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As ideias de Bill Gates. E o que ele fez com elas até se tornar multimilionário

19 Janeiro 2016

O fundador da Microsoft foi um inovador no mundo dos negócios e agora faz o mesmo no mundo da filantropia. Um livro tenta perceber o essencial do pensamento estratégico de Gates. Pré-publicação.

‘Pensar como Bill Gates’ pretende olhar para aspetos fundamentais do seu caráter e da sua ideologia, para além de considerar algumas das suas maiores influências nas diversas fases da sua vida. Este excerto é uma pré-publicação exclusiva a partir do novo livro da Vogais.

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Encontre a sua verdadeira vocação

Em 1986, um artigo no Wall Street Journal pintava uma imagem da vida de Bill Gates enquanto estudante de Harvard em termos que se podiam aplicar a milhões de outros alunos introspetivos que se deparavam com a chegada iminente da idade adulta. Gates descreve-se a si mesmo «sentado no meu quarto, um tipo filosoficamente deprimido, a tentar perceber o que ia fazer com a minha vida».

Trata-se, sem dúvida, de um retrato correto, na medida em que o caminho exato da sua vida ainda não fora traçado. No entanto, enquanto muitos estudantes não fazem, literalmente, a mínima ideia do que lhes vai acontecer quando chegarem ao fim do seu percurso universitário, Gates estava destinado a deixar a sua marca na indústria informática. Afinal de contas, passava longas horas a afinar as suas capacidades de programação, e já o fazia há anos.

Quando Gates se dedicou pela primeira vez a um computador tinha apenas 13 anos, mas depressa se tornou claro que aquele relacionamento tinha bases firmes. Tinha encontrado o seu amor e estava determinado a alimentá-lo.

O «primeiro encontro» ocorreu por volta de 1968, na escola de Lakeside, embora tenha sido uma espécie de encontro às cegas. Isso porque Lakeside não possuía um computador próprio. Tais coisas eram, naqueles tempos, demasiado grandes e demasiado dispendiosas para uma escola. Possuir um computador mainframe — as máquinas topo de gama da altura — requeria um orçamento de milhões e vários metros quadrados de espaço com ar condicionado, para conservar os equipamentos a uma temperatura adequada. Ainda assim, Lakeside tinha uma máquina de teletipo, que podia ser ligada a um mainframe instalado noutro local. Lakeside pagava para usar o main-frame num regime de time-sharing juntamente com várias outras instituições.

Embora a computação que um tal sistema permitia realizar fosse, no mínimo, rudimentar, a experiência captou de imediato a imaginação de Gates. Ele e outros alunos criaram o Lakeside Programmers’ Club, e depressa Gates escreveu o seu primeiro pedaço de código — um programa para correr um jogo do galo. Sempre determinado a não permitir que a sua juventude o refreasse, Gates era o membro mais novo do clube, mas um dos mais proeminentes.

A sua recusa em ceder tempo na máquina de teletipo acabaria por resultar num convite para abandonar o grupo, embora depressa estivesse de volta, pois os outros compreenderam que só ele era capaz de feitos técnicos que lhes escapavam. Gates concordou em regressar ao grupo mas, num estilo que lhe é próprio, insistiu em aplicar as suas condições. Regressou como uma figura ainda mais dominante no clube do que quando do seu exílio.

Ainda assim, restava a espinhosa questão económica. Os alunos tinham de pagar cerca de 8 dólares por hora para usar a máquina. Um valor elevado para um qualquer Internet café dos nossos dias, mas uma pequena fortuna para um jovem estudante no final dos anos 1960. Durante algum tempo, o grupo foi financiado por um grupo de pais, mas depressa o fluxo de receita se revelou insuficiente. Entretanto, os pais de Bill já tinham esticado os seus recursos ao máximo para o enviarem para aquela escola e não estavam em posição de financiar este novo hobby. Por isso, Gates fez o que haveria de fazer durante toda a vida — usou a sua iniciativa. Precisava de dinheiro, por isso ia arranjar um emprego.

Por sorte, as capacidades que tinha estado a desenvolver ajudaram-no a conquistar a posição que lhe ia pagar para continuar a apurá-las. Uma empresa chamada Computer Center Corporation (ou C-Cubed) tinha-se estabelecido recentemente em Seattle. Gates e os seus companheiros de Lakeside chegaram a um acordo inovador. Em troca de encontrarem bugs nos programas da nova empresa, os alunos recebiam acesso gratuito ao mainframe da C-Cubed. Obviamente, o acesso era realizado apenas fora das horas de expediente, pelo que Gates e os seus amigos se habituaram a usar o computador até altas horas e aos fins de semana. O seu trabalho com a C-Cubed chamaria a atenção de uma empresa que trabalhava com programas que analisavam as necessidades elétricas do reservatório de Colúmbia. Sem saberem que Gates ainda estava no 9.o ano, chamaram-no para uma entrevista, que o levaria a aceitar uma enriquecedora posição em Portland. Aí, entrou em contacto com um programador sénior chamado John Norton, que deixaria em Gates uma impressão duradoura, nomeadamente pela maneira como insistira com o jovem para que continuasse a melhorar. Gates dificilmente precisava de encorajamento.

Aos 15 anos, Gates já estava muito para além dos jogos do galo. Uniu forças com um membro do clube alguns anos mais velho do que ele, chamado Paul Allen, dando início a uma relação profissional que levaria os dois homens aos escalões mais altos da lista dos mais ricos do mundo. No entanto, começaram de maneira humilde. O seu primeiro grande empreendimento consistiu em escrever um programa que agarrava nos dados crus do trânsito de Seattle e os convertia em relatórios que podiam ser usados por engenheiros de trânsito. Chamaram ao programa Traf-O-Data e acabaram por ganhar algo na casa dos 20 000 dólares com ele. Mais importante, tinham ganho uma experiência valiosa e percebido que funcionavam bem como equipa.

AFP/Getty Images

Enquanto desenvolviam Traf-O-Data, Gates e Allen recrutaram um terceiro parceiro, Paul Gilbert, para trabalhar na criação do hardware para correr o programa. Tratou-se de um empreendimento que convenceu os dois que o software era, sem dúvida, o caminho a seguir. Pouco depois, Gates criou um outro programa que automatizou os horários dos professores de Lakeside. Em troca, foi-lhe permitido aumentar o seu tempo de acesso ao mainframe que a escola usava. Gates estava a deixar que os seus talentos trabalhassem a seu favor e tinha o bom senso de aproveitar a oportunidade para os desenvolver ainda mais.

Gates pode, muito bem, ter pensado sobre o que o esperava, sentado no seu quarto na residência de Harvard. Sabemos, por exemplo, que ponderou a ideia de seguir as pisadas do pai na advocacia ou de se tornar um cientista. Mas é difícil acreditar que existissem muitas dúvidas quanto ao caminho que acabaria por seguir.

Atreva-se a sonhar

Em 2008, Gates disse à PC Magazine que «tinha realmente muitos sonhos quando era miúdo». A sua relutância em estabelecer limites à sua imaginação revelou-se preciosa quando se tratou de lançar um negócio num setor tão desconhecido como a indústria do software nos anos 70.

Gates nunca deixou que o medo do desconhecido o refreasse ou restringisse a sua ambição. Talvez seja revelador que uma das primeiras hipóteses que ele e Allen consideraram para nome da empresa tenha sido Unlimited Limited.

Embora possa ter sido a Apple a cunhar a frase «pensa de forma diferente», esta era uma filosofia igualmente partilhada por Gates na Microsoft. «A nossa estratégia de negócios, desde o início, foi bastante diferente da de todas as empresas de informática existentes quando começámos», disse Gates ao público que se reunira para o ouvir na Universidade do Estado de San Jose, em 1998.

Decidimos concentrar-nos em fazer apenas o software de grande volume, não em construir os sistemas de hardware, não em fazer chips, em fazer apenas software.

Por estranho que possa parecer, numa era em que se multiplicam os programadores de software, uma tal decisão exigiu enorme coragem, mas Gates não vacilou nem por um momento.

Embora pragmático e ocasionalmente implacável na maneira como gere os seus negócios, não entrou no ramo apenas para ganhar dinheiro rapidamente. Como a maior parte dos empreendedores verdadeiramente notáveis, teve sempre em mente uma estratégia a longo prazo. Na sua entrevista de 2008 à revista PC Magazine, continuava: «Nós [Microsoft] temos um horizonte de tempo mais distante do que quaisquer outros.» Além disso, embora seja um homem de negócios inato, vê-se a si mesmo, antes de mais, como um cientista e um inovador. Em 1994, por exemplo, disse numa entrevista à revista Playboy:

Dedico talvez 10 por cento a pensar a gestão. A gestão não é assim tão complicada. Não é algo que gostasse de pôr no meu cartão de visita. Sou um cientista.

Dois anos depois, era citado em The Microsoft Way de Randall E. Stross como tendo dito: «[…] o futuro é o que importa, razão pela qual não olho muitas vezes para trás».

Foi a sua mescla de determinação e visão (aliada também à de Allen) que permitiu que a Microsoft se estabelecesse na indústria emergente durante o final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

A dupla depressa construiu uma equipa nuclear com nove empregados e, em 1980, a empresa já tinha uma equipa de trinta e dois elementos. Negócios como os da MITS, Commodore e Apple garantiram que havia bastante trabalho para mãos atarefadas. Depois Gates fez o negócio da sua vida com os então incontestados gigantes da indústria informática, a IBM.

Na altura, a IBM tinha uma força laboral de mais de 300 000 funcionários, num rácio de aproximadamente 10 000 empregados por cada trabalhador da Microsoft.

Tratou-se de um acordo comercial da dimensão de um David e Golias, no entanto, Gates teve a clarividência de exigir termos que permitiriam à Microsoft acabar por suplantar em várias vezes a IBM em termos de valor de mercado.

Em 1983, a revista Time quebrou o seu hábito de ungir uma «Pessoa do Ano» escolhendo antes o computador como a «Máquina do Ano». Gates e Jobs eram os indivíduos mais identificados com a revolução que então se encontrava a todo o vapor. Um ano depois Gates figurou na capa da Time pela primeira vez, desta feita por direito próprio. Dois anos depois, a Microsoft entrou em bolsa, lançando Gates na rota para se tornar o mais jovem multimilionário do mundo. Foi uma ascensão extraordinária, de um rapaz introspetivo que abandonou a faculdade a um ícone global em pouco mais de uma década. No entanto, talvez não fosse nada mais do que Gates esperara conseguir alcançar para si em 1975, quando ele e Allen discutiram os seus sonhos para o futuro, resumidos na citação no início desta secção: «um computador em cada secretária e em cada casa». O que, para alguns, poderá ter parecido ficção científica, depressa se tornou realidade para a Microsoft.

E, ainda assim, Gates aspirava a mais. A introdução de um sistema operativo Windows gráfico, em 1985 (por imperfeito que fosse nas suas primeiras versões) juntamente com o pacote de aplicações de software Office (incluindo o Word para o processamento de texto e Excel para as folhas de cálculo), viu a empresa progredir de sucesso em sucesso. Em meados dos anos 90, tinha garantido o domínio (um termo usado deliberadamente) mundial absoluto do mercado de software e, depois, embora com algum atraso, cavalgou a onda da Internet. Um tal sucesso permitiu-lhe sonhar ainda mais.

Podemos dar-nos agora ao luxo de cometer alguns erros e não nos podemos dar ao luxo de não tentar», terá dito a Brent Schendler que o citou na revista Fortune em 1995.

«... Agora, na Microsoft, estamos concentrados em grandes horizontes. Mas, hei, nós somos capazes de lidar com grandes horizontes. Esperam de nós que lidemos com grandes horizontes. Nós adoramos grandes horizontes.»

Uma amostra da sua visão do futuro foi apresentada nessa mesma publicação por Randall Stross, dois anos mais tarde: «O futuro da informática é um computador que fala, escuta, vê e aprende.»

Em anos mais recentes, Gates trouxe o mesmo nível de visão às atividades filantrópicas e à abordagem dos maiores desafios que o nosso planeta enfrenta. Pense-se no seu combate às alterações climáticas através do desenvolvimento de fontes de energia renováveis, como foi relatado pela Wired em 2011: «Se procura elegância, os aparelhos caseiros são o seu caminho. É bastante fixe ter painéis solares no telhado. Mas, se estiver realmente interessado no problema energético, [precisa] de [gigantescas fábricas solares] no deserto.» As palavras de um homem que nunca sonha pequeno.

Em 1980, Gates fez o negócio que projetou a Microsoft de uma empresa emergente na indústria do software para uma superempresa global. De faturação anual de cerca de 2,4 milhões de dólares, em breve começaria a realizar negócios na casa dos milhares de milhões.

A oportunidade surgiu quando o nome mais reconhecível do mundo no que diz respeito a computadores na altura, a IBM, decidiu entrar no mercado dos computadores pessoais. Não restam dúvidas de que a IBM era assaz brilhante nas suas áreas de competência tradicionais: fornecer hardware tecnológico para empresas e grandes organizações. Isto, contudo, era algo completamente diferente. Nos anos 1980, a empresa atingira uma dimensão tão gigantesca que lhe era difícil ser rápida e ágil — características que a jovem Microsoft tinha de sobra.

Era um segredo mal guardado, em Silicon Valley, que a IBM estava a sentir dificuldades em criar um sistema operativo satisfatório para o seu computador pessoal. Gates e a equipa da Microsoft tinham, inevitavelmente, surgido no seu radar e a administração da IBM decidiu abordá-los quando começaram a procurar uma solução externa. Gates podia não ter ainda 30 anos, mas reconheceram-no como um mestre emergente do seu setor, abençoado com uma velha cabeça comercial sobre os ombros jovens.

Conta-se que, quando Gates se encontrou pela primeira vez com a equipa de fato e gravata da IBM, envergava as calças largas e a camisola de malha de algodão que eram a sua imagem de marca. O incómodo da situação deve ter sido geral porque, no encontro seguinte, Gates quebrou a tradição e vestiu uma camisa e gravata, enquanto os seus homólogos da IBM deixavam em casa o fato e vestiram-se ao estilo de Gates!

Independentemente da sua desconexão no que dizia respeito às roupas, Gates fez o melhor que podia para lhes oferecer conselhos úteis. Num primeiro momento, sugeriu que a IBM abordasse um dos parceiros comerciais da Microsoft, a Digital Research Inc., já que a Microsoft não tinha um sistema operativo próprio para lhes oferecer.

Infelizmente para a Digital Research, mas não para Gates e a sua equipa, as negociações fracassaram, pelo que os executivos da IBM voltaram a pedir ajuda a Gates. Este concordou em desenvolver um sistema operativo em seu nome. Tal como no negócio com a MITS alguns anos antes, Gates prometera algo que ainda não possuía, pelo que adotou uma abordagem adequadamente pragmática enquanto procurava cumprir o acordo celebrado.

Contactou um programador de Seattle chamado Tim Patterson, que tinha recentemente criado um sistema operativo chamado Q-DOS (Quick and Dirty Operating System). Gates realizou um pagamento único pelos direitos ao produto. Embora as estimativas difiram quanto à quantidade exata, pensa-se que estaria na casa dos 50 000 dólares, uma soma que, decerto, poderá ser considerada das mais bem empregues por Gates (em especial tendo em conta que, hoje em dia, não passam de trocos no seu mundo). A Microsoft dedicou-se a reconfigurar o Q-DOS para as necessidades da IBM, e apresentou-o como MS-DOS (Microsoft-Disk Operating System). Aliviada, a IBM contratou-o e vendeu-o como PC-DOS.

Gates sabia a pressão sob a qual se encontrava a IBM e, se tivesse outro caráter, poderia ter tentado extrair deles o maior benefício financeiro imediato possível. Em vez disso, optou por uma abordagem diferente, ancorada na sua crença de que as verdadeiras recompensas adviriam de conceber um negócio que lhes atribuísse uma quota dominante do mercado de sistemas operativos. 

Como tal, fez um acordo através do qual a IBM recebia o MS-DOS por um valor relativamente baixo, único, e pago à cabeça. O mais importante, contudo, foi o facto de ter mantido o copyright do produto. Gates estava a fazer uma aposta, mas calculara que imensas empresas começariam a fabricar máquinas segundo o novo modelo da IBM e, quando o fizessem, teria uma solução de sistema operativo pronta para lhes vender. O risco era calculado e a recompensa foi avultada.

O IBM PC era vendido com a possibilidade de escolher entre três pacotes de softwares, sendo o PC-DOS um deles. Tendo permitido que a IBM o adquirisse sem gastar muito, tornaram-no a opção mais barata. Isso era essencial para o plano a longo prazo de Gates, pois ele sabia que o seu derradeiro sucesso dependia de se tornar, primeiro, o pacote de eleição do IBM PC.

Conforme previsto, o seu preço baixo ajudou o PC-DOS a ocupar o primeiro lugar entre os consumidores. Dada a sua influência no mundo dos computadores, a IBM movimentava um grande número de unidades e as vendas subiram em flecha, espalhando o nome da Microsoft como a empresa de software a usar. O PC-DOS transformou-se no padrão da indústria. Além disso, como Gates esperara, outros produtores (mais de 100) depressa o procuraram com vista a licenciar o MS-DOS. Entretanto, outros fabricantes de hardware importantes, incluindo a Sony, a NEC e a Matsushita pediram à Microsoft que lhes fornecesse os sistemas feitos à medida de cada um. Em termos financeiros, as vendas da empresa mais do que duplicaram entre 1980 e 1981. Passado pouco tempo, a Microsoft tornou-se, de longe, o principal nome no florescente negócio global do software.

Objetivos filantrópicos: combater as doenças

As oportunidades, no entanto, de nada valem se não tivermos saúde para as aproveitar. Como tal, a outra grande cruzada da Fundação Gates é combater a doença — com especial atenção para as que mancham o mundo em desenvolvimento mas, por comparação, quase não são registadas nas nações mais ricas. Em 2005, fez a seguinte declaração de missão:

A saúde global é o nosso compromisso para toda a vida. Até reduzirmos o fardo sobre os pobres de modo a que não exista qualquer fosso verdadeiro entre nós e eles, essa será sempre a nossa prioridade. Não sou tolo ao ponto de dizer que isso irá acontecer. Mas esse é o nosso objetivo.

Para ter alguma hipótese de sucesso, aliou-se a governos, organizações internacionais e empresas farmacêuticas, defendendo resolutamente a fundação contra qualquer cumplicidade nos eventuais excessos de qualquer uma dessas entidades. Além disso, tem uma abordagem friamente racional em relação ao modo como a fundação gasta o seu dinheiro, tendo sempre em conta o retorno de cada investimento — por outras palavras, onde haja probabilidade de o seu dinheiro ter um maior impacto. Ainda que isso possa parecer calculista, não esqueçamos que a Fundação Gates apoia empreendimentos bastante mais arriscados do que muitas outras organizações de beneficência (já para não falar em governos) se atrevem a apoiar, quando ele e os seus parceiros do conselho de administração estão convencidos de que têm uma verdadeira hipótese de serem bem-sucedidos. Este modus operandi foi revelado numa declaração de 2005:

Decidimos enfrentar os vinte piores assassinos e, em tudo o que fazemos olhamos para o custo por vida salva e para os verdadeiros resultados em termos de como as coisas melhoraram.

A malária tem sido um alvo natural, tendo em conta que se trata de uma doença cujo impacto afeta quase em exclusivo as nações mais pobres. A Europa Ocidental erradicou-a no final dos anos 30 e foi considerada erradicada nos EUA em 1951; no entanto, em 2012 havia cerca de 2,7 milhões de pessoas doentes com malária, das quais 627 000 morreram. Nada mais nada menos que 90 por cento dos doentes estavam concentrados na África Subsaariana, 77 por cento dos quais tinham menos de 5 anos. Mas o quadro não é todo ele desolador. Entre 2000 e 2012, houve um declínio de 25 por cento na incidência e uma queda de 42 por cento nas mortes, em grande medida em resultado do investimento em diagnóstico, tratamento e prevenção.

Este é o tipo de desafio — apresentado por uma doença violenta e devastadora, mas que inclui uma esperança real de a atacar com todas as forças — que a fundação foi concebida para enfrentar. E tem-no feito com gosto, distribuindo cerca de 2 mil milhões em subsídios específicos, para além de dar mais 1,6 mil milhões ao Global Fund to Fight AIDS, Tuberculosis and Malaria6. De facto, a SIDA é mais um dos determinantes campos de batalha da fundação. Apesar do seu impacto significativo no mundo desenvolvido, os países em desenvolvimento — em especial os da África Subsaariana — têm sofrido com a mesma de maneira desproporcional. Por exemplo, em 2013 estimava-se que 35 milhões de pessoas vivessem com VIH ou SIDA, das quais 25 milhões habitavam nessa região. De tal modo que a Fundação Bill e Melinda Gates já doou 2,5 mil milhões de dólares para a luta em curso.

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No entanto, a organização não se restringe a estas doenças «sonantes», desenvolvendo também um programa à medida para combater doenças infecciosas negligenciadas. Em 2015, este programa tinha por alvo dezoito doenças negligenciadas que afetam cerca de mil milhões de pessoas. Em cada caso, a fundação acredita que táticas que incluam a administração em massa de medicamentos, a vigilância da saúde pública e o controlo vetorial (por outras palavras, o controlo dos insetos e vermes que espalham muitas das doenças em causa) pode reduzir consideravelmente a incidência e o impacto destas maleitas.

Entre as doenças contra as quais luta está a oncocercose (cegueira dos rios), uma doença causada por um verme parasítico, raramente mencionada na imprensa ocidental mas que afeta 18 milhões de pessoas por ano, em especial em África e na América do Sul. Outras doenças incluem a dengue, a encefalite japonesa, o papilomavírus humano, a leishmaniose visceral (febre negra), a ancilostomose, dracunculíase (doença do verme-da-Guiné), filaríase linfática (elefantíase) e tripanossomíase humana africana (doença do sono).

Depois da sua ambição juvenil de colocar um computador em cada secretária, o Gates mais maduro adotou um sonho mais grandioso e mais altruísta — salvar as vidas de milhões de estrangeiros.

É possível que a maior proeza de Gates consista em desempenhar um papel fundamental na erradicação da pólio, de uma vez por todas. Em 1988, a pólio era endémica em cerca de 125 países, deixando 350 000 pessoas paralisadas todos os anos, na sua maioria crianças. Nesse ano, foi lançada a Global Polio Eradication Initiative7, que defendia um programa de imunização que, quase inacreditavelmente, reduziu o número de novas incidências em 99 por cento.

Em 2012, houve menos de mil novos casos registados por todo o mundo; além disso, a Índia realizou o importante anúncio de que conseguira erradicar a pólio do seu território — algo que muitos acreditavam ser uma aspiração inatingível. Hoje, a doença só é endémica em três países: Afeganistão, Paquistão e Nigéria.

Este feito não deve ser subestimado. Na história da humanidade uma única doença infeciosa nos humanos foi erradicada graças a uma intervenção propositada — o destino da varíola nos anos 1970. Ainda que muitas agências tenham sido instrumentais no combate contra a pólio, a Gates Foundation está entre as mais importantes. Tendo-se apercebido da proximidade da erradicação total, em 2013 Gates anunciou os seus planos para gastar quase 2 mil milhões de dólares durante os seis anos seguintes para terminar a tarefa.

Trata-se de um projeto apelativo para a inclinação natural de Gates para a resolução de problemas, contudo, o sucesso não é um dado adquirido. Por exemplo, em 2013, surgiram uma série de novos casos na Somália e na Síria arrasada pela guerra, onde surtos graves seriam difíceis de conter. Além disso, Gates teve de enfrentar oposição política aos seus esforços, nomeadamente no Paquistão onde alguns grupos islamitas apresentaram os programas de vacinação como um plano Ocidental para esterilizar a população indígena.

Ainda assim, Gates continua otimista em relação às suas hipóteses. Em 2013, disse ao jornalista Neil Tweedie: «A pólio é bastante especial porque quando se conseguir a sua erradicação, não teremos de gastar mais dinheiro com ela; fica, assim, como uma dádiva, para todo o sempre.» Por outro lado, Gates não tenciona ficar por ali, insistindo:

O melhor de se acabar com a pólio é que libertaremos recursos para continuar a lutar contra a malária e o sarampo.

Gates iniciou a sua carreira em busca de bugs em programas de computador. A pólio, contudo, parece estar prestes a ser o verdadeiro contributo antivírus da sua vida.

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