Sou jovem. Pertenço a essa classe perigosa, ultimamente apelidada de infantaria militar da Covid-19. É certo que o ser jovem me dá alguma liberdade para dizer alguns disparates, portanto talvez vá dizer alguns, sendo politicamente incorreto, justificado claro pelo facto de “eh pá, é um jovem”.

Começa a ser cansativa a tentativa de mental coaching, com frases feitas em trocadilhos que nos chegam de Belém e que se traduzem na arte de nada dizer. Precisamos de representantes e políticos que digam a verdade! Não se combate uma crise com positivismo desmedido, combate-se uma crise, essencialmente, com realismo, o que faltou desde o primeiro momento e que se revela essencial na transmissão da mensagem de que não sabemos se vai ficar tudo bem. Sabemos, sim, que queremos que fique tudo bem, o que é diferente. E, para tal, acompanhado da certeza de que o mundo será sempre diferente de como o conhecíamos, é imperativo que sejamos persistentes, rigorosos e disciplinados nos nossos comportamentos.

A consciência deve ser global! Nada justifica os ajuntamentos “em crescente” a que temos assistido nos últimos dias, todavia não podemos ser alheios ao facto de que estes não surgiram do nada. Se existem, sistematicamente, um discurso e uma postura de desvalorização, a população, e consequentemente os jovens, também desvalorizam o contexto em que vivemos.

A bandalheira – perdoem-me a expressão, mas sou jovem – que reina na Direção Geral de Saúde é digna, por si só, de um decreto próprio de estado de Calamidade. Subscrevo, até, de forma algo emotiva, que “não se mudam generais a meio da batalha”. Contudo, talvez fosse relevante alguém transmitir ao Dr. António Costa que pior do que a mudança de generais a meio da batalha é nem sabermos qual é a frente da batalha. Do vírus que não chegava a Portugal, para a não transmissão entre humanos, da inutilidade à obrigatoriedade do uso das máscaras, ao material médico de que não havia escassez, mas que afinal faltava, aos números publicados e depois corrigidos, e que termina em beleza com as recomendações para os festejos do São João para 2021. O descrédito que nasceu com esta pandemia acerca das (des)informações deste organismo é algo que nos devia envergonhar a todos enquanto portugueses. A demissão, para ontem, da responsável da DGS seria tarde, pois, no momento em que estamos, é fundamental que alguém assuma as rédeas deste combate, numa ótica de que, para cumprir Portugal, necessitamos de ter os melhores a liderar, caso contrário, as consequências serão fatais.

Passámos de um confinamento com relativo sucesso para um desconfinamento desenfreado e de incentivo para ir à praia, aos restaurantes, a espetáculos e no qual o fracasso na estratégia sanitária foi evidente. No entanto, “o tuga” não gosta de ter culpa, pelo que encontrá-la nos jovens, esses safados, como bodes expiatórios, surge como solução natural. Até pela falta de predisposição que muitos destes jovens já têm para aturar alguns dos nossos políticos, ou seja, nem direito ao contraditório haveria. Melhor seria impossível!

Foram os jovens que, em pleno confinamento com a população em casa atenta à televisão e às cerimónias do 25 de abril, se recusaram a andar “mascarados”? Foram os jovens que juntaram um aglomerado de pessoas do grupo de risco para encher a Alameda, em Lisboa, no dia 1 de Maio?

Chamam-se as televisões, já quase em clima eleitoral, para ver altas chefias de Estado a molhar o pezinho no mar, mas depois não queremos enchentes nas praias? Se alguém vê o Primeiro-Ministro a desconfinar num concerto com milhares de pessoas, naturalmente que fica uma mensagem de, em alternativa de quem possa não simpatizar com o mesmo gosto musical, poder optar por outro ato social de igual convívio com acompanhamento musical, “baixando assim a guarda”.

Desconfinámos o país, quando ainda não estávamos disciplinados para o fazer, incentivou-se que o povo saísse à rua numa ótica de sobrevivência económica, sem nos lembrarmos que de nada serve a economia se não houver pessoas, esquecendo-se assim que o vírus por cá continuava, e essa falsa sensação de normalidade pode tornar-se ainda mais perigosa do que o próprio vírus.

Admito que possa até ser “má-fé”, mas tendo em conta que a escolha para a realização de uma prova internacional de futebol é sempre de uma enorme complexidade, não é, no mínimo, estranho, não ter existido, praticamente, concorrência para receber a final da Liga dos Campeões? Ou, de facto, o Governo fez mesmo um hercúleo esforço para dar uma motivação extra aos nossos profissionais de saúde? Coitadinhos, não vão os profissionais de saúde achar que não são valorizados, ou que tratar da pandemia interna não é suficiente, vamos então encher as alas hospitalares com ingleses, alemães e espanhóis. Não é estranho dizer-se que somos um exemplo de combate à Covid e termos quase meia Europa a reabrir as fronteiras, mas a fechar-nos as portas? Estarão com receio de quê? Que espalhemos boas práticas?

Urge estabelecer uma prioridade nacional, que não seja a recuperação do turismo externo, uma vez que já todos percebemos que este ano não há salvação, que não seja abrir as escolas a todo o custo, porque os pais precisam de lá despejar os filhos para ir trabalhar, que não seja a realização de festivais políticos que ofendem o esforço feito pela população em confinamento… que a prioridade sejamos todos nós, que seja Portugal, minimizando ao máximo todas as nefastas consequências que a pandemia nos trouxe. Até agora, temos andado a fazer escárnio da sorte que tivemos no início e corremos o risco de levar com uma segunda vaga sem termos sequer recuperado da primeira.

Tal como na guerra, as vitórias devem reclamar-se no fim. Como jovem, como português, espero verdadeiramente que esta precoce proclamação de vitória, fundamentada num inexistente milagre e numa aparente antecipação do início da campanha para as eleições presidenciais, não nos traga fortes dissabores no futuro próximo. Portugal não está de todo capacitado para enfrentar um segundo round, por muito que a culpa de tudo o que acabei de referir seja dos jovens… essa espécie pouco confiável, inconsciente e com poder decisório no País.

Um jovem.