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Caros leitores e sócios do Observador, estão concentradíssimos para ler este artigo? Decidimos lembrar o jogador português mais jovem a atuar num Campeonato do Mundo. Depois deste arranque (nada original!) está fácil de ver quem foi… Estamos a falar de Paulo Futre, pois claro. O canhoto tinha apenas 20 anos no México-86, o tal da polémica. Apesar da tenra idade, o talento era gigante e o então jogador do FC Porto já merecia o número 10, aquele que antigamente só os craques vestiam. Esse Mundial não deixa grandes memórias para os portugueses, muito menos para um miúdo que queria conquistar o mundo.

“Recordo-me sempre quando chego a Portugal e tenho vergonha pelos meus pais, em especial pelo meu pai. É a página negra do futebol português e eu estava lá, tinha 20 anos e foi tudo mau”, lembrou em entrevista à Agência Lusa há qualquer coisa como duas semanas. Bom, segundo o próprio, nem tudo foi terrível: a aproximação entre jogadores do Benfica e FC Porto foi positiva. “No autocarro, iam os jogadores do FC Porto atrás e os do Benfica à frente; nas mesas de refeição, eram os jogadores do FC Porto de um lado, os do Benfica do outro. Havia uma grande rivalidade”, contou.

A seleção chegou ao México semanas antes da prova. Futre chegou a dizer que chegaram até antes dos próprios mexicanos. O primeiro problema entre os jogadores e a Federação prendeu-se com os contratos de publicidade. “Todos temos um pouco… ou uma grande culpa. É normal que nós, jogadores, apontemos mais para a Federação porque é o primeiro Campeonato do Mundo em que aparece a publicidade e a Federação não quis dar-nos um pouco da tarte. Quis ficar com toda a publicidade para eles. Foi daí que apareceram todos os problemas, toda a confusão”, explicou na mesma entrevista.

Greves aos treinos, festas com mexicanas, campo de treino miserável e jogos-treino contra cozinheiros. Houve de tudo em Saltillo, segundo confirmou o ex-jogador numa entrevista ao Sol em maio de 2011. “Foi tudo tão mau que aquilo já não era Mundial. Não era nada. O campo de treino era horrível; uma vez jogámos contra uma equipa de cozinheiros mexicanos que vinham do trabalho”, disse. O extremo revelou ainda que na primeira folga a que tiveram direito pensou “que se lixe!”. Começaria aí a desligar-se da mentalidade com que havia chegado ao México.

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Apesar de todo este ruído, a caminhada de Portugal no México-86 até começou de forma brilhante. A equipa de José Torres venceu a Inglaterra de Bobby Robson na jornada inaugural com um golo de Carlos Manuel. A jogada foi de Diamantino, que, pela direita, ultrapassou Kenny Sansom e cruzou ao segundo poste. Recorde ou conheça aqui o golo e delicie-se com a loucura do comentador. Futre entrou apenas aos 73’, dois minutos antes do golo. Coincidência? Talvez. “Começámos bem. Acho que ali foi mais o orgulho: foi uma vitória contra a Federação. Foi um jogo de raiva, não por estarmos num Campeonato do Mundo mas por estarmos em guerra com eles [FPF]. Foi de raiva contra eles. Tínhamos de estar todos unidos”, explicou na entrevista à Lusa.

Seguiu-se uma derrota com a Polónia (0-1), cortesia de um tal de Smolarek, que até tem ligações intímas a Portugal. Cinco anos antes, o polaco havia registado o seu filho com um nome especial: Euzebiusz Smolarek. Sim, em honra do “King”, com destino traçado como jogador de futebol. Futre jogou os segundos 45’. O descalabro chegou no terceiro jogo contra Marrocos, uma seleção treinada pelo brasileiro José Faria. Khairi marcou o primeiro logo aos 19’. Oito minutos depois bisou. Portugal, com Futre em campo, não conseguia fazer mossa e reduzir um marcador que surpreendia muitos. O três-zero chegou aos 62’, por Krimau. O golo de honra luso chegaria tarde de mais (79’), por Diamantino, que tinha saltado do banco de suplentes 11 minutos antes.

Assim acabava a aventura dos portugueses no México-86. Sem brilho, sem glória e com muitos casos a pesar na bagagem. Na mesma entrevista ao Sol, Futre lembrou ainda a razão de ter ficado quase dois anos sem ir à seleção. “Não foi por castigo mas por solidariedade com os meus colegas castigados. Seria incapaz de os atraiçoar. Então os gajos estiveram lá na luta comigo e depois eu ia jogar enquanto eles estavam castigados? O Álvaro [Magalhães] era o meu companheiro de quarto e foi o único que saltou esta norma. Depois ninguém falava com ele na seleção…”

OS OUTROS BENJAMINS DOS MUNDIAIS

Em 1966, na Inglaterra, António Simões foi, aos 22 anos, o jogador mais jovem a atuar pela seleção portuguesa. O então jogador do Benfica foi titular nos três jogos da fase de grupos — Hungria (3-1), Bulgária (3-0), Brasil (3-1) — e até marcou contra os canarinhos na última jornada. O jovem Simões seria titular nos quartos-de-final, no tal jogo épico de Eusébio contra a Coreia (5-3), e nas meias contra a Inglaterra (1-2).  Otto Gloria confiava e muito neste pequeno grande jogador (1.67m).

Em 2002, o título de benjamim pertenceu a Hugo Viana, um canhoto que substituiu Daniel Kenedy, depois deste ter acusado positivo num controlo de doping. Esse verão foi intenso para Viana, já que se transferiu para o Newcastle de Bobby Robson e jogaria o primeiro Mundial da carreira. Jogaria… dizemos bem, pois António Oliveira não utilizaria nem um minuto o jovem de 19 anos.

Em 2006, aquele que se transformaria no futuro num dos melhores futebolistas da história teve a oportunidade de jogar o seu primeiro Campeonato do Mundo. Cristiano Ronaldo mereceu a chamada de Luiz Felipe Scolari para jogar o Alemanha-2006 com 21 anos. O extremo então no Manchester United alinhou nos seis jogos (484′) e até marcou um golo e fez uma assistência.

Em 2010, um rapaz das Caxinas foi o mais jovem da comitiva lusa. Aos 22 anos, Fábio Coentrão jogou o seu primeiro Mundial depois de uma grande temporada ao serviço do Benfica. O canhoto jogou os quatro jogos (360′) e fez uma assistência para golo.

Na Copa do Mundo do Brasil, que arranca daqui a três dias, o “minino”, como diria Felipão, será Rafa Silva, um médio criativo do Sp. Braga. Aos 21 anos, poderá estrear-se num Campeonato do Mundo, tal como aconteceu com Ronaldo em 2006.