Hong Kong tem vivido em sobressalto há três semanas. Os manifestantes saíram à rua, exigindo a demissão de CY Leung, o chefe executivo, bem como autodeterminação na hora de escolher o líder. Pequim havia anunciado que a antiga colónia britânica teria liberdade para escolher o líder em 2017, sem interferências. Mas voltou atrás. Estudantes do movimento “Scholarism” e manifestantes saíram à rua e a polícia foi respondendo, normalmente com gás lacrimogéneo e gás pimenta. Para este último caso, os insurgentes recorreram a chapéus-de-chuva, o que levou ao nome do movimento: “Revolução dos chapéus-de-chuva”.

Tem sido um autêntico jogo do gato e do rato. Os manifestantes, com o objetivo de elevar a tensão, procuram ocupar ruas principais para bloquear o acesso ao coração financeiro da cidade. Os polícias vão reagindo, confrontando os protestantes e somando detenções. Mas agora há um vídeo que promete incendiar ainda mais as ruas e elevar o tom dos protestos, conta o New York Times (NYT).

https://www.youtube.com/watch?v=P2aITGfN0qk

Seis homens, que aparentam ser polícias, foram filmados a levar um homem algemado, de barba e t-shirt preta, para o que parece ser um armazém. Enquanto uns controlavam os olhares atrevidos, os outros espancavam-no durante quatro longos minutos. O homem chama-se Ken Tsang e o momento foi captado pela TVB, uma estação de televisão que normalmente está do lado do Governo.

Na noite de quarta-feira, Tsang afirmou que foi “brutalmente” agredido pela polícia durante os protestos e depois na esquadra. O manifestante pondera agora avançar com um processo judicial contra os agentes da autoridade que o agrediram. O corpo e a cara guardam as feridas desse encontro. Na mesma noite, um dos líderes estudantis, Joshua Wong, de 17 anos, disse que a “polícia não é diferente de bandidos”. As declarações mereceram um aplauso ruidoso.

Ronny Tong, um membro do Partido Cívico do Conselho Legislativo, garantiu estar surpreendido com estes desenvolvimentos. “Pensei que situações como esta só se viam em países estrangeiros, noutras sociedades. Não esperava ver isto em Hong Kong”, lamentou. Os organizadores dos protestos nas ruas de Hong Kong agendaram para esta quarta-feira uma nova concentração para apoiar Tsang. “Eles não encararam as consequências”, começou por dizer Alvin Kwok, de 27 anos, ao NYT. “A polícia bater [em pessoas] é completamente inapropriado, e a resposta do Governo hoje… é nada.”

Mas houve resposta por parte do Governo de Hong Kong, que garantiu que Tsang foi detido no meio de uma confusão depois de a polícia dispersar os manifestantes de um túnel, que eles haviam ocupado e onde criaram barricadas, já muito perto da sede do Executivo.

Hui Chun-tak, um porta-voz da polícia de Hong Kong, revelou que os protestantes comportaram-se de uma forma agressiva com a polícia, lançando objetos para a estrada e confrontando as linhas delineadas pelas autoridades. Chun-tak falou ainda em agressões com os chapéus-de-chuva e em pontapés por parte dos manifestantes. Um polícia deslocou o ombro e outro foi ferido no olho por um chapéu-de-chuva, garantiu. O mesmo porta-voz informou também que a polícia iria colocar em marcha uma investigação “imparcial e justa” relativamente ao eventual abuso de força utilizado.

“Está completamente fora de controlo. Eles já não são a nossa polícia”, desabafou Anthony Ho, um técnico informático de 54 anos. O vídeo da agressão a Tsang tem sido partilhado rapidamente e promete criar um novo foco de tensão entre polícia e protestantes. Segundo o NYT, a polícia de Hong Kong goza de uma imagem muito positiva desde os tempos em que era ainda uma colónia britânica. No total, são 28 mil policiais, nos quais se contam 100 com nacionalidade britânica.