Brasil

O Brasil de 2018

Conheça as propostas dos dois candidatos que querem liderar o Brasil, para melhor perceber o que pode ser o país daqui a quatro anos.

Autores
  • Diogo Queiroz de Andrade
  • Milton Cappelletti

O Brasil que os candidatos vão herdar é um gigante em recessão, que precisa de voltar a encontrar o caminho do crescimento. Dilma e Aécio têm prioridades e personalidades diferentes – o país de 2018 depende do resultado de hoje.

Dilma Roussef parece liderar nas sondagens, mas o Brasil é um país tão grande que os resultados têm sempre uma grande margem de imprevisibilidade. Aliás, na primeira volta as sondagens falharam e a candidata do PT (Partido dos Trabalhadores) acabou por ter um resultado abaixo do esperado.

Dilma teve 41,5% e Aécio Neves 33%, confirmando um mapa do Brasil completamente dividido. No rescaldo da primeira volta, o apoio de Marina Silva a Aécio Neves, do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) vai ajudar a manter em suspenso os eleitores. Aécio poderá, com esse apoio, voltar a surpreender, ele que já esteve acima do esperado na primeira volta. Mas os debates televisivos desta semana não apresentaram um vencedor claro e as sondagens apontavam para um crescimento da margem de segurança de Dilma, a recandidata.

Com 26 Estados e um Distrito Federal em jogo, a Presidente superou Aécio em 15 Estados quando a comparação é feita em números absolutos. A lista inclui Alagoas, Amapá, Amazonas, Baía, Ceará, Maranhão, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Tocantins. As principais vitórias foram em Minas Gerais, berço eleitoral de Aécio Neves e segundo maior círculo eleitoral do país com 15 milhões de eleitores, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Entretanto, Aécio Neves venceu em dez Estados, entre os quais São Paulo, onde votam 31 milhões de brasileiros. De facto, o candidato social-democrata obteve 44% dos votos no Estado, enquanto Dilma chegou a apenas 26%, o que neutraliza a vitória da Presidente em Estados com um número de eleitores mais reduzido.

Dilma Rousseff e Aécio Neves conquistaram 11 capitais cada um, enquanto Marina Silva foi vitoriosa em cinco. Mesmo vencendo em apenas dois Estados, a candidata do PSB (Partido Socialista Brasileiro) obteve bons números nos grandes centros urbanos, em especial na cidade do Rio de Janeiro, onde liderou os resultados com 31% dos votos, contra 30% de Aécio e 29% de Dilma. A cidade foi a única da região sudeste onde o candidato do PSDB não venceu: em todas as outras capitais do sudeste, sul e centro-oeste liderou os resultados. Dilma repetiu os bons resultados no norte e nordeste do país, em cidades como Manaus, Belém e Salvador.

Esta divisão de votos nos grandes centros urbanos espalhados pelo país poderá ser determinante na noite de hoje, especialmente tendo em conta a desistência de Marina a favor de Aécio. Não sendo líquido que a maioria dos votos transite de um candidato para outro, algum efeito terá este apoio — o que cria mais incerteza no resultado de hoje. Por isso importa equacionar o que será o Brasil com a vitória de um ou de outro candidato.

O Brasil de hoje tem uma classe média baixa dominante que quer mais: mais representação, mais combate à corrupção, mais liberdade fiscal e menos dependência do estado e melhores serviços públicos. E tem uma elite deslumbrada com o potencial da globalização mas muito preocupada com políticas estatizantes que limitem o crescimento do país e ameacem a estabilidade social. Ao mesmo tempo tem uma imensa bolsa de pobreza centrada na periferia das grandes cidades, aspirando a melhorar as condições de vida e a aceder aos bens da classe média. A desigualdade entre regiões e o acesso dos mais jovens à escolarização completa são alguns dos maiores problemas com que o Brasil moderno tem de lidar – faltando também uma definição de qual o papel internacional que quer ter, visto que ao seu peso económico crescente não tem correspondido uma intervenção global equivalente. E é um Brasil que aprendeu a protestar, tendo muitos jovens enchido as ruas de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro no primeiro semestre do ano reclamando contra aumento de transportes e défice de representação social.

Mas este é também um gigante económico em recessão técnica e em crise de crescimento. Desde 2011, o Brasil tem crescido apenas 1,8% ao ano, com a inflação a rondar os 6%. Os números não são animadores e o país tem sentido dificuldade em atrair capital estrangeiro ao mesmo ritmo que conseguiu na primeira década do século.

Vitória de Dilma

O Brasil de Dilma é menos crispado politicamente que o de Lula, mas não é mais transparente: as acusações de pouca firmeza no combate à corrupção cometida no aparelho de estado têm-se sucedido e isso contribui para manchar uma imagem que tem um passado pouco claro devido a situações relacionadas com a sua passagem pela Petrobrás.

A candidata à reeleição tem recusado apresentar um programa detalhado, afirmando que os últimos cinco anos são o espelho do que pretende fazer. Mas assim também alivia a pressão sobre ideias e propostas que pudessem causar polémica. Do que se sabe, o plano económico de Dilma tem um programa económico aposta em concessões de longo prazo em detrimento das privatizações – e o mesmo esquema é desenvolvido para as enormes reservas de pré-sal, que deverão ser concessionadas ficando sempre a Petrobrás com um mínimo de 30%. Dilma quer manter a inflação estável, mas isso pode ser conseguido com recurso a um câmbio flexível que é uma arma instável a médio/longo prazo.

Dilma defende ainda o fim do financiamento privado das campanhas e a criação de conselhos populares que sejam consultados sobre algumas decisões do governo, numa tentativa de aproximação das pessoas à política. Em termos sociais não se diferencia muito de Aécio, visto que ambos defendem a manutenção dos direitos civis para os casamentos do mesmo sexo, a criminalização da economia e as quotas raciais em serviços públicos.

Será um Brasil que terá de lidar com o imenso peso do investimento no mundial de Futebol, com a agravante de estar ainda a preparar uns Jogos Olímpicos para daqui a dois anos. Mas será acima de tudo um Brasil que, mesmo apoiando Dilma, duvida da sua capacidade de condução de economia.

Vitória de Aécio

Aécio Neves posiciona-se como o candidato do centro – tal como o homem de quem reclama a herança política, Fernando Henrique Cardoso. É visto como estando à direita de Dilma, mais conservador em termos sociais e liberal na economia.
A reforma política é um tema recorrente em cada eleição. Os candidatos estão de acordo sobre o fim da reeleição e ampliação do mandato presidencial de quatro para cinco anos. Contudo, Aécio defende a diminuição dos atuais 39 ministérios para metade e diz que estes servem apenas para que o governo construa uma base política – expressa numa função pública superior ao necessário que encobre a prestação de muitos favores políticos.

Em termos de políticas sociais, Aécio Neves promove a educação a principal bandeira, embora seja vago na forma como quer gerir essa prioridade. Diz ainda ser favorável à criminalização de atos de discriminação contra homossexuais e defende a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Mas é na economia que está a maior insistência do candidato do PSDB. Aécio Neves defende a importância de uma agenda recessiva com políticas de austeridade fiscal para se reduzir a inflação sem depender apenas da alta dos juros. Aécio tem repetido o termo “tripé macroeconómico” (juros altos, superavits primários elevados e câmbio flutuante) para definir a sua política.

Um Brasil de Aécio será assim uma nação economicamente mais liberal e com o acento tónico mais colocado na iniciativa privada, esperando-se que isso ajude à desburocratização do país. Se isso é o suficiente para recolocar o país na rota do crescimento é o que os eleitores irão hoje avaliar.

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