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São vários os argumentos da moção de censura ao Governo que estão a dificultar a vida ao PS. Os socialistas querem censurar o Executivo de Passos Coelho (merece uma censura “violenta”, defendem), mas as considerações do texto da moção de censura, a que António José Seguro disse que ‘sim’ antes de ver a proposta, incendiaram o grupo parlamentar.

E o que é que o PCP diz na sua moção de censura, a que chamou de “Travar a política de exploração e empobrecimento, construir uma política patriótica e de esquerda”, que coloca dificuldades ao PS?

  • Saída do euro: é uma bandeira de campanha do PCP e está no texto desta moção. Os comunistas defendem na moção de censura a adoção de “medidas que preparem o país face a uma saída do euro”, mas esta é uma ideia impensável para a direção do PS. Francisco Assis, cabeça de lista do PS às europeias, argumentou em entrevista ao Sol na pré-campanha que votar no PS garantiria “encontrar soluções para os problemas europeus e portugueses dentro do euro”;
  • Tratado Orçamental é “instrumento de dominação”: a moção do PCP descreve o documento que visa estabelecer tetos máximos para o défice e a dívida pública como um “instrumento de dominação da União Europeia”. Ora, o PS aprovou o Tratado Orçamental conjuntamente com o PSD e o CDS e diz jurar cumpri-lo caso se torne Governo;
  • Culpa do PS no programa de ajustamento: “Três anos passados sob o manto do pacto de agressão que PSD, PS e CDS subscreveram, a obra de destruição do país e das condições de
    vida dos portugueses está à vista”, escreve o PCP sobre a situação do país. Uma frase de difícil concordância por parte dos socialistas (principalmente os socráticos). Na moção de censura ao Governo apresentada no ano passado, Seguro escreveu que o PS “sempre se opôs à política de austeridade do Governo, alertando para as consequências na destruição da economia e do emprego”;
  • Reforma do IRC é “privilégio do grande capital”: a reforma do IRC, aprovada pela maioria e pelo PS, é também visada na moção de censura do PCP. Esta reforma é listada pelos comunistas como um “incentivo” e “manutenção de privilégios ao grande capital” e é apelidada de “bónus fiscal”. Este foi um dos raros acordos a que o PS conseguiu chegar com a maioria fazendo com que, entre outros pontos, passasse a haver uma taxa reduzida de 17% para empresas com lucros até 15 mil euros.
  • Voltar às nacionalizações: no texto da moção, o PCP pede ainda “o aumento da produção nacional, a recuperação para o Estado do setor financeiro e de outras empresas e setores estratégicos indispensáveis ao apoio à economia”. Isto significa voltar às nacionalizações. Outra defesa impossível por parte do PS.

Mas nem tudo afasta PS e PCP. Comparando a moção de março de 2013 do PS com a do PCP que esta sexta-feira irá a plenário, encontram-se alguns tópicos em comum como o desemprego, a emigração forçada dos jovens e o aumento da pobreza. “As principais vítimas da política do Governo são os mais pobres e as classes médias, gravemente afetadas nas suas condições de vida”, apontava o PS no ano passado. Agora, o PCP acusa o Governo de condenar “o povo ao empobrecimento”. Para os comunistas, o “objetivo central da ação governativa é empobrecimento do povo e do país”.

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