A visão portuguesa sobre o mar não variou nos últimos 50 ou mesmo 500 anos. É feita de utopia e descrença, mil vezes proposta, outras tantas abandonada.

De quando em quando, as bandeiras azuis, o porto de Sines ou de Viana de Castelo, os submarinos, as pescas, as ilhas (desertas ou povoadas) ou a extensão da plataforma continental fazem correr algumas linhas nos jornais. No entanto, o mar – marca indelével da identidade nacional – está por discutir.

“É hora” de debater o mar, esclarecer o que fazer de uma herança secular e estabelecer um horizonte de futuro coletivo. Este debate é social e político, porque nos diz respeito a todos. Convoca os pareceres de especialistas, mas exige sobretudo desígnios que façam “até mais rubra a brasa da lareira a abandonar”. Enquanto cidadãos, instamos os nossos representantes eleitos a que façam do mar uma prioridade estratégica presente nos debates e nas agendas nacional e internacional.

O mar profundo também terá de fazer parte do debate alargado sobre o mar. Neste mar profundo, a mais de 200 metros de profundidade, a luz rareia. Na região afótica, a camada profunda dos ecossistemas aquáticos, não há sequer ação direta da luz solar (1000-6500 m de profundidade): a luz desaparece por completo. Os sinais de vida diminuem, embora se assista a aparições fantásticas de seres bioluminescentes, jardins de corais e fontes hidrotermais. As chaminés fumegantes das fontes hidrotermais libertam fluídos de misturas químicas intoxicantes para os seres humanos, que podem atingir a temperatura de 350º C. Estamos, porém, na presença de verdadeiros santuários de vida. Aqui, os organismos quimiossintéticos produzem o seu alimento a partir de elementos inorgânicos. A fauna particular de microrganismos, camarões e caranguejos está adaptada a este ambiente rico em enxofre e a um solo rico em vários minérios onde se podem encontrar metais como o ferro, cobre, níquel, lítio, prata, ouro, cobalto, outros minerais raros e ainda depósitos de nódulos de manganês e elementos radioativos. A riqueza geoquímica dos campos hidrotermais poderá torná-los nichos procurados pela indústria. Neste sentido, os ecossistemas do mar profundo colocam-nos perante dilemas inadiáveis. Como conciliar os interesses de investigação científica, económica e de preservação? A regulamentação das pescas de arrasto ou da produção, utilização e tratamento dos plásticos pode minimizar o impacto nos jardins de corais; mas as tensões subsistem.

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No âmbito do projeto de investigação e desenvolvimento I SEA (2018-2020) procurou averiguar-se junto do público o que se vai pensando acerca do mar profundo, nesta altura em que o tema ainda é tão desconhecido. Compreendemos que as ideias estão ainda em construção, mostrando uma tensão entre as visões emocional e racional, bem como entre uma tentativa de dar sentido ao mar profundo usando o conhecimento prévio do oceano, e a de reconhecer a novidade e a estranheza deste ambiente desconhecido. Há, sobretudo, uma lacuna evidente entre o conhecimento científico e de senso comum entre os participantes com baixo nível de escolaridade e pouco envolvidos com a ciência, enquanto as representações dos participantes com alto nível de escolaridade e envolvimento com a ciência pareciam ser estreitadas por visões instrumentais da ciência que prenuncia uma subordinação da realidade à ciência como modo único de relação com o mundo. Os resultados desta investigação pedem uma reflexão sobre os paradigmas ecológicos atuais. Os participantes manifestam claro apoio à preservação dos ecossistemas do mar profundo, opondo-se à exploração económica. Quanto à exploração científica, as atitudes são favoráveis, mas mais moderadas. Temos sustentado a convicção de que não encontraremos soluções equilibradas insistindo na oposição Homem-Natureza. Reiteramos que apenas através da revalorização da dignidade do Homem, enquanto administrador da Terra, poderemos construir horizontes de esperança.

Contrariamente ao que se vai tornando regra comum, o debate político não se pode refugiar em argumentos científicos, económicos ou ecológicos. O conhecimento científico não pode ser causa de medo; o conhecimento económico não pode ser profético; a sensibilidade ecológica não pode condenar o Homem. O mar profundo continua a ser um mistério a desvendar pelos cientistas e para o público na mesma medida em que o paradigma atual que caracteriza a nossa relação com o ambiente natural continua a ser um tema de vanguarda para todos os interessados na ciência e na comunicação da ciência.

É responsabilidade exclusiva dos cidadãos construir um projeto coerente, corajoso e responsável para o seu futuro coletivo: em Portugal, este futuro passa por um projeto para os mares. Não nos podemos eximir desta responsabilidade.