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Bloco de Esquerda

O bando dos seis: quem é quem na nova direção do Bloco de Esquerda?

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Do grupo dos quatro para o dos seis. O BE entra numa nova fase: sem os seus quatro fundadores na direção, sem coordenador, e com uma direção coletiva chefiada por seis nomes. Quem é quem?

Nova coordenação é composta por seis elementos: Catarina Martins, Pedro Soares, Pedro Filipe Soares, Joana Motágua, Adelino Fortunato e Nuno Moniz

TIAGO PETINGA/LUSA

João Semedo saiu para dar provas de que não ia ficar tudo na mesma. Catarina Martins continuou como porta-voz, mas ao seu lado estão agora mais cinco pessoas, incluindo Pedro Filipe Soares, o desafiante, que se mantém como líder da bancada. Foi esta a solução encontrada pelos dirigentes do BE para ultrapassar o impasse em que o partido mergulhou na IX convenção da semana passada, que culminou com um empate técnico entre a lista de Catarina Martins e João Semedo, e a lista de Pedro Filipe Soares. E serão estas seis pessoas que daqui para a frente vão dirigir a Comissão Política do Bloco de Esquerda e tomar todas as decisões, em conjunto.

As funções que cada um dos elementos desempenhará no novo modelo de coordenação deverão ser definidas esta semana, quando a comissão permanente se começar a reunir. Eis os novos coordenadores do Bloco de Esquerda:

Catarina Martins

Apresentação pública da Moção Unitária em Construção do BE
Com a saída de João Semedo, que não vai integrar a Comissão Política, mantendo apenas o cargo de deputado e de dirigente eleito para a Mesa Nacional, Catarina Martins passa a ser o símbolo da continuidade. No final da reunião da Mesa Nacional, a agora porta-voz do partido (um partido que, em todo o caso, nunca reconheceu a figura do líder) disse que a solução encontrada era uma resposta ao “apelo de João Semedo na convenção para enterrar a disputa interna e construir um Bloco unido”.

Formada em Teatro, Catarina Martins tornou-se deputada pelo Bloco de Esquerda em 2009 e foi o nome escolhido em 2012, juntamente com João Semedo, para suceder a Francisco Louçã na coordenação do partido. Ao longo destes dois anos coordenou o BE ao lado de Semedo segurando a bandeira da paridade, sempre sublinhando o orgulho de o Bloco de Esquerda ser o primeiro partido português a instituir a paridade de género em todos os órgãos de direção. Um modelo que, de certa maneira, cai agora por terra. Passa agora a ser porta-voz do partido, um degrau relativamente à frente dos restantes cinco elementos da direção permanente, para fazer jus ao facto de o seu projeto político ter sido o mais votado na convenção.

Não tem origem política em nenhuma das três correntes fundadoras do Bloco de Esquerda (até porque ingressou já tardiamente no partido), mas é uma das promotoras da atual tendência Socialismo, que foi criada em 2013 para agregar várias sensibilidades – do PSR à Política XXI, passando pelos aderentes que não estavam previamente ligados a nenhuma corrente. Desta, só a UDP ficou de fora. Ideologicamente é mais próxima de Francisco Louçã e Fernando Rosas. E no trabalho de preparação das moções à convenção, Catarina Martins orgulhou-se de dizer que históricos da UDP, como Mário Tomé, Manuela Tavares e Pedro Soares, também se dispuseram ao seu lado.

Pedro Soares

pedro soares

À falta de João Semedo, e para cumprir a regra da paridade, Pedro Rodrigues Soares (não confundir com Pedro Filipe Soares) foi o nome masculino proposto pela moção U para integrar esta comissão de apoio à porta-voz.

Foi eleito deputado do Bloco de Esquerda em 2009, função que exerceu até 2012. Ideologicamente, esteve ao lado da UDP no processo de formação do Bloco, mas, a par de outros históricos desta corrente como Mário Tomé e Manuel Tavares, não subscreveu a tendência Esquerda Alternativa criada recentemente por Luís Fazenda e Pedro Filipe Soares e, para esta convenção, optou por ficar ao lado de Catarina Martins e João Semedo na elaboração da moção U.

É formado em Geografia e professor no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa. Um histórico dirigente bloquista que volta agora para a ribalta, fazendo par com Catarina Martins na representação daquela lista na comissão permanente.

Pedro Filipe Soares

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Foi o desafiador, na convenção do Bloco de Esquerda. Não saiu vencedor, mas também não se pode dizer que tenha sido derrotado. Com o empate que conseguiu na eleição da Mesa Nacional, impediu que a lista de Catarina e Semedo vencesse e que, assim, os dois continuassem como coordenadores do partido. O modelo de coordenação a dois, aliás, nunca foi bem acolhido pela ala da UDP (onde Pedro Filipe se encontra) que antes teria preferido uma solução com vários porta-vozes, semelhante àquela que agora foi aprovada. Ou seja, não tendo sido eleito coordenador, pode dizer-se que conseguiu levar avante o seu plano B.

Licenciado em Matemática Aplicada à Tecnologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, foi investigador na Universidade de Aveiro, sempre nas áreas da matemática e engenharia eletrónica, pelo que, em política, é destacado o seu pensamento lógico e calculado. É deputado na Assembleia da República desde 2009, líder da bancada parlamentar desde 2012 e, apesar do clima de divergências internas, vai continuar a ser o líder do grupo parlamentar neste novo ciclo bloquista. Mais uma vitória.

Juntamente com o histórico e fundador do BE Luís Fazenda, formou em 2013 uma tendência interna – a Esquerda Alternativa – para fazer frente à tendência Socialismo, criada pelos então coordenadores. Foi com base nessa tendência que construiu a moção E, com que desafiou os coordenadores na convenção de 22 de novembro. Ideologicamente, vem da ala fundadora da UDP, que, apesar de ser hoje uma associação política externa ao BE, é uma das alas de maior peso dentro do partido.

Joana Mortágua

joana mortagua

É precisamente a presidente da UDP (associação política), o que faz com que, assumidamente ou não, esta corrente possa vir a ganhar mais peso dentro da direção bloquista. Joana assinou a tendência Esquerda Alternativa quando Fazenda e Filipe Soares a criaram, colocando-a na ala oposta à da sua irmã, a deputada Mariana Mortágua.

Tem sido dirigente e membro da Comissão Política do BE, e nas eleições legislativas de 2009 chegou a ser cabeça de lista do BE no círculo de Évora. Mas nunca teve papéis de relevo mediático no partido. O facto de ser presidente da direção nacional da UDP desde 2010 e de agora estar num cargo de topo da direção do partido faz com que esta corrente exerça cada vez mais influência no seio do Bloco. Em termos de formação ideológica, diz-se profundamente marxista. Joana Mortágua é um rosto importante do partido que tem estado nos bastidores. Até agora.

Adelino Fortunato

adelino fortunato BE

Economista de profissão, é atualmente professor de Economia da Universidade de Coimbra e um dos primeiros subscritores da moção B (‘Refundar o Bloco na lutacontra a austeridade’), que conseguiu eleger sete dirigentes na última convenção. Tem sido a tradicional oposição à direção, servindo por vezes de refúgio para alguns descontentes (Daniel Oliveira chegou a alinhar pela moção B). Na última convenção, em 2012, elegeu 19 membros para a Mesa Nacional.

Candidato do Bloco de Esquerda à presidência da Câmara Municipal de Sesimbra nas autárquicas do ano passado, a moção B (assim como a R) acabam por ser favorecidas neste modelo de coordenação conjunta uma vez que é a única forma de ganharem assento.

Não está ligado a nenhuma corrente fundadora do partido – PSR, Política XXI ou UDP – mas tem tido um percurso político sempre ligado à esquerda. É o dirigente efetivo designado pela lista B para a comissão permanente, mas em função do seu trabalho na Universidade poderá ser substituído em determinadas ocasiões pelo suplente, o historiador João Madeira, que tem sido o principal rosto da moção B nos últimos anos.

Nuno Moniz

Nuno Moniz BE

Natural dos Açores, é o rosto mais jovem do grupo e talvez o menos conhecido dos eleitores. Número dois da lista R (‘Reinventar o Bloco’) à Mesa Nacional, apareceu agora como o número um dessa lista para integrar a coordenação da Comissão Política do partido. Doutorando em Ciências da Computação na Universidade do Porto, é mestre em Engenharia Informática e tem sido sobretudo entre os jovens e no ativismo universitário, especificamente no norte do país, que tem feito ouvir a sua voz.

Não tem origem política em nenhuma das correntes fundadoras do Bloco de Esquerda e não faz parte de nenhuma das duas tendências que se criaram dentro do Bloco, nem da Socialismo (onde está Catarina Martins), nem da Esquerda Alternativa. Nuno Moniz deverá ser o membro da direção que fará a ponte com os eleitores mais jovens do BE, uma fatia da população que sempre foi importante para a estatística do Bloco.

Bloco ingovernável?

Como vai esta direção de tantas vozes pôr em prática o projeto político desenhado pela moção U (encabeçada por Catarina Martins e João Semedo), que foi o projeto mais votado na convenção, é a pergunta para um milhão de euros. Mas a direção bloquista relativiza essa questão. “Só seria fácil dirigir um partido com opiniões diferentes se houvesse uma pessoa a mandar em tudo”, afirma um dirigente ao Observador, realçando o facto de o BE não ser um partido “igual aos outros”, que “afunila no topo”.

“Isto não é o PS”, realça outro dirigente, para quem as várias sensibilidades existentes dentro do partido não traduzem “diferenças de fundo nem impossibilitam a colaboração” entre todos na condução diária do Bloco.”Temos opiniões diferentes, claro, mas isso é bom porque significa que vamos ter um grande debate”, diz um dirigente, desvalorizando as dificuldades de entendimento que se avistam no horizonte. A frase dita por Catarina Martins é agora repetida por todos: “A diversidade no Bloco não é defeito, é feitio”.

A proposta de dar posse a uma comissão permanente com representantes das várias listas eleitas foi avançada pela própria Catarina Martins e não esbarrou com qualquer oposição por parte dos dirigentes eleitos pela lista de Pedro Filipe Soares, sendo que só os membros das listas B e R, minoritárias, levantaram dúvidas e propuseram “pequenas” alterações. A proposta acabou por ter uma aprovação de 93% dos 79 dirigentes da Mesa, sem votos contra e com poucas abstenções.

Se antes o Bloco de Esquerda era uma espécie de “bando dos quatro“, numa referência aos fundadores Francisco Louçã, Luís Fazenda, Fernando Rosas e Miguel Portas, a verdade é que esses tempos já lá vão. “Hoje em dia, a grande maioria dos aderentes já não tem origem em nenhuma das quatro correntes fundadoras”, explica ao Observador um dos membros da direção. Razão pela qual o novo modelo de coordenação foi pensado para ir ao encontro dessa “nova realidade”. Em vez de quatro, agora são seis, em representação de três visões diferentes para o rumo do Bloco de Esquerda.

*artigo atualizado com a formação académica de Nuno Moniz.

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