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Csanád Szegedi era uma estrela no Jobbik, partido de extrema-direita húngaro que ajudou a fundar em 2003. Os membros do Jobbik defendem, entre outras coisas, que os representantes da esquerda deviam ser presos, que os ciganos deviam ser expulsos do país e pensam que a União Europeia quer escravizar a Hungria.

Alguns deles acreditam que o Holocausto e os campos de extermínio não passam de invenções dos judeus para gerar sentimentos de culpa e com isso conseguir obter dinheiro. Um dos deputados chegou a pedir, no Parlamento, que fosse feito um registo de todos os judeus húngaros.

Líder parlamentar no Parlamento da Hungria, Szegedi foi eleito em 2009 para o Parlamento Europeu. Por escrito ou nos seus discursos, defendeu várias vezes que os judeus tinham o plano de saquear a Hungria e que estavam aliados com a comunidade cigana com o objetivo de transformar os “húngaros puros” numa minoria dentro do próprio país.

Em público, chegou a vestir calças pretas militares e um colete da Guarda Húngara, uma milícia neo-fascista que Szegedi criou em 2007, mas que foi banida em 2009 pelos tribunais. Os membros deste grupo costumavam exibir, em paradas, uniformes negros semelhantes aos do partido da “Cruz Flechada”, um movimento fascista e pró-alemão que governou na Hungria no final da Segunda Guerra Mundial e que foi responsável pela entrega de cerca de meio milhão de judeus húngaros à Alemanha nazi.

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A popularidade de Szegedi despertou alguma inveja junto dos colegas que começaram a procurar histórias que pusessem um fim ao seu prestígio. Em 2010, Zoltam Ambrus, que cumpriu pena por posse de armas e explosivos e era conhecido de Szegedi, recebeu um conjunto de documentos – provavelmente originários dos arquivos da polícia secreta comunista – que provavam a origem judaica de Szegedi.

Quando Ambrus confrontou Szegedi com essas informações, o número dois do Jobbik tentou comprar o silêncio de Ambrus que tinha colocado uma câmara a filmar o encontro. Ambrus recusou o suborno e informou o partido.

Tal como relata a versão inglesa da revista Der Spiegel, no verão de 2012, os líderes do Jobbik confrontaram o seu líder parlamentar. O dirigente, Gábor Vona, chegou a expressar algum entusiasmo com o anúncio. “Fantástico. Agora és o nosso escudo contra as acusações de que somos um partido antisemita”, terá dito.

Mas a maioria do partido não pensava assim. “O melhor seria darmos-te um tiro para que pudesses ser enterrado como um húngaro puro”, terá ouvido Szegedi, num relato nunca confirmado oficialmente.

No verão de 2012, deixou o Jobbik e procurou a avó materna que contou pela primeira vez ao neto de 31 anos a história da família. Segundo a Der Spiegel, Szegedi garante que aprendeu em casa que ser judeu era, de certa forma, uma coisa má. Por outro lado, lembra, foi esbofeteado pela mãe quando, em criança, contou em casa uma anedota sobre judeus que ouviu na escola.

A revista alemã contou a história de Magdolna Klein, a avó de Szegedi que com 25 anos foi posta numa carruagem de transporte de gado e enviada para o campo de concentração de Auschwitz. O primeiro alemão que Magdolna viu foi o médico Josef Mengele, conhecido pelas experiências feitas em prisioneiros. Na seleção inicial, Mengele terá decidido que Magdolna passaria para o lado direito – para onde iam aqueles que tinham sido escolhidos para trabalhar. No lado esquerdo ficaram os que acabariam nas câmaras de gás.

No final da guerra, só 105 dos 14 mil judeus que antes viviam em Miskolc, no leste da Hungria, regressaram. A avó de Szegedi foi uma das sobreviventes e casou com outro sobrevivente, um judeu que havia perdido a primeira mulher e os dois filhos, assassinados. O casal assinalou a união numa cerimónia ultraortodoxa e continuou a frequentar a sinagoga.

Mas Magdolna escondia o número tatuado no braço pelos nazis. Mesmo nos dias mais quentes, usava camisolas com longas mangas para que as zonas dos pulsos não fossem visíveis.

Em 1956, durante a rebelião húngara de Budapeste contra os comunistas, a avó de Szegedi assistiu, assustada, ao enforcamento de um polícia. Quando lhe tiraram as calças, viram que era circuncidado e para a multidão essa foi a prova de que os comunistas húngaros eram judeus.

Nesse dia, ela e o marido decidiram renunciar à sua religião e pararam de visitar a sinagoga. Quando a mãe de Szegedi fez 14 anos, ouviu o pai contar-lhe o passado da família mas pediu-lhe segredo. O avô de Szegedi terá ficado muito contente quando a filha casou com um não-judeu “como proteção”, disse o antigo deputado do Jobbik, citado pelo Haaretz.

Depois de ouvir esta história, Szegedi enviou uma mensagem ao rabino Köves que começou por ficar desconfiado mas concordou encontrar-se com ele. “Encontrei-me com um homem em queda livre que tinha perdido todos os amigos e conhecidos”, disse o rabino, citado pela Der Spiegel. Depois de consultar os colegas, Köves chegou à conclusão que o antigo deputado de extrema-direita precisava de ajuda e aconselhou Szegedi a cumprir um rigoroso regime de estudo e contemplação, aconselhando-o a não falar com os média.

Szegedi começou a estudar a Torah e viajou até Israel, onde visitou o Yad Vashem, o museu do Holocausto. Adotou uma alimentação Kosher e um nome hebraico – David – e juntamente com a mulher, que está também a converter-se ao judaísmo, tem aulas de religião judaica. Também começou a aprender hebraico. Para além de tudo isso, Szegedi deu palestras a estudantes húngaros dentro do campo de extermínio de Auschwitz.

Em junho de 2013, foi circuncidado no apartamento do rabino Baruch Oberlander, o diretor da Chabad (um dos maiores movimentos ultraOrtodoxos) de Budapeste por um mohel – um judeu treinado para fazer as circuncisões – chegado de Israel.

Dos 613 mandamentos que os judeus Ortodoxos têm de seguir, Szegedi ainda só consegue cumprir cerca de 80. “Estou a tentar, mas não acontece de um dia para o outro”, disse à revista Der Spiegel.

Depois de deixar o partido em 2012, Szegedi encerrou a loja online onde vendia t-shirts com propaganda neonazi e queimou centenas de cópias do seu manifesto – “Eu acredito na ressurreição da Hungria” -, recheado de passagens antisemitas. Guardou, como independente, o lugar no Parlamento Europeu para o qual foi eleito pelo Jobbik para não deixar que outro membro do partido ocupasse o assento.

Apesar de tudo isto, há quem não acredite na conversão de Szegedi. A primeira vez que assistiu a um serviço religioso numa sinagoga viu muitos levantarem-se e saírem em protesto.

De acordo com David Mandler, no Budapest Times, “quer a direita quer a esquerda, quer judeus quer simpatizantes neo-nazis” veem Szegedi como um oportunista. Na Hungria, escreve Mandler, Szegedi “é visto como um político desonesto que percebeu ter de se reiventar como um nazi convertido em judeu para conseguir fazer dinheiro no futuro”. Para o Jobbik, é um traidor que se juntou ao lado inimigo. A maior parte dos judeus húngaros rejeitou Szegedi e nutrem por ele um “ódio visceral”, diz Mandler.

Em 2013, as autoridades canadianas não permitiram a presença de Szegedi no país, onde este se encontrava para dar uma palestra sobre a sua história junto da comunidade Chabad de Montreal. A visita causou uma reação muito negativa junto da comunidade judaica

Neste pequeno documentário feito por uma televisão canadiana é possível ver, nos primeiros minutos, a fúria com que o assunto foi discutido. Nessa peça, a Global News acaba por contar a história de Szegedi e contextualizar a ascensão da extrema-direita na Hungria. Nas últimas eleições europeias, o Jobbik ficou em segundo lugar, conquistando quase 15% dos votos e conseguindo eleger três deputados.

Szegedi deverá manter-se como deputado no Parlamento Húngaro até junho de 2014, altura em que haverá novas eleições legislativas. Em julho o mandato no Parlamento Europeu chega também ao fim. Szegedi decidiu não concorrer ao PE nas últimas eleições por considerar não existir na Hungria um partido político com o qual se identifique.