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E um, e dois e três. E até quatro. De repente, já eram 18 os remates disparados. Era muito pontapé (ou cabeçada) na bola. Ou demasiado, tendo em conta que nenhum acabava em golo. Nem um. Cristiano Ronaldo, o detentor dos pés que soltam bombas de qualquer sítio do relvado, acabava a primeira parte ainda sem conseguir fazer um golo neste Mundial. Era o único no top-5 de rematadores desta Copa que ainda não tinha posto as redes a abanar com um remate. Frustração? Talvez. Afinal, este era o dia em que mais golos teriam de aparecer a favor de Portugal.

Era preciso atacar, forçar e golear. Quantos mais, melhor. E para isso, Paulo Bento mexeu. Arriscou, mas pouco. Miguel Veloso foi depositado na defesa, e a esquerda passou a servir de torneira por onde começava a sair a bola. William Carvalho e Ruben Amorim passaram a ser o dueto que protegia as costas de João Moutinho, o outro filtro de passes que a seleção tinha na relva. Depois, era abusar do que as pernas de Ronaldo (ainda) pudessem dar.

O quinto minuto aparecia e a perna destra deu um sinal. Ou melhor, o pé: Ronaldo recebia uma bola encostado à direita e viu Éder na área ganesa. Não se sabe onde focou a mira, mas a bola que o capitão rematou foi parar à barra da baliza africana. A coisa começava bem. Este era o 15.º remate de Ronaldo neste Copa e, talvez, o mais perigoso. Aos 12’, Cristiano aparecia à entrada da área para o 16.º remate e a primeira defesa de Dauda. Com 19 minutos no relógio, era a vez do 17.º, agora de cabeça, voltar a mandar a bola direita às mãos de Dauda, após um cruzamento de João Pereira. E o guardião festejava.

Três ameaças seguidas, portanto. O suficiente para o Gana acordar. Portugal tinha mais bola, mantinha-a na relva e nunca antes a trocara tão bem entre os seus pés neste Mundial. Mas os africanos também tinham de vencer — ‘só’ precisavam de vencer por dois golos e esperar que a Alemanha lhe fizesse um favorzinho. Aos 20’, um remate meio inofensivo de Asamoah Gyan era defendido por Beto. Três minutos volvidos, o mesmo homem, na área, esperou por um cruzamento ali perto de Miguel Veloso, e viu quão fácil era para o defesa português se esquecer dele — a bola foi cruzada e o capitão ganês cabeceou-a com perigo para a baliza.

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Aos 30’, o golo. Melhor, o autogolo. Miguel Veloso aventurou-se no ataque, cruzou a bola e Boye, ao tentar tirá-la da área, enviou-a em correio azul para a própria baliza. 1-0, e faltavam mais três. Aqui, porque em Recife, os alemães ainda teriam que marcar um, pelo menos. A urgência aumentou e, aos 32’, aparecia o remate número 18 de Cristiano Ronaldo. Again, sem perigo. Aos 36’, Gyan voltava a tocar com a cabeça numa bola com Miguel Veloso por perto e, a cinco minutos do intervalo, Cristiano Atsu, o antigo extremo do Porto, rematava ao lado da baliza de Beto.

A seleção estava melhor, reconheça-se. A bola fluía, circulava rápido e conseguia tocar em vários pés portugueses de forma sucessiva. Ruben Amorim corria mais do que Meireles em dois jogos e, à esquerda, tapava bem o espaço que, como de costume, um Ronaldo isento de defender deixava para trás. Ao intervalo, havia esperança. Tinha de haver. Faltava que os alemães picasse o ponto, chegassem à fábrica e colocassem a máquina de golos a aquecer contra os EUA. Eles que, ao intervalo, nem com 93% de acerto no passe e mais de 60% de posse de bola tinham um golo a seu favor.

O descanso, porém, só espicaçou os ganeses. Os primeiros dez minutos da segunda metade foram deles. Ataques por todo o lado e correrias até mais não. Cristian Atsu, Asamoah Gyan e André Ayew começavam a chatear a sério. Nani, aos 54’, lá tentou rematar à entrada da área africana, mas um ganês meteu-se à frente. Depois, a segunda boa notícia do dia — a Alemanha marcava. Thomas Müller, o malandro que metera três golos contra Portugal, acabava de marcar o seu quarto neste Mundial (a que se somam os cinco de 2010, na África do Sul). Mas, como todas as notícias, esta, assim que foi dada, deixou logo de ser novidade.

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Os africanos, de repente, empataram quando um cruzamento de Asamoah (o da Juventus), tirado de trivela, foi parar à cabeça do outro Asamoah, o Gyan, para fazer o 1-1. O capitão ganês aprendeu a lição dada pela desatenção de Veloso e marcava o seu sexto golo em Mundiais — ultrapassando Roger Milla, ex-avançado camaronês, como o melhor marcador africano de sempre. Maldita história. A mesma que, com este golo sofrido, o sétimo neste Mundial, dizia que apenas a Copa de 1966, em Inglaterra, mostrara ao Mundo uma baliza portuguesa mais vulnerável (aí, a seleção sofreu oito golos).

E pronto, o cabisbaixo apareceu em campo. Raro foi o português que não o vestiu. Logo aos 58′, Ronaldo, já a imaginar o pior dos piores cenários, disparou o 19.º remate. Foi bloqueado. Depois, a confusão. A bola passou a estar muito mais tempo no ar do que na relva e, quando pousava no campo, era o Gana a equipa que melhor a aproveitava. Aos 61′, foi Waris a intrometer-se no quintal de Miguel Veloso e a cabecear ao lado da baliza. Bruno Alves, como um professor irritado por ver o mesmo erro a ser repetido, refilava com Veloso. E com razão. Aos 68′, uma bomba rebentada pelo pé esquerdo de Asamoah por pouco não tocou no poste esquerda da baliza portuguesa.

O Gana acreditava. Mais que Portugal. Só precisavam de dois golos, enquanto a seleção corria atrás de cinco. Uma mão que continuaria cheia se a Alemanha não voltasse a cumprimentar a baliza dos EUA, no outro jogo (continuava 1-0). Aos 76′, porém, o que viu foi uma tripa oportunidade para o Gana marcar. Três remates, tudo na mesma jogada. E bem dizia Ronaldo, na conferência de imprensa após o encontro: “O que fica no final é que era possível.” Era mesmo, mas os ganeses pareceram acreditar mais vezes nisto do que os portugueses.

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Que, a sério, só o começaram a fazer aos 80 minutos. E só após Cristiano Ronaldo marcar, ao 20.º remate. E, pelo menos, foi caricato. Um cruzamento para a área ganesa acabou com um corte para o ar. A bola tanto subiu que demorou também muito tempo a descer. Quando o fez, foi na direção das mãos de Dauda, guarda-redes africano que estava na pequena área. Portanto, Silvestre Varela nem tentou saltar. Apenas ficou por ali. Dauda, talvez assustado, deu uma estalada na bola e atirou-a para os pés de Ronaldo. Foi só rematar. 2-1 e dez minutos e mais qualquer coisa por jogar. Dava tempo? Sem tentar, nunca se saberia.

E Portugal tentou. Muito. Aos 82′, o mesmo Ronaldo (e o seu 21.º remate) mandava a bola, com a cabeça, contra Dauda. Nani rematava por cima (aos 83′). E Varela deixava o guarda-redes ganês agarrar um remate seu (aos 84′). Com 91 minutos contados, o 22.º remate de Cristiano também não tinha sucesso. Era o último. O derradeira representante da ineficácia portuguesa nesta Copa — o capitão da seleção nacional sai do Mundial com o mesmo número de remates de Karim Benzema, que marcou três golos, e mais cinco do que Lionel Messi, que já leva quatro. Mas, vá lá, Ronaldo garantiu que o seu nome ficou em todas as fases finais de provas em que participou com a seleção — também marcou nos Europeus de 2004, 2008 e 2012, além dos Mundiais de 2006 e 2010.

Era o fim. O final de uma peripécia, daquelas cheias de pneus furados e acidentes pelo caminho. Das que apenas se recordam mais tarde para prevenir que alguma vez se repitam. Esta Copa do Mundo, a do Brasil, foi isto: um grande acidente que nem deixou que houvesse um percurso. São sete golos sofridos e apenas três marcados em três batalhas realizadas.

Pior, só mesmo em 1986, quando o nome de uma terra mexicana batizou um Satillo que se deu no México, de onde Portugal saiu com duas derrotas, uma vitória e apenas dois golos marcados. Aí foi pouquíssimo. Agora, foi muito pouco. No final, Paulo Bento tinha “claro” que Portugal vale “mais do que aquilo” que mostrou. Talvez. O que mostrou, porém, reflete que alguma coisa faltou — o tal valor, a organização, ou até sorte. Seja como for, este Mundial nada de bom deu a Portugal. E a seleção também não lhe retribuiu com nada. Mesmo nada.

PT-GANA