Exército

Crise no Exército. General insinua: “Sabujo para cima e cão para baixo”

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O general Calçada disse, na apresentação de um livro, onde estava implícito o CEME, que agora era comum ser-se "sabujo para cima e um cão para baixo”. General diz que foi mal interpretado.

Os três generais foram colegas de curso. O CEME, Rovisco Duarte, e os dois tenentes-generais que se demitiram, Faria Menezes e José Calçada

Conhecem-se desde a Academia Militar, há mais de 40 anos. Passaram juntos parte das experiências mais marcantes da juventude. São três homens do mesmo curso que hoje estão desavindos e a provocar turbulência nas fileiras: Rovisco Duarte chegou a general, a chefe do Estado-Maior do Exército (CEME); Faria Menezes era o Comandante das Forças Terrestres e Antunes Calçada era o Comandante de Pessoal. Os dois últimos pediram a passagem à reserva por entenderem que tinha havido “uma quebra do vínculo sagrado entre comandantes e subordinados”, como escreveu Faria Menezes no Facebook. E criaram um hiato na cadeia de comando do Exército.

Um deles foi mais longe nas palavras. Antes de tornar público que ia pedir a sua demissão do Comando de Pessoal, Antunes Calçada fez declarações públicas, na sexta-feira, onde deu a entender, no contexto político daquele dia, que o seu camarada de armas Rovisco Duarte era um “sabujo” para cima e um “cão para baixo”. O general diz ao Observador que as suas palavras não devem ser interpretadas assim e que estava apenas a referir-se ao livro que estava a apresentar naquela tarde.

As declarações do tenente-general (que podem ser vistas no vídeo acima e aqui no youtube, na íntegra) aconteceram um dia depois da ida do CEME ao Parlamento e enquanto o ministro da Defesa ainda era ouvido na Comissão Parlamentar de Defesa. E ocorreram poucas horas depois de o próprio Antunes Calçada ter participado num Conselho Superior do Exército muito tenso, em que o general manifestou a sua discordância perante o CEME. Na apresentação do livro do tenente-coronel na reforma Pedro Tinoco Faria — mentor do protesto de oficiais com deposição das espadas, em Belém, que acabou por ser cancelado –, o tenente-general Calçada disse, sem referir nomes, que o autor do livro era um militar que protegia os seus subordinados. Mas na verdade, o que se deduz das suas palavras é que estava também a falar do CEME, Rovisco Duarte. Quando se refere a “outras” organizações está subentendido o Exército:

[Pedro Tinoco Faria] não é um subordinado fácil. É o tipo de soldado – e isso foi a sorte que ele teve – de que eu gosto muito. É daqueles que questionam permanentemente o seu comandante e, quando é preciso (e é preciso muitas vezes), protegem os seus subordinados. Em vez de ser ao contrário, como hoje parece ser muito comum em várias organizações (e noutras onde eu nunca suspeitei que isso pudesse acontecer), onde se é sabujo para cima e um cão para baixo”.

A apresentação do livro “O Beijo da Quissonde” — uma ficção autobiográfica de Tinoco Faria sobre a guerra –, tornar-se-ia num momento com significado político que não tinha à partida: já se sabia que o autor era um crítico das demissões dos comandantes das unidades de Tancos e que apelara a um tipo de manifestação vedada constitucionalmente aos militares, mas isso ganhava outros contornos quando um general no ativo apresentava um livro de um antigo oficial que apelava à insubordinação. O lançamento estava previsto para a Academia Militar, mas o CEME proibiu o evento, que seria agendado para sexta-feira na Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Antunes Calçada já tinha aceitado o convite para a apresentação há meses, porque foi superior hierárquico de Tinoco Faria, e não na sequência destas polémicas.

No dia anterior, Rovisco Duarte tinha dito no Parlamento, à porta fechada, que se sentia “humilhado” com o roubo de armamento em Tancos. E que tinha registado “erros estruturais inadmissíveis, que só poderiam ser assacados ao comando”. E assim justificava a exoneração dos cinco comandantes das unidades com responsabilidade pela segurança dos paióis de Tancos. Rovisco Duarte deu cobertura ao ministro. E, no dia seguinte, o ministro havia de dar cobertura ao CEME.

As palavras do tenente-general Antunes Calçada, vestido à civil, foram duras e, no contexto daqueles dias, foram interpretadas como estando a dirigir-se de forma implícita a Rovisco Duarte, embora ele negue essa intenção em declarações ao Observador. A leitura daquelas frases por quem as ouviu foi esta: o CEME seria “sabujo” para cima para proteger o ministro Azeredo Lopes e “cão para baixo” ao demitir os cinco comandantes das unidades que tinham a responsabilidade pela segurança de Tancos. Mas o general diz ao Observador que estava apenas a falar do livro, “na sequência das operações em que o autor esteve presente, porque ele de alguma forma diz isso em relação a um comandante”.

Juro que quando me estou a referir a organizações insuspeitas, estava a referir-me à operação na Bósnia onde ele [Tinoco Faria] teve um comandante deste género”, justifica o general ao Observador.

Antunes Calçada diz que separa o homem e a amizade que o liga a Rovisco Duarte da figura do comandante do Exército, com o qual discorda. “Somos do mesmo curso, entrámos no mesmo dia, eu era o 83 e ele o 89”, conta ao Observador. “Como comandante do Exército discordei dele uma série de vezes, mas frontalmente”. A última delas tinha sido naquela tarde, no Conselho Superior do Exército, em que lhe dissera: “Agora com isto não dá mais para continuarmos, não é bom para ti nem para mim”. O Comandante de Pessoal, que nomeou os cinco coronéis exonerados, sentira-se ultrapassado por nem sequer ter sido informado da punição a que iam ser sujeitos os comandantes das unidades.

“Demitir cinco pessoas sem culpa formada faz-se no fim de um processo disciplinar. Não se anuncia assim na praça pública”, explica o general, dando voz às críticas de que Rovisco Duarte tem sido alvo.

Chefe do Exército sobre Tancos: “Houve ali desleixo”

“Não sei formar parada com o passo trocado”, escreveu Faria Menezes

No sábado, era a vez de António Faria Menezes ser duro para com o seu antigo colega de curso, ao anunciar também a sua demissão. “O vínculo sagrado da confiança entre comandante e soldados nunca pode ser quebrado”, escreveu na sua conta de Facebook. “Não sei formar na parada nem marchar com o passo trocado, violando valores e princípios partilhados com excecionais oficiais, distintos sargentos, exemplares praças e dedicados civis que servem Portugal e os portugueses todos os dias e em todas as circunstâncias.” Ou seja, este general também dá a entender que oficiais, sargentos e praças marcham ao mesmo ritmo e que quem está com o passo trocado é o CEME.

As demissões dos dois comandantes representam o mal-estar que atravessa neste momento o Exército, “dos generais à soldadesca”, diz ao Observador um oficial superior na reserva, mas que tem acompanhado de perto todo este processo. “Esta é a maior crise por que passou o Exército e não é só dos últimos 15 anos”, diz o mesmo militar. “Dentro da instituição, nunca vi tanta gente preocupada com o comando”. Ao contrário de Carlos Jerónimo, o seu antecessor, Rovisco Duarte é descrito ao Observador como um comandante distante, por ser difícil interagir com ele. “Não dá uma palmada nas costas a dizer ‘estiveste bem’ ou ‘estiveste mal’”.

Um general na reforma, que prefere não ser identificado, afirma com ironia concordar com Rovisco Duarte, quando este disse na comissão parlamentar que se sentia humilhado: “É uma humilhação. Mas refiro-me a tudo. E é uma grande perplexidade.” Não só o assalto de Tancos, mas tudo o que se seguiu, explica o mesmo general, corroborando a ideia de que existe um corte na cadeia de comando e na hierarquia do Exército. Saíram dois tenentes-generais e ficou apenas um, o comandante da Logística. Não há memória de haver demissões dos generais que constituem a segunda linha de comando do Exército, retirando autoridade ao CEME. Na prática, isto tem consequência na instituição militar: o que os generais estão a dizer a toda a cadeia hierárquica é que o comandante não merece a confiança dos subordinados e, no fundo, é isso que resumem, em termos mais agressivos, as palavras de Antunes Calçada. No entanto, Calçada diz ao Observador que “o CEME tem o direito de escolher a sua equipa e ele herdou a equipa de Carlos Jerónimo”, o CEME anterior.

A instabilidade na instituição é tal que o Presidente da República convocou as chefias militares para um jantar na segunda-feira à noite com o objetivo de acalmar os ânimos, antecedendo o encontro que o primeiro-ministro terá esta terça-feira com as mesmas altas patentes e com o ministro da Defesa. O Presidente da República exonerou, esta terça-feira, o tenente-general José Calçada das funções de secretário do Conselho Superior de Defesa Nacional (CSDN).

Tancos. Dois tenentes-generais demitem-se por divergências com Chefe de Estado-Maior do Exército

No meio militar, correm duas versões diferentes sobre as motivações das demissões. Uma, mais alinhada com as posições de Faria Menezes e Antunes Calçada, alega que o CEME e o ministro se estão a proteger um ao outro no caso do assalto a Tancos, à custa de fazerem rolar as cabeças dos comandantes. “Se o CEME cai, também cai o ministro. Se o ministro cai, o CEME cai também”, diz ao Observador uma fonte militar. A outra tese tem a ver com quem deveria substituir Rodrigues da Costa como vice-CEME. Na calha estariam Faria Menezes e Antunes Calçada, mas também o comandante de logística, o tenente-general Campos Serafino, mais novo, de um curso anterior. São várias as fontes da Defesa a convergir na versão de que esta rivalidade dos velhos camaradas da Academia já tinha começado com a escolha de Rovisco Duarte para CEME, em detrimento dos dois tenentes-generais agora demissionários.

No entanto, José Calçada nega ao Observador que alguma vez quisesse ser vice-CEME. E explica que o facto de haver uma notícia do Expresso a dar nota dessa alegada vontade — que ofendia a sua honra — é que o fez antecipar o pedido de passagem à reserva do dia 20 de julho para esta semana.

Quem entra nesta equação agora é Fernando Campos Serafino, que tinha sido diretor-geral de Armamento (DGA) de Paulo Portas, e cuja nomeação chegou a originar, em 2003, a demissão do general Silva Viegas como CEME, no próprio Dia do Exército, dizendo que tinha perdido a confiança política no ministro da Defesa. Uma das razões era a promoção do então tenente-coronel Campos Serafino a coronel, para exercer as funções de DGA, que eram habitualmente desempenhadas por um oficial-general. O ministro terá pressionado o CEME a apressar a promoção, mas haveria obstáculos que teriam a ver com a ultrapassagem de oficiais com mais antiguidade. Agora, o Governo terá de desbloquear as promoções no Exército para serem promovidos tenentes-generais.

Tancos. As explicações do ministro da Defesa em 6 pontos

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