Começava o trabalho na Baía dos Golfinhos às 9 horas, todas as terças-feiras. A única tarefa de Dinis Sousa era garantir que as pessoas não tocavam nos vidros quando os golfinhos se aproximavam. Agora fica no Jardim Zoológico de Lisboa até às 19 horas, mas noutro serviço. Tinha sido transferido temporariamente para o Bosque Encantado, e a mudança acabou por ser permanente, nunca mais quis sair de lá. São cerca de seis anos dedicados ao Zoo e só lamenta não ter começado mais cedo – a verdade é que não conhecia essa possibilidade.

Todas as semanas, às terças-feiras, Dinis Sousa começa o dia a lavar os tapetes das gaiolas das aves, como as araras e os papagaios, e a substituí-los pelos tapetes lavados do dia anterior. Cumprimenta todos os animais à chegada e é saudado com uma “algazarra bestial”, diz. Mas esta semana não será assim. Esta quarta-feira é um dia especial, o Jardim Zoológico completa 130 anos, e a equipa responsável pela apresentação das aves – treinadores e voluntários -, tem de estar toda presente. “Para mim é uma honra pensar que sou útil neste dia”, afirma Dinis, depois de Clara Ferreira, a responsável pela equipa, lhe ter pedido que trocasse o dia de voluntariado.

Nas manhãs em que não vai para o Zoo, vai correr para o Parque das Nações. Começou a correr depois dos 40 anos, quando fez parte da equipa de veteranos de atletismo da TAP (empresa onde trabalhou durante 36 anos como auxiliar de mecânico), e nunca mais parou de treinar. No fim das corridas matinais costuma passear pelos relvados à procura dos ninhos de melros – gosta de os ver levar comida para as crias. Também aprecia observar as aves que vivem junto ao rio Trancão – flamingos, garças, maçaricos e pernilongos.

Um dos voluntários mais antigos

Dinis Sousa está no Zoo desde 2008 e acumula a experiência com a assiduidade. Paula Machado, responsável pelos voluntários, salienta mesmo que Dinis “é o voluntário mais assíduo”. Com 72 anos mostra-se uma pessoa muito dinâmica e com vontade de trabalhar. Nos bastidores do Bosque Encantado há sempre trabalho para fazer. “Saio às 19h, à mesma hora que eles.” Um dia-a-dia muito ativo e “uma equipa extraordinária” fazem com que adore este trabalho. “Desde a primeira vez que vi aquelas pessoas, gostei delas e elas gostaram de mim.” E nunca mais quis voltar ao delfinário onde tinha começado o voluntariado.

Nos bastidores da apresentação das aves enche os bebedouros de todas elas, estejam nas gaiolas ou nos poleiros do exterior. Por vezes rega as plantas do cenário, arranca umas ervas, varre umas folhas, faz o que for preciso. A única coisa que não consegue é ficar parado. Também dá uma ajuda na apresentação – monta o cenário, transporta algumas aves e até faz entrar uma arara. Fica escondido num poleiro com a ave na mão até que alguém diz: “Uma arara mais jovem à procura de fruta fresca numa árvore”. E lá vai ela.

Gosta do voo dos abutres, dos milhafres e da águia-azul-do-chile. Acha piada à reacção das pessoas quando vêem o bando de inseparáveis-de-angola, também chamados periquitos-namorados, voar em direcção a uma árvore: “Olha! Fugiram!”, dizem espantados os visitantes, para depois verem o bando regressar à origem. Mas sem dúvida que a ave preferida é a corujinha-do-mato-tropical. Faz um movimento simples, sai de dentro dos arbusto para ir buscar a recompensa e volta a entrar, mas Dinis Sousa adora-a.

Nunca se cansa de ver a apresentação. “Sinto um arrepio, nem sei explicar bem.” Conhecendo a paixão do voluntário, Hugo Condez, o treinador mais antigo da equipa, costuma chamá-lo para o ir ver treinar as aves. “Impressiona-me muito a maneira como as aves aprendem. Isto porque as pessoas como o Hugo e a Clara têm uma dedicação extraordinária, muita paciência para ensinar as aves”, diz Dinis Sousa.