Agora foi o Popular, banco com uma presença em Portugal bastante menor que aquela que tem em Espanha, mas, de qualquer forma, mais um banco que se queda. A pergunta para os reguladores continua a mesma e continuo sem ver respondida. Oito anos depois da crise americana e da entrada em vigor da regulamentação de capital que cresce “todos os dias”, diriam que a coisa está a correr bem, mal ou mais ou menos? É que, independentemente daquilo que possamos saber sobre o assunto, há um facto irrefutável. O sistema financeiro está mais frágil hoje que alguma vez esteve na história da Europa, com os bancos a caírem uns atrás dos outros e a serem absorvidos por bancos maiores ou por fundos de “resolução” que no fim do dia aproveitarão pouco mais que a carteira, isto na melhor das hipóteses. Oito anos de resultados acumulados mostrariam aos europeus algo que é inquestionável, que algo está terrivelmente mal e esse mal só apareceu quando a ignorância tomou conta da regulação. Mas ninguém no poder político parece muito inclinado para tomar a questão nos punhos.

Como me dizia um responsável de um banco holandês há um par de anos, há três tipos de bancos na Europa: os que estão em grandes dificuldades, os que foram salvos e os que escondem os números. Vejamos agora o caso do Popular, a queda é gerada porque o banco tinha um rácio principal de 7,33%. O que isto significa? Significa que tinha um rácio de 7,33%. Não significa que seja pior, não significa que esteja falido, não significa que os depositantes tenham ficado sem o dinheiro. Significa simplesmente que uns burocratas com reduzida capacidade para o raciocínio lógico têm uma medida, e que os políticos europeus não têm inteligência suficiente para ter mão neles e mandá-los para casa.

Imaginem, por absurdo, que os funcionários do Popular combinavam com os auditores e fabricavam um número de rácio acima do que tinham. Na verdade, nada aconteceria. Absolutamente nada. Os reguladores ficariam satisfeitos e os políticos satisfeitos ficariam com eles. Os clientes estariam tão seguros como estavam antes e o negócio correria sem problemas. Porque o número em si mesmo não tem qualquer significado, nem representa nada de fundamental ou está preso a primeiros princípios. É simplesmente um número arbitrado um dia e que todo o amanuense respeita sem questionar.

Mas, mais uma vez, ainda que se possa questionar aquilo que digo, o facto é que os bancos da Europa andam a cair uns atrás dos outros enquanto os reguladores vão reforçando as suas remunerações. E se os bancos andam a cair uns atrás dos outros é porque o objetivo último dos reguladores, a resiliência do sistema, falhou completamente. E não porque estivesse em dificuldades, porque não estava, mas porque se introduziram regras de funcionamento que o estão a implodir. Porque é que isto não faz tocar os alarmes dos políticos é algo que me escapa completamente. Precisam do quê, que caia o último banco? Neste caso, o Santander absorveu o Popular para o qual vai ter que despender cerca de 7 mil milhões de euros. Para pagar aos donos do Popular? Não, para deixar a carteira exatamente como está. O que, confiando na já provada capacidade de gestão do Santander, será bom para este. Mas o ambiente que rodeia o Santander ficou mais frágil porque desapareceu um elemento do mercado que ajuda à diversificação do seu próprio negócio.

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Mas hoje, depois de assumirmos que BPN, BPP, BCP, BES, Banif, Montepio, CGD e agora Popular foram todos frutos do azar, eis que a notícia do Popular traz um ingrediente que só à posteriori soubemos no caso do Banif. O papel de “Bruxelas”.

Aparentemente, Bruxelas deu 24 horas para que a questão do Popular fosse resolvida. Em repetição àquilo que tinha acontecido em Portugal com o Banif. O que traz a minha questão fundamental. Se o dinheiro é “meu”, o banco é “meu”, Bruxelas dá-me 24 horas porquê? No caso do Banif, só o “filet mignon” do banco é que foi absorvido pelo Santander, o resto foi parar ao défice do estado. Leia-se o meu bolso. E se o dinheiro é meu, o problema é meu, porque carga d’água Bruxelas me dá 24 horas? E se Bruxelas dá 24 horas num problema envolvendo um banco, em que outras questões anda Bruxelas a “dar 24 horas”? E isto parece-me estar a passar sem escrutínio de quem interessa, o povo português, o qual não me lembro de ter votado a favor de nada disto, nem nada para o qual Bruxelas pudesse dar um prazo de 24 horas para resolver com o nosso dinheiro. Dinheiro que continua a ser nosso, porque Bruxelas continua a dizer que lho devemos. Se ainda fosse “resolvam lá o Banif que eu fico com o crédito mal-parado”, seria compreensível. Agora “resolvam lá o Banif e fiquem com o crédito mal-parado porque eu mando”, já me parece demasiado estranho e para o qual a minha costela Farage começa a ser convocada, particularmente num assunto em que Bruxelas está muito errada.

O sistema bancário de um país não é uma coisa de somenos. O Santander em Portugal não se chama Santander Totta por acaso. É porque os senhores do Santander reconhecem a importância de ter uma marca portuguesa no mercado português. É irrelevante se o acionista é português ou não, mas é muito importante que o banco o seja, porque se trata do controlo do capital das pessoas do país, seja este país Portugal, Espanha ou Bélgica. Isto para dizer que haverá muita coisa onde Bruxelas queira meter o bedelho e que algumas coisas até possamos deixar, como o formato do pepino ou o calibre do tomate. E que até nos deem 24 horas para endireitar o pepino, salvo seja. Mas se o estado português não serve para proteger o sistema bancário, qual é o sentido de termos um estado?

Eu nunca fui um adepto da saída do Euro, até porque me parece uma patetice a todos os níveis. Mas há algo aqui que ninguém aprovou. Ninguém que o pudesse fazer, pelo menos. Ninguém ainda aprovou que Portugal fosse absorvido pela UE, ninguém aprovou o fim da República Portuguesa, ninguém decidiu que o sistema bancário português pudesse ser extinto a favor do estrangeiro. E repito, não se trata de dizer que o acionista é português ou não. Não há nenhum banco que seja estratégico, mas o sistema bancário é-o. E se o sistema bancário português vai sendo extinto, se a quantidade e variedade de bancos não está no nosso controlo, apesar de sermos nós que os pagamos, há aqui algo que merece um alerta. E se isto não está salvaguardado pelo acordo do Euro ou pelo acordo da União Bancária, será altura de começar a pensar nisto, até porque aparentemente até a Espanha leva com ultimatos destes, de burocratas que nunca vimos, nem nunca empregaríamos. Isto para dar largas à minha costela Farage já referida.

Pelo menos que a coisa seja posta às claras. Alguém diga aos portugueses que tudo isto implica o fim de um sistema fundamental na soberania nacional, se calhar mais importante que os outros sistemas de soberania. E que isto seja claramente questionado a quem é, de facto e de lei, o soberano deste país. Vai dar problemas com os outros? Vai. Mas se até os espanhóis podem ajudar, esta é a altura.

Não sei se repararam, mas no texto todo não se refere uma única vez o Banco de Portugal. Não é preciso…

PhD em Física, Co-Fundador e Partner da Closer