Depois da festarola eleitoral de um resultado ridículo — sobretudo para quem teve o melhor clima económico das últimas décadas, a imprensa a favor e um PR que vive para os telejornais — parece que temos Governo. Bom, no caso é apenas isso mesmo. Em qualquer país sério, um Governo com esta composição seria caso para fechamento compulsivo de fronteiras e consequente interdição de contactos com o resto do mundo e diagnóstico de inimputabilidade irreversível.

Para começar, mantém-se os ditos pesos pesados de Costa o que, na linguagem vigente no indigenato, significa aqueles que ameaçam bater na oposição e os que tratam do conveniente spin off. Depois, há também aqueles cuja relevância numa democracia civilizada seria equiparável à de um presidente de Câmara: como somos especiais, transformam-se por aqui em ministros que tutelam a polícia. Somos ainda brindados com ministros que tutelam esse eterno desígnio nacional — o Mar — sem que se perceba para que servem ou sequer se servem. Eu, que nestas matérias sou pragmático, acho que os cavalos-marinhos precisam que os deixem dormir sossegados. Ah e existe claro o toque modernizador, através de um Ministério. Não se sabe qual o objecto deste: se a cabeça da Ministra, se a fotocopiadora do gabinete ou se, por mero e acidental acaso, alguma estrutura administrativa.

Depois, há casos que, sendo risíveis, nos deviam provocar comoção. A Dra. Van Dunem é aqui um exemplo claríssimo de que, passados 40 anos, se mantém actual a frase de Artur Portela Filho: somos tributários de uma pícara solenidade de que nenhuma miséria fica isenta. Numa pasta delicada como a Justiça, o sentido institucional e de decoro ditaria, ainda mais para alguém como formação jurídica, vergonha na cara e afastamento imediato. Sem autoridade e sem prestígio, a Dra. Van Dunem deixou, impávida e serena, que corressem a pontapé uma procuradora geral que fez um trabalho que, à excepção do Largo do Rato, reunira consenso e no qual se atacara um dos cancros mais relevantes da democracia. Como é costume em países de terceiro mundo, quem assim se comporta, cobarde e sibilinamente, é premiado — e o Dr. Costa é exímio em estar ao lado daqueles para quem as instituições têm a espessura de um guardanapo de papel.

Os exemplos poderiam continuar, mas seria fastidioso: o sr. secretário da Energia, que assina contratos de dezenas de milhões com empresas dos militantes do Partido do qual faz parte, é aqui um exemplo vivo de como em matéria de trafulhice, impreparação e prossecução nula do interesso público, talvez este governo merecesse uma condecoração. Não demos ideias a Marcelo, não vá alguém, daqui a uns anos, perguntar: Um Governo , em 2019, para quê?