-americanos estão a matar os critérios ESG (Ambiente, Social e Governação, na tradução em português), com a rapidez com que os abraçaram de forma até extrema. A cultura “woke”, que tem dominado a sociedade e as universidades norte-americanas, entra agora numa fase de retrocesso.

A questão é porque estão as empresas norte-americanas a fazer isso. A explicação simples é atribuir tudo isso à veneração a Trump. Na sua tomada de posse, Donald Trump fez saber que vai retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, deixando-o sem um dos maiores poluidores do mundo, vai acabar com os apoios aos veículos eléctricos, e anunciou a defesa das energias fósseis dizendo: “Drill Baby, drill”. Além disso, afirmou que passam a existir apenas dois géneros nos serviços públicos e defendeu uma sociedade “cega em relação à cor, e baseada no mérito”.

Mas os empresários e os gestores não se movem pelo que dizem os políticos, mesmo que tenham medo deles, especialmente se podem dar-lhes cabo do negócio. Podemos compreender que uma empresa como a Meta precise de estar nas boas graças do Governo, para evitar que se destrua o seu poder, ou que outras tentem evitar processos judiciais – como a gestora de fundos Blackrock. Mas as mesmas razões não se podem atribuir a empresas que dependem apenas dos consumidores, como a McDonald’s ou a Walmart. Estes negócios dependem das pessoas e do que elas pensam.

Aquilo a que podemos estar a assistir é a uma espécie de efeito de pêndulo, em que o movimento num sentido, quando é extremo, acaba por desencadear um movimento em sentido contrário, igualmente extremado. Os excessos a que estava a chegar a sociedade norte-americana em matéria de cultura “woke” teriam, mais cedo ou mais tarde, de ter esta consequência. E, lamentavelmente, o efeito pode trazer-nos uma sociedade mais conservadora que a dos nossos pais ou avós. E uma desvalorização dos problemas do aquecimento global que pagaremos caro.

A Europa não vai ficar imune a esta mudança. Os primeiros efeitos começam a ver-se no domínio das políticas de mitigação das alterações climáticas, com esta ameaça da banca europeia de sair, tal como a norte-americana, da Aliança pelo Clima. As políticas de Trump, nesta matéria da energia, terão inevitavelmente impacto, e a já frágil competitividade europeia fará o resto. A pressão dos empresários europeus vai aumentar para que a União Europeia reduza as suas exigências e, especialmente, comece a simplificar a sua teia tecnocrata e burocrática de regulações.

Além disso, lá como cá, há gestores e empresários ansiosos que acabem as exigências de Diversidade, Equidade e Igualdade. Se os exageros são condenáveis, o fim destas políticas corre o risco de se saldar num retrocesso do papel das minorias, com especial relevo para as mulheres.

Estamos a entrar numa nova era económica, social e cultural que as empresas identificaram, apesar de Trump. Mais conservadora e reactiva em relação aos exageros que foram sendo cometidos, para mal das minorias. Os países da União Europeia vão inevitavelmente ser apanhados por estas ondas de choque que poderiam aproveitar o que tem de melhor — como a liberdade e a igualdade, sem medo de ser cancelado, e a desburocratização — e evitando o pior, como os excessos em sentido contrário, nomeadamente a marginalização da diferença. Não vai ser fácil. Uma onda conservadora e protecionista começa a tomar conta deste lado do mundo.