Tudo o que queria era ser um Blade Runner mas acabei um Replicant

05 Outubro 2017301

No princípio queríamos ser o Harrison Ford atrás dos maus mas percebemos que os maus éramos nós. Alexandre Borges assume: "Este é o filme da minha vida". E com a estreia da sequela explica porquê.

É sempre muito mais difícil escrever sobre o que se ama. Alguém poderá pensar o contrário, que é mais fácil trabalhar naquilo por que se é apaixonado, mas não. De maneira alguma. Os sentimentos atrapalham. Atrapalham muito. Já deve ter reparado nisso. Atrapalham em geral, não é só na escrita. Atrapalham a fala e a dança e o trânsito e a lida da casa e a poesia. Fácil é escrever sobre batatas. Fácil é escrever institucionais para associações de jovens empresários. Fácil é escrever bulas médicas.

Quando a gente quer desmontar o amor que tem e arrumá-lo em palavras e depois pô-las dentro de parágrafos, embaladas em textos, é que é o bom e o bonito. É como tentar fazer uma daquelas malas de cabine para não pagar na low-cost e, ainda assim, ter o que vestir durante mês e meio no Canadá. Não é só o problema do espaço; é não saber sequer por onde começar.

[o trailer do “Blade Runner” original, de 1982]

“Blade Runner” é o filme da minha vida – e já perdi a conta às vezes em que, ao dizer isto, recebi em regresso um queixo caído, seguido do inevitável: “Não gosto de ficção científica”. Já perdi a conta às vezes em que comecei o discurso do “ficção-científica-não-é-só-lasers-nem-monstros-do-espaço”. Ficção científica é, historicamente, um dos territórios mais propensos à filosofia em cinema – se não aquele onde, efectivamente, melhor se concretiza. Ficção científica é frequentemente a melhor hipótese que temos de pôr o cinema a falar de Deus. E com Deus. E da morte e com a morte. E de que diabo, afinal, andamos todos aqui a fazer.

Por onde começar, então? No princípio, era o “Blade Runner” e nós queríamos ser blade runners como o Harrison Ford e perseguir os maus. Depois, percebemos que os maus éramos nós.

Barba de três dias e arma na mão

O filme saiu em 1982, devo tê-lo visto a primeira vez em 1985 ou 86, mas no fundo estávamos todos em 2019, ano em que meia dúzia de replicants da geração Nexus 6 se evadiu das colónias e voltou à Terra para pedir satisfações ao criador. A população mundial que teve meios para isso tinha partido para outros planetas, onde era servida por humanóides criados em laboratório, cada vez mais perfeitos e feitos à nossa imagem e semelhança: réplicas.

Os replicants eram puramente funcionais: existiam em diferentes modelos para servir funções concretas: os modelos de combate, os modelos de prazer, os modelos para entreter as crianças. E, para evitar sonhos de grandeza, não lhes fosse dar para se juntarem e quererem tomar o mundo como é mania da bicharada da ficção científica, tinham um tempo de vida limitado: quatro anos. Ao fim de quatro anos, morriam. O que quer que acontecesse. Onde quer que estivessem. O que quer que tivessem feito. Quem quer que fossem. Ponto final.

Harrison Ford era então Han Solo e Indiana Jones e, portanto aqui, enquanto Rick Deckard, o caçador de prémios contratado pela polícia para descobrir, perseguir e limpar o sebo aos replicants fugitivos, era, obviamente, o nosso herói. Aquele que os putos queriam ser, na barba de três dias, sobretudo e arma na mão, actualização evidente do cowboy solitário e do detective de film noir. Os vilões metiam verdadeiro medo – e estava por vir quem vencesse Roy Batty (Rutger Hauer) se não fosse a morte, ou a lei da vida – e havia belas, perigosas e dúbias mulheres (Sean Young, Daryl Hannah, Joanna Cassidy).

Passei uma semana de férias a ver todos os discos e extras da caixa metálica especial lançada aquando dos 25 anos do filme, sob ameaça de divórcio. Segui a pista das obras de Syd Mead, Douglas Trumbull, os nomes fundamentais da ficha técnica, aprendi de cor e salteado o monólogo de Roy Batty.

Para recheio – e em “Blade Runner” um detalhe era muito mais do que um pormenor – havia a atmosfera. A tal Los Angeles decadente, sob chuva ácida, transformada em megalópole oriental crepuscular, a noite contínua, os chapéus-de-chuva de néon, as imitações de animais, a fabulosa banda sonora de Vangelis (sim, acabei de escrever estas palavras. Por esta ordem.), os unicórnios de origami – que não percebíamos, mas, oh!, quanto nos intrigavam…

Depois, o filme foi arrumado numa prateleira qualquer do nosso contentamento e seguimos pelos anos e pelas prateleiras dos clubes de vídeo. Até que me fiz homem de barba de três dias, a aventura espacial abrandou de tal modo o passo que 2019 se tornou porventura precipitado para sonhar com colónias noutros planetas e, acima de tudo, os clubes de vídeo tinham passado de câmaras mágicas onde descobria criaturas do espaço e sonhávamos com naves mais velozes que a luz, a bafienta curiosidade arqueológica.

Mas, afinal, “Blade Runner” não estava arrumado – em lado algum. Nem na cabeça do realizador, Ridley Scott, que voltou a ele dez anos depois para fazer um “Director’s Cut” liberto das imposições dos produtores. Nem na do mundo, tendo lançado toda uma genealogia cyberpunk que mudaria, para sempre, a reflexão da moda e da ficção científica acerca do futuro próximo.

Nem ao menos na minha cabeça, perplexa ao descobrir, anos mais tarde, que alguns dos sonhos recorrentes que tivera durante todo o crescimento haviam saltado directamente de vinhetas do filme: o corpo de Joanna Cassidy, aliás, a stripper Zhora, dentro do impermeável transparente, atravessando montras de vidro e por sua vez atravessada pelo vermelho negro do sangue. Ou o pavor absoluto fugindo de divisão para divisão de uma casa vazia de um perseguidor que não vemos e apenas canta e ri, enquanto bate nas paredes e nos tectos em volta, encurralando-nos entre o som, o nada e o medo.

Depois desse segundo visionamento, em idade adulta, a ligar os pontos do mapa, voltaria muitas, muitas vezes a “Blade Runner”. A todas as versões: a original estreada nos EUA e a versão estreada na Europa, o “Director’s Cut” de 92 – perfeito, com sonhos com unicórnios e sem voice-overs nem finais felizes, e até o “Final Cut” de 2007, responsabilidade de uns geeks da tecnologia que foram dar o polimento digital a meia dúzia de imprecisões técnicas e já só supervisionado por Scott.

Passei uma semana de férias a ver todos os discos e extras da caixa metálica especial lançada aquando dos 25 anos do filme, sob ameaça de divórcio. Segui a pista das obras de Syd Mead, Douglas Trumbull, os nomes fundamentais da ficha técnica, aprendi de cor e salteado o monólogo de Roy Batty que começava com naves ardendo na órbita de Orion e desaguava, claro, na inevitabilidade de tudo quanto vira enquanto vivera estar condenado a desaparecer, como as lágrimas que agora lhe corriam, face abaixo, levadas pela chuva.

Apresentei e discuti “Blade Runner” com os colegas armados de Godard e Pasolini debaixo do braço no mestrado de Estética. Apresentei e discuti “Blade Runner” com o público em sessão especial, naquelas noites de Verão da esplanada da Cinemateca, que porventura pediriam coisa mais leve e luminosa.

Escusado será dizer que fui ler o romance original de Philip K. Dick e que tive muitas discussões sobre as diferenças entre livro e filme e que depois fui ler os outros romances de Philip K. Dick. E sim, até comprei o CD com a banda sonora de Vangelis. E às vezes até li os romances de Philip K. Dick enquanto ouvia a banda sonora de Vangelis. E continuo a dizer que é boa-mas-boa-boa.

Especiais, únicos, divinos

Apresentei e discuti “Blade Runner” com os colegas armados de Godard e Pasolini debaixo do braço no mestrado de Estética. Apresentei e discuti “Blade Runner” com o público em sessão especial, naquelas noites de Verão da esplanada da Cinemateca, que porventura pediriam coisa mais leve e luminosa.

Dei por mim num festival literário no México, não a discutir poesia, mas a aprender com o poeta Mário Alonso como “Blade Runner” falava acerca do olhar: o grande olho que ocupa todo o plano na abertura do filme, o olho do mocho falso, a dilatação ou não dilatação da pupila que denunciava a falta de empatia dos falsos humanos no teste Voight-Kampff, a maquilhagem de Daryl Hannah com um só traço preto sobre os olhos, o criador Tyrell morto com o cérebro perfurado pelos olhos, o cientista com olhos pendurados no fato e que desenhou os olhos de Batty, as imagens que os olhos de Batty viram e que estavam destinadas a morrer… Os olhos, os olhares, o que os olhos viram, os olhos, sempre os olhos…

E em tudo isto, à medida que o tempo passava, era tão evidente que já não seria o detective noir do futuro, Harrison Ford dos pequeninos, fantasia de blade runner para a vida banal. Evidente. Tão evidente como a resposta às meninas e meninos de rosto subitamente desinteressado que diziam: “não gosto de ficção científica”.

Claro que não podia ser blade runner; era um replicant. Os replicants éramos nós. As criaturas destinadas a morrer, não importava quem fossem ou o que tivessem feito. O universo consciente que se interrogava a si mesmo. As criaturas em busca do criador para lhe pôr as perguntas: porquê, como, porque não? Que lhe iam pedir mais vida, outra solução, a salvação – porventura, a vida eterna. A luta contra o absurdo das imagens que se perderiam para sempre.

De que teria tudo isto servido, afinal? Os replicants eram a vida concentrada para conforto do espectador; para que melhor sentisse a falta de sentido. Quatro anos de vida. Podiam ser 40. Ou 80. Tinham-lhes infiltrado memórias, para que tivessem um passado, uma pré-história, uma falsa noção do tempo e acreditassem que eram reais, humanos, e não meras réplicas, criaturas iguais às outras, que eram seres acima da criação, senhores e não servos, com mais do que uma mera função dada para executar entre nascer e morrer. Especiais. Únicos. Divinos. Não seríamos também nós assim? Já quase não havia animais vivos naquele tempo crepuscular do futuro. Estaríamos nós?

[o trailer do novo “Blade Runner”]

Claro. Depois, havia ainda e sempre a discussão sobre se o próprio Deckard, o blade runner em pessoa, não seria ele mesmo um replicant. “É uma pena que ela não possa viver”, grita Edward James Olmos referindo-se a Sean Young, por quem Deckard amorosamente tombou (sim, decidi invadir e pilhar livremente línguas estrangeiras), “mas, pensando bem, quem pode?”

Mas a questão, para mim que cresci a sonhar, se não com carneiros eléctricos, ao menos com replicants nuas em estilhaços e vozes de replicants cantando: “Four, five, how to stay alive? / Six, seven, go to hell or go to heaven?”, era já outra: replicants éramos todos. A pergunta agora era: que fazer às imagens que os nossos olhos viram antes que tudo se perca?

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal)

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Governo

Quem tem a palavra final? Costa ou Centeno?

Margarida Mano

As Finanças dizem não ter dinheiro para cumprir o prometido ao Ensino Superior. Daí a pergunta: vai a palavra dada pelo primeiro-ministro ser honrada? Ou impõe-se de novo a falta de liquidez do país?

Livros

Livros para o Natal (I)

João Carlos Espada

Três livros sobre a indispensável associação entre liberdade e sentido pessoal de dever.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site