Adeptos a criarem um fundo para salvar o clube ou um ‘grande’ a querer jogar à luz do dia para fugir às contas da eletricidade. Em 2009, a Grécia bate no fundo, pede ajuda ao FMI e o futebol começa a arrastar-se com as consequências. Na época 2012/13, por exemplo, bastou ao Benfica contratar Salvio (11 milhões de euros) para quase duplicar o valor total gasto em transferências pelos 18 clubes da primeira liga grega (6 milhões). E as dificuldades sucederam-se.

O AEK que o diga. A 14 de abril, a última jogada do encontro contra o Panthrakikos tinha tudo para ser inofensiva. Não foi. Ao tentar cortar a bola na área, Mavroudis Bougaidis (AEK) acabou por a desviar para a própria baliza. Auto-golo e tragédia. Segundos depois, Bougaidis e os outros 24 homens em campo (os três árbitros incluídos) batiam em retirada rumo ao balneário – o relvado estava a ser invadido por quase duas centenas de adeptos do AEK de Atenas. Não houve mais jogo.

O tique-taque do relógio estava nos 87 minutos e uma derrota condenava o AEK à primeira descida de divisão em 89 anos. Resultado: a invasão de campo valeu-lhe uma multa a rondar os 11 mil euros, além de atribuir os três pontos ao adversário. Onze ligas e 14 Taças da Grécia depois, a despromoção estava confirmada. E por esta altura já eram vários os jogadores com quase um ano de salários em atraso.

A desgraça do lado verde de Atenas

ZecaPanathinaikosCortada

O AEK não foi o único a sofrer em Atenas. Em março de 2012, as dívidas acumuladas do Panathinaikos – 20 campeonatos e 18 Taças da Grécia conquistadas -, em conjunto com resultados desportivos aquém do esperado, levaram o clube à ruptura. O rastilho foi uma derrota caseira com o Olympiakos: também aí os adeptos invadiram o campo e as bancadas irromperam em motim. A direção demitiu-se e o clube esteve dois meses à deriva, sem presidente.

Em julho, sob o leme de Giannis Alafouzos, dono da Skai Group (um dos maiores grupos televisivos no país), os adeptos criaram um fundo de solidariedade, a Aliança do Panathinaikos. Pelo valor mínimo de 20 euros, qualquer pessoa podia comprar ações do clube em troca de regalias – como descontos nos lugares de época ou na compra de artigos do clube. Mais de 8 mil nomes disseram que sim. A 18 de julho, o fundo reclamou o Panathinaikos quando Giannis Vardinogiannis, ex-presidente, lhe concedeu 54,7% das ações do clube e fez da equipa verde de Atenas a segunda no país detida inteiramente por adeptos (antes, só o Aris Salónica). Mas nem por isso os problemas fugiram.

Logo em novembro de 2012, o clube chegou a pedir à Liga Grega que passasse a agendar as suas partidas caseiras em horário diurno. Isto devido às dívidas acumuladas com a direção do Estádio Olímpico da capital, após não conseguir pagar algumas faturas de eletricidade. O Panathinaikos gastava cerca de um milhão de euros por mês para montar casa no Estádio Olímpico, onde a maioria das partidas ocorriam durante a noite. No início de 2013 optou por regressar ao antigo recinto, o Apostolos Nikolaidis.

No começo desta época, o clube (onde está Zeca, português ex-Vitória de Setúbal) foi um de 13 clubes a ter as contas escrutinadas pela Federação Helénica de Futebol – e teve até de recorrer da decisão da entidade, que inicialmente lhe retirou a licença para competir no campeonato grego. Em 2012/13, o ‘Pana’ terminou no 6.º posto e pela primeira vez desde 1997 não garantiu um lugar nas competições europeias.

exceção e a distância para Portugal

PauloMachadoOlympiakosCortada

A calculadora do lado vermelho de Atenas conta outra história. Desde que a ‘troika’ disse olá à Grécia, o Olympiakos (hoje com Paulo Machado no plantel) só não conquistou o campeonato em 2010 – ano do último triunfo do rival Panathinaikos. De resto, desde 2009 que o clube de Piraeus (subúrbio de Atenas) terminou sempre a liga com pelo menos sete pontos de vantagem. No armário tem já os troféus de 40 ligas e 26 Taças da Grécia.

E quando é altura de fazer compras também leva avanço. Contabilizando os milhões que a liga grega gastou a contratar jogadores nas últimas seis épocas (desde 2008/09), a fatia do Olympiakos corresponde a 47,1% do total. Ou seja, nos 150,8 milhões de euros gastos desde então, o campeão grego contribuiu com 71,1 milhões. Chegou ao ponto de, na temporada transata, apenas 2,4 dos 14,4 milhões utilizados terem vindo dos restantes 17 clubes da primeira liga.

Desde 2008/09 que os gastos do campeonato grego em contratações nunca se aproximaram sequer do valor registado pela liga portuguesa. Em seis temporadas, aliás, só as últimas duas (2012/13 e 2013/14) é que meteram no saco de compras da liga helénica um maior número de jogadores, em comparação com o campeonato português.

Os trunfos milionários como única saída

Voltando ao AEK, o clube assina por baixo na lei de Murphy – quando algo pode correr mal, correrá mesmo. Em abril de 2012, consumada a despromoção, a segunda divisão foi apenas uma escala para o clube de Atenas. A dívida à banca e a investidores privados, a rondar os 170 milhões de euros, obrigou a direção do clube a declarar falência e a voluntariamente descer mais um degrau. O AEK decidiu competir na terceira divisão, habitar entre amadores e por lá tentar reerguer-se.

A diferença é o trunfo que hoje tem no bolso: Dimitrious Melissanidis. Em junho de 2013 foi eleito presidente do clube pela terceira vez (já lá tinha andado na década de 90) e com ele trouxe os milhões vindos da Aegean Marine Petroleum Network, a maior empresa privada, e fornecedora, de petróleo do mundo. Era o resgate que o AEK precisava. Em 11 meses, Melissanidis já angariou contratos de publicidade com a OPAP (empresa de apostas online), a Fujitsu e a Nova Sports (uma estação de televisão grega). Até planos para construir um novo estádio já foram anunciados. Em suma, finda a desgraça, o AEK está a inverter caminho graças ao empurrão de um investidor.

Em Salónica também se sofre

MiguelVítorPAOKCortada

Um resgate é algo que o Aris de Salónica também poderá precisar. Em março, o clube da segunda maior cidade da Grécia confirmou a descida à segunda divisão – um dia após celebrar o seu 100.º aniversário. O PAOK (de Miguel Vítor), o seu rival de Salónica, também sofreu com dinheiros.

No final de 2011/12 foi obrigado a libertar vários jogadores dos seus contratos por não ter capacidade financeira para os honrar. Em outubro de 2012, Ivan Salivvidis, milionário grego com dupla nacionalidade russa – amigo de Roman Abramovich, o proprietário do Chelsea -, adquiriu o clube e tudo prometeu melhorar. “Quando soube que o PAOK enfrentava sanções da UEFA e o risco de exclusão das competições oficiais, o meu dever era entrar em negociações para comprar o clube”, explicou, na página que lhe é dedicada no site oficial do clube.

Savvidis, um ex-deputado russo, é listado pela Forbes como um dos 30 mais ricos do país, além de ser proprietário da Donskoy Tabak, uma das maiores tabaqueiras da Rússia. “Por agora o objetivo é salvar o PAOK e nenhuma contratação será feita sem passar pelo meu aval”, vincou também.

A fina rede que vai aguentando os clubes gregos já levou a FIFpro a aconselhar cautela. Em agosto de 2013, o sindicato mundial de jogadores avisou os futebolistas profissionais a pensarem duas vezes antes de fazerem as malas rumo a um clube grego. “A FIFpro sugere aos jogadores que sejam muito críticos na hora de assinarem um contrato com na Grécia, Chipre e Turquia, especialmente os que não participarem em competições europeias”, defendeu, na altura, a entidade.

E já se falou que o terceiro resgate financeiro à Grécia pode estar a caminho.