PSD

Análise. Se perder as legislativas, Rio não ajudará governação PS

Rio defende que o PSD deve viabilizar Governo do PS após as eleições. Mas se perder as legislativas terá diretas no partido poucos meses depois, mesmo que não se demita. Por Vìtor Matos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

António Costa podia ter aberto a garrafa de champanhe na noite deste sábado. Podia abri-la também se Pedro Santana Lopes tivesse ganho, mas por razões diferentes. Para já, parece que 42.254 militantes do PSD foram às mesas de voto escolher o líder que vai perder para António Costa em 2019. É claro que a história muda e por vezes muda depressa demais para quem está no lugar certo à hora certa, mas nenhum dos candidatos à liderança do PSD deu garantias na campanha interna de ser visto pelos portugueses como um challenger para bater o atual primeiro-ministro. Todas as sondagens o mostraram. E mais ainda o facto de a viabilização de um Governo do PS ser o tema central da campanha: a derrota provável do PSD era admitida pelos candidatos, sobretudo por Rui Rio.

Quase 4 mil votos de diferença

Inscritos: 70 6892

Votantes: 42 254.

Rui Rio venceu as eleições no PSD com 54,37%, correspondentes a 22.611 votos.

Santana Lopes teve 45,63% dos votos, o que corresponde a 18.974 boletins em seu nome.

Não parece que venha aí um líder galvanizador (nenhum deles o seria). Nem para fora do PSD nem para dentro do PSD. Os próximos meses serão reveladores. Mais depressa do que as propostas de fundo, vamos conhecer “quem” é o novo líder da oposição: no estilo de liderança para o partido, no estilo de oposição para o país, no posicionamento político esquerda/direita, na relação com a comunicação social, na reação às pequenas e grandes indignações da política quotidiana.

A estratégia de viabilizar o PS: a tese implica a sua antítese

A intenção de Rui Rio até parece fazer sentido, como disse no debate das rádios TSF e Antena1: “O que prefiro retirar é o PCP e o Bloco de Esquerda da esfera do poder”. O novo líder do PSD acha que ao disponibilizar-se para viabilizar um Governo socialista — no caso muito provável de os sociais-democratas perderem as eleições — retira António Costa da influência negocial da esquerda. Rio pensa que o país ganha com isso. Mas para que essa ideia acontecesse era preciso o PS querer negociar. O mais provável é o PSD ficar pendurado à espera que a dama lhe conceda a dança.

Neste cenário, António Costa passa a ter o jogo aberto. Com um governo viabilizado à partida, teria depois de aprovar os orçamentos. Com Rio disponível para lhe dar o braço, o PS teria à esquerda o Bloco para negociar orçamentos na continuidade dos quatro anos anteriores. Com uma dupla vantagem: com o excesso de oferta, o preço da esquerda seria muito mais acessível. E a esquerda não se importaria de fazer um desconto para manter o PS sob influência. Não há pior do que uma noiva deixada no altar ou um par de dança rejeitado. Se Rio se mostrar tão fácil como anunciou, corre o risco de ser posto de lado na primeira oportunidade e aparecer humilhado aos olhos do partido e da opinião pública.

Outra razão para esta estratégia não fazer qualquer sentido tem a ver com a vida interna do PSD. Se perder as legislativas, não terá grandes oportunidades para influenciar o PS, porque simplesmente não estará lá. O partido tratará de o substituir de imediato. Com a entronização de Rio no congresso de fevereiro de 2018, as próximas eleições diretas e o congresso ordinário do partido serão em fevereiro de 2020, ou seja, poucos meses depois das legislativas. Se for derrotado nas eleições, para se manter na liderança teria de vencer os quadros mais jovens do partido, como Paulo Rangel, Luís Montenegro, Pedro Duarte ou José Eduardo Martins. É claro que António Costa chegou a primeiro-ministro com uma derrota eleitoral. Podem acontecer coisas estranhas em Portugal, mas a possibilidade de se repetir o mesmo à direita (o PSD perder para o PS, mas fazer maioria com o CDS) é relativamente improvável.

A esquerda da direita e o risco de Assunção Cristas

A vida de Rui Rio dentro do partido corre o risco de não ser fácil. Uma boa parte do aparelho e do grupo parlamentar estava com Santana Lopes. E muita gente não terá gostado da frase: “Se eu ganhar vamos mesmo estar muito mal. Deixe-me ganhar que vai ver como as coisas são”. O PSD não costuma facilitar a vida a líderes quando está na oposição. E com a facilidade com que arranja conflitos — basta ver como foi no tempo em que esteve como secretário-geral de Marcelo — a frente interna pode tornar-se desgastante.

O posicionamento do partido será fundamental. Apesar de ter aparecido como crítico de Passos Coelho, Rui Rio defende políticas financeiras mais passistas do que Passos, como o “défice zero” ou o “superávite”, coisas que o futuro ex-líder do PSD nem se atrevia a enunciar. Já se viu que dificilmente o partido fará uma reflexão sobre a atuação do Governo durante os anos da troika, porque também não a fez durante a campanha eleitoral. Rio arrancou com um mantra e vários motes, que não se perceberam.

Primeiro, o mantra de ter um PSD mais à esquerda, porque o partido não é de direita. Basta conhecer as bases do PSD, ou os militantes tradicionais do partido, para se saber que são mais conservadores e de direita que os militantes do PS. Rui Rio nunca explicou o que é ter um PSD mais à esquerda, desencostado da direita onde Passos o colocou. Se for pelas contas públicas não vale, porque a defesa do “superávite” não faz do PSD mais social-democrata. Talvez seja então a reforma profunda do Estado que aproximará os sociais-democratas da verdadeira social-democracia. Mas se é para ter “défice zero”, não se entende como é que o Estado pode ser mais e não menos.

Outro aspeto é que Rio parece ter perdido a noção da concorrência que o CDS hoje representa. Se houver uma aproximação ao PS, conjugada com um deslizamento para a esquerda e com as posições mais liberais do líder em matérias fraturantes e de costumes, está aberta a possibilidade de fuga de votos para a direita. Assunção Cristas pode não ter um resultado nem um crescimento como nas autárquicas em Lisboa, mas tem argumentos para crescer. Sobretudo este: havia muita gente que odiava Paulo Portas — sobretudo no eleitorado do PSD — e que jamais votaria num CDS liderado por ele. Cristas não transporta esse odioso para os eleitores conservadores habituados a votar laranja. A líder do CDS pode intuir aqui uma oportunidade e aproveitá-la.

Depois, temos a questão da revolução. Rui Rio anunciou várias vezes um 25 de abril civil. Ora um 25 de abril só pode ser considerado uma revolução, uma mudança de regime. E o homem acabou de ganhar um partido que sempre se classificou como reformista, por oposição aos revolucionários e aos situacionistas. É um melão por abrir. Sabemos que Rio critica o regime, mas não sabemos que regime quer, a não ser umas propostas ingénuas, apatetadas e populistas, como a das cadeiras vazias no Parlamento correspondentes aos votos brancos. De qualquer forma, nada Rio poderá fazer sem o PS, porque sem dois terços para mudar a Constituição, só mesmo com os militares é que se pode mudar o regime.

Adiante. Mais dois temas sensíveis a que nunca deu resposta: que reforma da justiça quer? E que medidas defende para a Comunicação Social, com quem teve sempre uma péssima relação?

Santana derrotado pelo “clube maravilha”. Apoios não funcionaram

Perdeu para o clube maravilha: Rui Rio, Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira. Os dirigentes que comandam as hostes votantes e muitos militantes do PSD não devem ter gostado do vídeo a dizer que nunca poderia voltar a concorrer a primeiro-ministro, ou que queria fundar um novo partido. O certo é que Pedro Santana Lopes teve muito menos votos do que estava à espera. De que estava à espera? Depois de 2005, era preciso procurar muito bem para encontrar alguém no partido — sobretudo se tivesse passado pelo Governo — que defendesse a atuação de Santana como primeiro-ministro. Muita gente não se esqueceu.

Era favorito no distrito de Braga e perdeu. Nunca um líder do PSD foi eleito sem ganhar no Minho. Perdeu em Aveiro, a quarta maior distrital, onde esperava vencer. Foi esmagado no Porto, onde achava que os danos iam ser mais contidos. E ganhou em Lisboa, sem que o resultado lhe chegasse para recuperar. Houve grandes concelhias onde era para ter ganho, como Vila Verde ou Santa Maria da Feira, daí o desabafo no discurso final sobre ir estudar Ciência Política para perceber certos fenómenos. E ainda Barcelos ou Guimarães, tudo grandes concelhias do distrito de Braga. Será que Santana não se lembra que ganhou Gaia nas diretas de 2008, quando Luís Filipe Menezes e Marco António Costa apoiavam Pedro Passos Coelho? Sem Passos saber, Menezes tinha metido o maior cacique de Gaia como mandatário de Santana. Não se pode confiar em todos os apoios anunciados ao vento. Estes ventos podem mudar de repente.

Quando Santana, desta vez, diz que vai andar “por aqui, é de crer que pode não abandonar o palco. Será desta vez que sai o tal movimento? Tudo é possível. Caso se tratasse de outro político, poderia dizer-se com um bom grau de segurança que depois disto ele não regressava, mas desse ponto de vista Santana é imprevisível. Esta foi a última oportunidade dele. Até aparecer outra.

Abstenção. 28,4 mil militantes pagaram quotas para não votar? Não faz sentido

O nível de abstenção em torno dos 40% nesta eleição do PSD é, mais uma vez, a prova de que as quotas dos militantes são pagas em massa e por atacado. Muitos só votam se forem mobilizados diretamente pelos caciques locais para votar, transportados em carrinhas, autocarros ou depois de muita insistência. A 15 de dezembro, no último dia para pagar quotas, entraram cerca de 20 mil militantes no ficheiro, que se somaram aos 50 mil que já tinham a sua situação regularizada para poderem exercer o voto.

Os 40% de abstenção significam que 28,4 mil inscritos dos 70,6 mil com quotas pagas não foram votar.

Ou seja, quase 30 mil pessoas foram teoricamente proativas para pagar as quotas de 12 euros anuais — por multibanco, transferência bancária ou vale postal –mas depois decidiram não ser proativas no voto. Ora isto não faz qualquer sentido. Um militante que faz questão de pagar as suas quotas, é porque está interessado em votar. A não ser que não seja um verdadeiro militante, mas um mero inscrito.

Esta eleição no PSD manteve os altos níveis de abstenção habituais nas eleições internas do partido: Cerca de 40% dos militantes com quotas pagas não foram votar. Nas diretas de 2007 e de 2010, a abstenção em termos percentuais foi mais baixa. Fica também em terceiro lugar quanto à mobilização absoluta de militantes.

Nesta disputa entre Rui Rio e Pedro Santana Lopes votaram 42.254 militantes do PSD — segundo os dados provisórios anunciados pela sede — o que representa uma participação de 59,7% dos sociais-democratas que tinham as quotas em dia. O universo total de de militantes inscritos foi de 70.692 militantes, que também é a terceira mais participada das quatro eleições internas disputadas. Isto significa que a disputa de 2008 entre Ferreira Leite, Passos e Santana, assim como a luta de 2010 entre Passos, Rangel e Aguiar-Branco, mobilizaram mais inscritos e mais votantes.

No que se refere às quatro eleições diretas disputadas no PSD, esta eleição só mobilizou mais votantes e inscritos do que a eleição de 2007, entre Marques Mendes e Luís Filipe Menezes. Não é verdade que o partido estivesse muito entusiasmado com o ticket de adversário Rio/Santana.

  • Em 2007, no primeiro ano em que houve diretas no PSD e em que Luís Filipe Menezes venceu Luís Marques Mendes, estavam inscritos 63 mil militantes (dos quais apenas votaram 39 mil). A abstenção foi de 38%.
  • Em 2008, nas internas ganhas por Manuela Ferreira Leite contra Passos Coelho e Santana Lopes, o número de militantes atingiu os 77 mil (votaram só 45 mil). A abstenção foi de 41%.
  • Em 2010, quando Pedro Passos Coelho conquistou a liderança do partido e derrotou Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-Branco, o universo eleitoral foi de 78 mil filiados (mas votaram apenas 51 mil). A abstenção foi de 34%.
    Quando Passos concorreu sozinho em 2010, a abstenção foi de 60%, e em 2014 foi de 58%.
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