Quase seis meses e nada. O telemóvel tocava, mas, do outro lado, nunca se ouvia a voz de Luis. Era muito tempo. Muita bola a rolar e muitas dúvidas a brotarem dentro da cabeça. Até que finalmente é chamado. “O quê? Achavas que o hijo de puta do velho não te ia trazer, era?”, questionou Aragonés, entre risos, no meio de uma broma, como os espanhóis dizem. Xavi, atrapalhado, respondeu que “em nenhum momento” tinha pensado assim. Luis não acreditou.

Nesse dia, algures em setembro de 2004, as coisas começavam a mudar. Aí, no seu primeiro encontro, Xavi e Luis Aragonés fartaram-se de conversar. “E falaríamos mais mil e uma horas”, admitiria o pequenote (1,70m) médio, espanhol de seleção e catalão de origem, quando se despediu do treinador que nele viu um íman para atrair qualquer bola (Aragonés faleceu a 1 de fevereiro). Hoje, 133 provas e 13 golos marcados depois, ninguém duvida. Na altura, porém, as sobrancelhas erguiam-se.

Luis Aragonés foi o primeiro a deixá-las quietas. Quando chamou Xavi pela primeira vez, o catalão somava 19 jogos pela seleção — apenas oito como titular. Pouco se importou. “Tu e eu sabemos que a bola corre mais do que eles. E tocamos nela melhor do que eles. Aqui mandas tu. E que me critiquem a mim”, disse-lhe, na altura, o treinador. “Fez-me sentir importante quando a minha autoestima era um desastre. Deu-me o comando da seleção quando ainda nem tinha o do Barça”, recordou Xavi, num texto do El País.

Esta aposta e estas conversas. Foi onde tudo arrancou. Em 2006, no Mundial, a liderança já era de Xavi. O médio de pé certeiro, viciado na bola, em não a perder e só a largar para pés amigos, já dava nas vistas. O tiqui começava a dançar com o taka. Nesse ano, até Pep Guardiola, antes de ele próprio dar ordens a Xavi no Barcelona, agradecia a Luis Aragonés por “acreditar em algo em que muito poucos acreditavam: que a bola podia passar por Xavi”. A Espanha, contudo, ficaria pelos oitavos de final.

Mas a crença transformou-se em regra. No meio, ali pelo centro do relvado, o homem do Barcelona passou a ser a portagem para todos os passes. “Pensar rápido e procurar espaços. É o que eu faço: procurar espaços. Todo o dia. Aqui? ali? Espaço, espaço e espaço. É como estar na Playstation. Penso: ‘Merda, o defesa está aqui, então passo para ali.’ Vejo o espaço e passo. É o que eu faço”, descrevia Xavi, em 2011, numa entrevista ao The Guardian.

E num relvado, com onze homens de cada lado do campo, uma bola no meio e golos por marcar, existem espaços que só alguns vêem. Como o tal que Xavi viu, em Viena, e que empurrou Fernando Torres para o golo que deu o Europeu de 2008 à Espanha. “As pessoas descobriram-me em 2008, mas já jogava assim há anos”, chegou a dizer, já bem depois de ser eleito o melhor jogador da competição.

Foi também Xavi quem imaginou o espaço onde Carles Puyol aparecia a saltar, em Durban, na África do Sul, antes de marcar o canto que meteu a bola na cabeça do defesa, no golo que eliminou a Alemanha nas meias-finais do Mundial de 2010. E mais: em 2012, foi ele que apontou o caminho a Jordi Alba, em Kiev, para o catalão fazer o 2-0 na final do Europeu, frente à Itália. São três exemplos de como a visão e a mira certeira desbravaram caminhos para outros percorrerem. E que valeram, a si e aos outros, a conquista de três canecos seguidos.

14 Sep 2000:  Park Ji Sung #2 for Korea chases down Xavi #8 for Spain during the Mens Prelimanary Olympic Soccer match between Spain and Korea at the Hindmarsh Stadium, Adelaide, Australia. Spain defeated Korea 3-0.    DIGITAL IMAGE. Mandatory Credit: Robert Cianflone/ALLSPORT

Meses antes de se estrear pela seleção espanhola, em novembro de 2000, Xavi participou nos Jogos Olímpicos de Sydney, na Austrália.

As peças até nem mudaram muito. Xabi Alonso andava por ali, Busquets também, Iniesta idem, e David Silva ia alternando com Cèsc Fabregas. O meio campo era com eles. Com os pequenotes. “Fizemos uma revolução. Trocámos a fúria pela bola e mostrámos ao mundo que se pode ganhar jogando bem”, defendeu. Argumentos contra, não há. Não podem haver, com dois Europeus (2008 e 2012) e um Mundial (2010) conquistados.

Há dois anos, com o segundo Euro já a descansar nas chuteiras, Xavi disse basta. Com 32 anos, o médio quis despedir-se. “Já todos sabiam que a minha etapa terminara. Avisei a María José Claramunt [diretora das seleções espanholas], mas, pessoalmente, não lhe disse”, contou esta terça-feira, referindo-se a Vicente del Bosque, quando confirmou o abandono da seleção espanhola.

A última vez de Xavi com a La Roja foi no banco. Como suplente viu a seleção, já eliminada, vencer a Austrália (3-0) e tornar-se no quarto campeão mundial em título a sair de uma Copa na fase de grupos. Dias antes, na derrota frente ao Chile, também ficara sentado, de fora, a assistir. “Foi uma deceção muito forte. Das piores da minha carreira”, admitiu.

É o adiós. Do símbolo de uma geração, da bússola de um estilo de jogo e de um dos percursores de uma forma executar uma ideia de futebol. Xavi, o primeiro dos “jogadores baixitos”, como recordou, ao falar dos tais em quem Luis Aragonés apostou e que “trocaram a fúria pelo toque”, já não mais vestirá a camisola da seleção espanhola. “Gosto do facto de o talento, a habilidade técnica, serem hoje mais valorizados que a condição física”, confessou. Enquanto aparecerem jogadores como Xavi, deverá continuar assim.