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Carlo Petrini: “Os portugueses precisam de ter mais orgulho na sua identidade gastronómica”

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Carlo Petrini, jornalista italiano, é o fundador do movimento internacional slow food. Esteve na Maia, no congresso dedicado ao futuro da alimentação e da agricultura, e o Observador conversou com ele

Carlo Petrini tem 67 anos, 30 deles ao serviço do movimento "slow food".

LaPresse

Autor
  • Rita Neves Costa

Em 1986, Carlo Petrini estava entre um grupo de ativistas que protestou contra a construção de uma cadeia de fast food numa praça de Roma. Este foi o ponto de partida do movimento slow food, que promove a gastronomia tradicional e regional em oposição à produção massiva de alimentos, numa tentativa de tornar o paladar mais diverso e rico para a saúde e sem prejudicar o meio ambiente. O jornalista italiano esteve em Portugal, no congresso “The Food Futures”, organizado pela Associação da Slow Food Porto.

Aos 67 anos de idade, Petrini leva três décadas de dedicação à “lentidão” da comida, que não é mais do que a capacidade de cada pessoa “poder governar o seu tempo”. E não propriamente o número de horas que se demora a confecionar ou usufruir de uma refeição, como muitos poderiam imaginar.

A propagação do direito de abrandar e de resistir à tirana do tempo, seja na produção de alimentos ou no estabelecimento de preços justos para produtores e consumidores, já valeu a Carlo Petrini alguns reconhecimentos a nível mundial. Foi distinguido em 2013 pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o prémio “Campeões da Terra” e ainda antes, em 2004, a revista Time já o tinha colocado na lista dos “heróis” do ano.

Alguns já lhe chamaram “Don Juan do mundo da comida”, mas o jornalista tem noção do que o slow food há muito que ultrapassou a sua figura. O movimento está presente em mais de 160 países e supera os 80 mil associados.

Em cada um dos pontos do globo, os princípios do “bom, limpo e justo” ultrapassam fronteiras e fazem antever que a comida ainda é e necessita de ser tratada de forma diferente em cada local. “Terra Madre”, um dos projetos dentro do movimento slow food, junta todos os anos comunidades locais de todo o mundo, para debater as questões mais importantes da alimentação.

Como tem sido a evolução do conceito e do movimento do slow food?
É um percurso com 30 anos que se desenvolveu ao longo do tempo com um sentido muito forte na cultura ambiental. No início, a ideia gastronómica pensava apenas no conceito de comida boa. Porém, à medida que o movimento cresceu, não se podia falar em comida boa, se aconteciam desastres ambientais, como o desperdício da diversidade, a produção massiva e a monocultura. A situação social dos produtores, dos camponeses e dos “artesãos” de comida tornou-se um desastre nos últimos 50 anos. A comida perdeu valor: só é bom o que é barato. É uma questão dramática para a Europa e para o património alimentar. O slow food sintetiza os princípios do “bom, limpo e justo”. O conceito cresceu lentamente e foi entendido como gourmet. Mas não. Ele é dirigido para os cidadãos e para todos os países, os que têm segurança alimentar e aqueles onde há fome.

Como é que o movimento se pode consolidar em vários países?
A ideia consolidou-se em projetos como o Terra Madre, onde milhões de comunidades, de cerca de 200 países, adaptaram o conceito de slow food à sua realidade. Estou totalmente consciente de que a organização de slow food nos Estados Unidos é completamente diferente da organização da Etiópia. A situação histórica, social e alimentar é muito diferente, mas os princípios “bom, limpo e justo” servem para todos. Cada país tem os seus animais, as suas plantas e o seu ambiente e deve evoluir através deles.

O slow food começou num ato de contestação contra a construção de um estabelecimento de fast food numa praça em Itália. Quando é que percebeu que o movimento se iria tornar maior do que este acontecimento?
O movimento mudou muito com o Terra Madre. Não existe hierarquia gastronómica. No mundo da gastronomia, a França e a Itália não ocupam os primeiros lugares. Um país pobre como o Burkina Faso tem a mesma dignidade com a sua gastronomia. O direito a comida boa não é só um direito de quem tem dinheiro e a luta contra a fome é uma questão de dignidade. A partir do momento em que o slow food começou a dirigir-se não apenas aos países que têm segurança alimentar, mas a concentrar-se também em países onde há fome, guerra e destruição, eu senti que o movimento era muito mais forte do que aquela contestação de 1986.

Muitas pessoas não saberão o que significa slow food. O que é que movimento pode fazer por elas?
Esse é o problema de um movimento que não tem quaisquer recursos e não tem oportunidades comunicativas. A nossa comunicação tem sido lenta e passo a passo. No entanto, percebemos que quando a mensagem do slow food chega até às pessoas é muito eficaz. Há outros que têm a comunicação mediática e a publicidade e até podem fazer uma boa comunicação, mas em eficácia é quase como atirar uma pedra a alguém. Eu penso que a boa prática e as mensagens de alerta são fundamentalmente através da educação alimentar e do bom conhecimento entre os produtores e consumidores. Em Portugal, o convívio no Porto deu para trocar conhecimentos entre várias regiões do país: do Algarve, do Alentejo e do Alto Minho. A ideia agroecológica, que é a do slow food, necessita de mais tempo e não pode ser lançada apenas através da publicidade.

Todos os países merecem o slow food, mas o movimento pode ser difícil de implementar mais nuns do que noutros? Em Itália será totalmente diferente do que na Venezuela, por exemplo.
Cada país tem a sua própria História e tem a sua própria realidade ambiental. A ideia do “bom, limpo e justo” é como um casaco, que se veste de maneira diferente em cada pessoa e em cada corpo. Numa situação de soberania alimentar, onde não existe o problema da fome, muitas vezes o problema não é a questão do bom e do justo, mas é o meio ambiente que importa. Não podemos destruir o meio ambiente, porque estaríamos a contribuir para a injustiça inter-geracional. Se eu destruo o meio ambiente neste momento, para os meus filhos e os meus netos será uma injustiça. Este é o maior problema nos países onde há segurança alimentar. Já na Venezuela, há um conflito social de proporções incríveis, onde existe incapacidade política de resolver os problemas da desproporção de comida. Lá, a justiça é muito mais importante e necessária do que o ambiente. Cada realidade tem dinâmicas completamente dispersas, mas é assim a diversidade cultural. A força do movimento slow food é a de que a ideia tem de se adaptar à situação.

Existe a ideia de que consumir fast food é mais fácil e barato do que consumir comida biológica. O movimento slow food tem a responsabilidade de desmitificar esta suposição?
É uma realidade que necessita de muita clareza. Aparentemente, a comida fast food é menos cara. Mas se consumirmos esta comida, regista-se uma externalidade negativa, ou seja, os custos que não se pagam diretamente – neste caso, são direcionados para a Medicina. Outro exemplo é: se a comida fast food destrói o meio ambiente, o preço vai ser pago. E quem paga? Pagamos todos nós. O preço parece ser bom e barato, mas se considerarmos todas as outras situações, o valor é muito mais elevado. Há muitas pessoas que dizem: “Ele gosta de comida biológica porque tem dinheiro” e “é um movimento elitista”. Eu rejeito essas ideias, porque aquilo que os dois tipos de comida provocam nas pessoas e na sociedade é completamente diferente. Em 1980, antes do movimento slow food, 30 por cento do meu salário era para comida. Hoje, a percentagem é de 12 por cento. A comida mais barata é a antecâmara para a destruição da saúde e do meio ambiente.

Não é possível as cadeias de fast food conviverem com a comida biológica?
Depende. Muitos pensam que slow food é comer lentamente. Há muitas pessoas que me dizem: “Carlo, quando comes demoras três ou quatro horas”. Eu conheço muitas realidades de comida de rua e de comida rápida, que têm matéria-prima excelente. Não se trata só de diferentes tipos de comidas, o importante é a qualidade alimentar. Slow food não é lentidão. Slow food é o direito de eu governar o meu tempo. Hoje quero ser mais veloz, assim serei. Amanhã quero estar mais tranquilo, estarei mais tranquilo. Sou eu que vou decidir, não são os outros. Esta é a verdadeira revolução. É como diz o Papa Francisco: “Há mais tempo do que espaço”. Se vamos governar o nosso tempo, vamos compreender que algumas situações merecem lentidão, e outras situações merecem mais vitalidade.

Qual é a opinião do Carlo relativamente à comida portuguesa?
A comida portuguesa sempre me encantou, especialmente a matéria-prima. Estou convencido de que existem em Portugal alguns dos melhores queijos do mundo. Há também uma grande cultura do campo. Alguns dos melhores pratos de bacalhau estão aqui, muito embora não seja um produto nacional. Acho que esta capacidade extraordinária do povo português em viajar pelo mundo resultou na sua própria identidade cultural e antropológica. Em muitas partes da América Latina, no Brasil principalmente, a cultura autóctone dos índios encontrou-se com a cultura portuguesa, o que resultou numa miscigenação muito importante. O património agroalimentar deste país merece mais consideração, sobretudo dos portugueses; precisa que os portugueses tenham mais orgulho na sua identidade gastronómica. Sem problema de preço: para que entendam que a comida fast food não é barata, é afinal muito cara e de que é necessário um preço justo para os camponeses e os produtores. Fico muito contente por ver que há um renascimento do slow food em Portugal.

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