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O PCP e a Revolução de Outubro: hoje não é o dia das mentiras

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O líder do PCP deve desconhecer a velha anedota soviética: Qual a diferença entre o capitalismo e o socialismo? O capitalismo é a exploração do homem pelo homem; o socialismo é exactamente o contrário

O enfraquecimento e degeneração intelectuais do Partido Comunista Português são um facto cada vez mais evidente, principalmente quando o seu dirigente Jerónimo de Sousa mente, falsifica a História e tenta passar mais uma certidão de idiota aos portugueses.

Num artigo de opinião publicado no DN, o secretário-geral comunista começa por escrever: “Foi numa Rússia semifeudal, dominada pelo poder autocrático e repressivo dos czares e da mais alta nobreza, com mais de cem nacionalidades oprimidas, destruída pela I Guerra Mundial, com um povo fustigado pela exploração, a repressão, a pobreza, a fome e o analfabetismo que, no dia 7 de Novembro de 1917 (25 de Outubro no antigo calendário russo), o proletariado russo, com o papel de vanguarda do Partido Bolchevique, conquistou o poder e lançou as bases de uma nova sociedade sem a exploração do homem pelo homem”.

Ora qualquer aluno do 12º ano sabe que aqui há uma série de mentiras ou de indícios de analfabetismo histórico. Primeiro, a revolução comunista não foi feita contra o “poder autocrático e repressivo dos czares e da mais alta nobreza”, mas contra um Governo Provisório que mantinha na Rússia um sistema pluripartidário e se preparava para dar uma Constituição democrática ao país”. Segundo, não foi o proletariado russo que tomou o poder, mas um pequeno grupo de bolcheviques que só na cabeça de Jerónimo de Sousa queriam criar um regime sem exploração do homem pelo homem. O dirigente comunista não deve conhecer a velha anedota soviética: “Qual a diferença entre o capitalismo e o socialismo? O capitalismo é a exploração do homem pelo homem, enquanto que o socialismo é exactamente o contrário”.

Claro que ninguém duvida, como escreve o dirigente comunista, que “a Revolução de Outubro é (e continuará a ser) o acontecimento maior da história da humanidade”, mas diz apenas meia-verdade pois mente ao afirmar “que inaugurou uma nova época, a época da passagem do capitalismo ao socialismo”. Pergunta-se: onde está esse socialismo actualmente na Rússia e na maioria dos países que enveredaram ou, melhor, foram obrigados a enveredar por essa via de desenvolvimento? Deu lugar novamente ao capitalismo. Até na China se transforma cada vez mais num regime capitalista oligárquico que explora os trabalhadores até ao tutano.

Jerónimo de Sousa mente também quando afirma que a revolução resultante do golpe de Estado comunista “fica marcada como a primeira e única a empreender com êxito a gigantesca tarefa de construir uma sociedade nova em que os recursos, os meios e os instrumentos do Estado e do país foram postos ao serviço do povo”. Como é sabido, a União Soviética era dirigida por uma oligarquia que, às vezes, nem sequer atirava migalhas ao povo. Será que os milhões de soviéticos que morreram de fome tinham os recursos, os meios e os instrumentos de que fala o líder comunista, mas não sabiam?

É hilariante a afirmação de que “a edificação do novo Estado significou a instauração de um verdadeiro e genuíno poder popular, uma nova forma de democracia participativa – os sovietes”.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que os sovietes não eram mais do que correias de transmissão do único partido existente na URSS: o PCUS. Os sovietes foram completamente burocratizados e não passaram de mais um instrumento de limitação das mais elementares normas democráticas. Senhor Jerónimo de Sousa, a democracia não tem adjectivos: ou é ou não é.

Bem, eu pagaria para ver o dirigente comunista dizer aos chechenos, tártaros da Crimeia, estónios, lituanos, etc., etc., o seguinte: “De facto, a fundação em Dezembro de 1922 da URSS como união voluntária de nações iguais em direitos, significou um exemplo para todo o mundo da forma como a nova sociedade se construía e dos novos princípios em que se baseava e resolveu um gigantesco e complexo problema nacional”. As deportações em massa, a que dezenas de povos foram sujeitos, é mais uma prova de que Jerónimo de Sousa foge à verdade.

Parafraseando António Aleixo, para que as mentiras passem melhor é preciso misturar alguma verdade: “A URSS, num curto período de tempo histórico, alcançou um significativo desenvolvimento industrial e agrícola, erradicou o analfabetismo e generalizou a escolarização e o desporto, eliminou o desemprego, assegurou a saúde pública e a protecção social, garantiu e promoveu os direitos das mulheres, das crianças, dos jovens e dos idosos, expandiu o impacto dos movimentos de vanguarda artística e as formas de criação e de fruição da cultura, conquistou um elevado nível científico e técnico, colocou em prática formas de participação democrática dos trabalhadores e das massas populares, empreendeu a solução da complexa questão de nacionalidades oprimidas, incrementou os valores da amizade, da solidariedade, da paz e cooperação entre os povos”.

Quanto á vanguarda artística e formas de criação, por exemplo, o dirigente comunista faz de conta desconhecer em que se transformou a arte soviética, numa coisa chamada “realismo socialista”, que matou qualquer tipo de criatividade. Os inovadores, fossem escritores, pintores ou músicos, foram perseguidos, presos ou obrigados a fugir da URSS.

Aqui recordo mais uma anedota soviética. “O que é um trio soviético? É o que resta de uma orquestra do Teatro Bolshoi depois de uma digressão pelo Ocidente”.

No que respeita à amizade dos povos, Jerónimo de Sousa certamente não terá em vista o anti-semitismo ou as perseguições de que acima falei.

Estaria de acordo quando o líder comunista escreve sobre os êxitos económicos e sociais que “no final da década de 80 do século XX, a URSS encontrava-se na vanguarda em diversas tecnologias; possuía um terço do total de médicos do mundo e a mais baixa taxa de mortalidade do planeta” ou ainda que “em 1980, a União Soviética tinha 997 médicos para 10 mil habitantes e todos os tipos de assistência médica eram gratuitos”, mas só se ele fosse capaz de explicar o que levou uma superpotência tão próspera a ruir onze anos depois. Será que devemos mandar às malvas o marxismo-leninismo, no que respeita ao papel das massas, e acreditar que foi mesmo a CIA e um grupo de traidores que deram cabo, em tão pouco tempo, de um regime tão sólido como o soviético?

“A Revolução de Outubro projectou-se em todo o mundo determinando grandes conquistas e avanços civilizacionais e libertadores para os trabalhadores e para os povos”: esta é, talvez, a única verdade existente entre a enxurrada de mentiras disparada por Jerónimo de Sousa.

Mas já foge à verdade quando acrescenta que, “no seguimento da Segunda Guerra Mundial, foi ainda com o determinante papel da União Soviética que se alterou profundamente a correlação de forças internacionais, dando origem a uma nova ordem mundial que ficaria consagrada na Carta da ONU”. Como é sabido, Estaline não libertou metade da Europa do fascismo, mas substituiu esse jugo tenebroso por outro que não lhe ficou atrás quanto ao terror e violência.

Depois de enumerar os problemas do capitalismo que todos conhecemos, o dirigente do PCP continua teimosamente a insistir que “o futuro da humanidade não reside na exploração, opressão, pobreza, injustiça e guerra, mas sim na realização do sonho milenar do homem, na sua libertação, na paz, no progresso social e na justiça – no socialismo e no comunismo”.

Não nos venha com receitas velhas e promessas de que “nós não iremos repetir os mesmos erros”. O resultado é sempre o mesmo. Por isso, não nos venda mais mentiras, pois hoje é 7 de Novembro e não 1 de Abril.

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