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Referendo na Catalunha: é proibido, mas pode acontecer?

Setembro 201707 Setembro 2017420
Ana França

A Catalunha quer ser independente. Desde quando?

Pergunta 1 de 9

Quer ser independente há quase tanto tempo como a idade de Portugal. A Catalunha sempre foi uma região com características muito próprias. Nasceu, politicamente, há mais de mil anos, como uma região mediadora entre árabes e cristãos. Na Idade Média consolidou essa posição e expandiu a sua influência muito além das suas fronteiras, dominando o comércio no Mediterrâneo. Aragão foi um mini-império comercial.

Durante o Renascimento, a dinastia catalã perdeu o seu trono para a Casa Real de Castela por não ter descendentes – ainda assim, a Catalunha manteve sempre um espírito político próprio de uma nação independente. Não participou na expansão marítima empreendida por Castela e, por isso, foi perdendo a sua influência como potência comercial. Depois da guerra entre França e Castela, que os espanhóis venceram, em 1714, o garrote centralizador do governo esmagou ainda mais o espírito dos catalães, que se tinham aliado à França na Guerra da Sucessão.

Nos cem anos seguintes, a Catalunha tentou reavivar as suas características, mas até falar catalão tinha sido proibido. Foi o desenvolvimento industrial que voltou a dar alento aos catalães que se mantém hoje como o seu grande trunfo frente ao governo espanhol.

Até 1931, os sucessivos governos espanhóis tentaram sempre dominar a Catalunha, mas nesse ano a Generalitat (o nome do governo autónomo catalão) foi reconduzida ao poder. Em 1936 a Espanha mergulhou numa Guerra Civil que haveria de desaguar numa ditadura militar que se prolongaria ao longo de mais de 40 anos. De novo a Catalunha se viu sacrificada pelo poder ditatorial, mais de 3,500 catalães foram assassinados, o dialeto foi novamente a proibido e os seus músicos, escritores e pintores perseguidos pela permanente oposição cultural que faziam ao franquismo.

Em 1977, o franquismo caiu, mas a Catalunha não queria ter nada a ver com Espanha. Começou uma onda de reivindicações pela total independência que nunca mais abrandou. Em 2010, o Tribunal Constitucional espanhol rescindiu parte do estatuto de autonomia que tinha sido dado à Catalunha de Artur Mas, então Presidente, em 2006, e sublinhou não haver base legal para o reconhecimento da Catalunha como um país independente porque isso colocaria em causa a unidade territorial de Espanha.

Os protestos foram imediatos e a crise de 2008 só veio aprofundar as divisões: a região da Catalunha, com uma economia que, sozinha, representa 20% do PIB espanhol, considerou injusto ter que ir em socorro de um país mais pobre, com menos emprego, do qual não consideram fazer parte. Em 2012, Mas tentou de novo aplacar a insurgência pedindo a Mariano Rajoy que revisse as contribuições da região para o bolo orçamental espanhol — perto dos 16 mil milhões de euros anuais pelas estimativas mais conservadoras. A braços com uma crise financeira sem precedentes, Madrid disse “não”.

Nos últimos anos, a adesão à causa independentista tem aumentado. Todos os anos, a 11 de setembro, o dia Nacional da Catalunha, manifestantes enchem as ruas a pedir a independência, mas basta olhar para as varandas espalhadas pelas várias províncias catalãs: a “Estrelada”, bandeira da região, pende de varandas e parapeitos.

Miquel Iceta, líder do Partido Socialista Catalão, acha que isso se deve ao medo: ao medo das crises económicas, ao medo do populismo mas, também, ao medo do que é estranho, como o terrorismo: “As pessoas têm medo. São tempos incertos e muitas consideram que, se se concentrarem em comunidades pequenas, estarão protegidas”, disse o político ao jornal Financial Times.

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