Logo Observador
Centenário

Marjorie morreu de “coração partido”, horas depois do marido

1.795

O último prisioneiro da Segunda Guerra Mundial morreu aos 101 anos. A mulher morreu 14 horas depois, "de coração partido". Faziam 76 anos de casados nesse dia e vão a enterrar nesta terça-feira.

Enquanto ele for feliz, eu sou feliz.”

Clifford Hartland morreu no dia em que celebrava 76 anos de casamento com Marjorie. A mulher, de 97 anos, morreu apenas 14 horas depois. O ex-prisioneiro da Segunda Guerra Mundial morreu de causas naturais, provadas pelos longos 101 anos de vida. A mulher morreu de “coração partido”. Esta é uma história de heroísmo, aventura e amor.

Clifford foi um dos milhares de soldados britânicos que, em fevereiro de 1942, se renderam aos japoneses em Singapura. Fazia parte do 7º regimento de artilharia real (7th Coast Regiment Royal Artillery). No ano seguinte, foi forçado, “em condições horríveis”, a ajudar na construção da “ferrovia da morte” – o caminho de 415 quilómetros entre a Tailândia e a Birmânia, construído pelo Império japonês para apoio das suas forças. Pelas “condições horríveis” em que trabalhavam, morreram cerca de 13,000 soldados.

Ainda em 1942, a mulher, Marjorie, recebeu uma carta do coronel do Regimento. O marido estava desaparecido. Muito provavelmente, morto. O desaparecimento de Clifford durou três anos. E, durante três anos, Marjorie recusou-se a aceitar a pensão de viuvez. Recusou-se a aceitar a morte do marido, o seu “único amor”. “Foi terrível. Tive de ir trabalhar para uma fábrica de pára-quedas para arranjar dinheiro. Não conseguia comer lá, porque havia ratos por todo o lado”, recordou em 2013 ao Birmingham Post. No caminho para o trabalho, passava sempre pela igreja. Rezava para que o marido voltasse para casa. Um dia, ligaram a Marjorie para lhe dizer que o marido estava vivo.

A Campanha da Birmânia no sudeste asiático foi travada, numa primeira fase, entre as forças do império britânico com o apoio da China e dos Estados Unidos da América, contra as forças do Japão, Tailândia e exército indiano. A 2 de setembro de 1945, os japoneses renderam-se aos aliados. “A pior parte foi quando nos mandaram cavar as nossas próprias sepulturas e simplesmente esperar por ser mortos”, contou o ex-prisioneiro na mesma entrevista, no ano passado.

Mas a força da resistência havia de acompanhar Clifford mais alguns anos. Em novembro de 1945, é finalmente dispensado do exército e chega o esperado regresso a casa. A única filha do casal conta que, quando Clifford voltou da guerra, esteve no hospital durante bastante tempo. “Mas nenhum deles se importou. Estavam realmente felizes por estarem juntos outra vez”. O casamento celebrado em agosto de 1938 era “uma história de amor perfeita”, sintetiza. E a perfeição apontada por Christine Pearson está em grandes detalhes, como a tranquilidade que os acompanhou durante mais de sete décadas. “Eles nunca discutiam. O meu pai idolatrava a minha mãe, e a minha mãe adorava-o”.

Na entrevista de janeiro de 2013, perguntaram a Clifford como é que se sentia por estar quase a chegar aos 100 anos, depois de ter tido três acidentes vasculares cerebrais que resultaram em alguns danos na visão e na audição. A resposta: “Sinto-me igual, apenas um pouco mais velho”. O sentido de humor é uma característica que o centenário nunca perdeu, apontou a filha do casal, agora com 67 anos.

Sorte no amor e sorte na vida – podia ser assim resumida a história de Clifford. “Durante a guerra, o meu pai estava num comboio que explodiu quando atravessava uma ponte. Ia na última carruagem: foi a única que escapou.” Das outras restaram “pedaços de braços e pernas, que estavam por todo o lado”, conta Christine Pearson. Dos 700 que saíram do 7º regimento de artilharia real, apenas quatro resistiram à tortura dos campos de prisioneiros. Clifford era um deles. “O meu pai fez questão de manter o contacto com os outros três durante anos, até morrerem”, conta Christine.

Agora, o último morreu numa casa de repouso, em Inglaterra, poucas horas depois de a mulher ter voltado do hospital, onde estava internada por ter partido uma perna. “Eu acho que ele estava à espera que ela voltasse para casa, para o quarto deles, para morrer em paz”, conta a filha de ambos. Marjorie ficou em choque e repetia constantemente “Eu não consigo viver sem ele, eu não consigo viver sem ele”. Nessa noite, Marjorie telefonou à filha, por não aguentar a dor. “Eu disse-lhe para ela pensar no amor maravilhoso que tinham vivido, talvez esses pensamentos a acalmassem”, explica. “Ela morreu à uma da manhã, e eu quero acreditar que era exatamente nisso que ela estava a pensar”.

Os paramédicos chegaram e verificaram o corpo. “A explicação foi esta: a minha mãe morreu de ataque cardíaco, mas não de uma forma qualquer. A minha mãe morreu literalmente de coração partido”. Marjorie e Clifford estão juntos na vida e na morte. O funeral, em conjunto, realiza-se esta terça-feira.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Centenário

100 anos da Revolução: Porquê na Rússia?

Jaime Nogueira Pinto
294

Lenine e os seus, que no exílio de Zurique souberam com surpresa da insurreição, lograriam depois, da Estação de Finlândia ao assalto ao Palácio Inverno, acender o rastilho do revolucionário século XX

Fátima

Os dois centenários de 2017

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
328

Neste centenário das aparições na Cova da Iria e da revolução comunista russa, não se pode deixar de reconhecer que a ‘conversão’ da Rússia, depois da sua consagração a Maria, impôs Fátima ao mundo.