“Eu lembrei muito dele, amei este momento. Foi lindo.”

Ele é o avô de Alice Albuquerque, e o avivar da memória veio com o fado. “Foi Deus” era a música que o avô, maçon, cantava para ela quando era pequena. “Quando estava se arrumando para ir à maçonaria, ele ficava olhando aquela parafernália toda e cantava essa música. Era descendente de franceses, mas adorava fado. Com certeza gostou de alguma portuguesa…”

Alice saiu do Teatro Amazonas, em Manaus, rendida a uma portuguesa, precisamente, Cuca Roseta. “Canta muito. Uma voz belíssima, uma figura linda no palco. Muito bom mesmo!”

No dia em que a seleção portuguesa de futebol aterrou em Manaus, o fado entrou no salão nobre da cultura da cidade. E Cuca Roseta foi a embaixadora. O teatro, ícone da riqueza da região durante a “época dourada” da borracha, tem capacidade para 701 pessoas, mas no final havia quem garantisse que estiveram 1100, a maior enchente de sempre. Na verdade não sobrava uma cadeira vazia e havia várias pessoas em pé ao fundo da sala e em alguns camarotes.

“Foi Deus” foi um dos fados que arrancou mais aplausos, de pé, e o que fez com que se ouvisse na sala um “aí, fadista!”. Mas a cada um dos 19 temas sucederam-se as reacções positivas. De tal forma que Cuca Roseta cantou mais duas músicas para além do que estava previsto no alinhamento. “Foi incrível! A sala estava completamente cheia e este público foi espetacular, teve uma energia maravilhosa”, disse a fadista no final ao Observador.

Durante o espetáculo Cuca Roseta usou dois vestidos, um vermelho o outro verde. Só faltou mesmo o amarelo – “para se perceber como eu sou uma apoiante da seleção, pedi na loja um vestido verde e outro encarnado.”

Cuca Roseta está no Brasil durante o Mundial de futebol numa inciativa que surgiu de uma conversa com o cônsul português em São Paulo e depois se estendeu a outros consolados no país. Na quarta-feira passada, dia 18, actuou em Belém do Pará, no Theatro da Paz, e até dia 25 de Junho ainda vai a Santos (São Paulo) e depois ao Rio de Janeiro. Há-de voltar ao Brasil em Agosto para concertos em Brasília, Salvador, Florianópolis, Goiana, Ribeirão Preto e Curitiba.

A fadista confessa-se uma admiradora de futebol e diz que a presença aqui, nesta altura, tem aumentado o sentimento: “Adoro futebol e agora que aqui ando a viver isto ainda mais de perto tenho visto os jogos todos. Antigamente só via os jogos de Portugal, mas agora tenho visto todos.”

Ao contrário de Cuca Roseta no Teatro Amazonas, a seleção começou fora de tom no Mundial do Brasil, mas a fadista acredita que a equipa vai encontrar o rumo certo. “Pois começou, começou mal, mas eles agora vão ficar cheios de garra e vão ganhar. Às vezes é bom entrar mal, para percebermos que não podemos brincar e estarmos mais atentos.”

Na hora de escolher um fado que possa ilustrar o fado da seleção no Mundial, Cuca Roseta assume a responsabilidade, pega na palavra, e usa-a em causa própria: “Fado da seleção… Fado dos Sentidos, um fado meu que fala de coragem e força.”

Foi um dos que se ouviram no Teatro Amazonas na noite de sexta-feira. Para domingo, e a Arena da Amazónia nem é muito longe dali, fica um excerto da letra: “Não tenhas medo de ser quem és, de teres o mundo contra os teus pés. (…) Sê mais que tu, vai mais além, ao mais alto que o sonho tem. O teu destino é o teu talento.”